A escrita confessional é um modo de ser sincero com o leitor?
por Maíra Vasconcelos
Hoje é um típico dia de outono em Buenos Aires. Um dia frio e cinza, quando as cúpulas dos seus antigos edifícios e as árvores amareladas parecem se ampliar no céu branco. Assim, busco agora o exercício de pensar sobre o que escrever, sem pretender que seja um retorno às crônicas para o jornal. Quando escrever pressupõe o esforço e a decisão de, primeiro, se livrar da vergonha e vencer, ao menos, o texto. Já que, diante da escrita, é comum ver-se vencido, espatifado no ringue de onde também se levanta uma e outra vez. Talvez, por isso, escrevo este texto, para ao menos levá-lo até o final.
Trabalhar qualquer arte, acredito, pressupõe lidar com a vergonha e com a ousadia, ao mesmo tempo. Tenho vergonha, neste momento, mas escrevo também com certa dose de valentia. E se eu seguir nessa linha, talvez, caia em um texto confessional. Confesso que. Com o intuito de dizer tudo o que pareça sincero, mas vindo também dessa necessidade de se aliviar. Quando, realmente, a escrita deve ser mais do que um lugar de depósito do passado de si mesmo. Mas, afinal, ainda que isso seja sincero, o que a literatura quer de quem escreve? Possivelmente, como disse Julián Fuks, em uma de suas últimas crônicas, a literatura pede a sinceridade de comunicação da própria verdade, que resulta em alcançar a voz de escritor, acrescento. Quer dizer, escrever pressupõe encontrar essa voz junto à vida que se leva, seguindo a própria verdade. E se o que há não é a exposição do encontro junto a essa verdade pessoal, então, aquele que escreve ainda não alcançou a escritura, que não é a escrita de si mesmo, mas daquele outro que se escapa ao papel ou à tela do computador.
Mas a palavra confessional, o que transmite, pode ser ainda rudimentar, no melhor sentido, é ainda o trabalho bruto ou cru daquele que está em processo de transformação. Por isso, diários de escritores podem ser o lugar onde o escritor registra o que ainda resta de si mesmo antes de sua transformação pela escritura. Como típicos espaços literários de confissão, os diários retratam o caminho daquele que já não é. Então, não ser sincero ao escrever vai além de não se submergir na própria verdade, talvez seja não ter encontrado sequer a voz do próprio escritor e, ainda assim, continuar a escrever.
Lendo o texto de Fuks é possível entender que, mesmo que se trafegue a própria verdade, isso não garante o encontro com a voz de escritor. Mas garante, talvez, uma escritura mais sincera. E vendo agora minhas pequenas parcelas de verdade, ao observar ao redor a minha vida, diria que ainda não encontrei a voz de escritor. Então, ao escrever, vou apenas manter a busca incessante pela voz e não exatamente terei a voz encontrada? E a relação com a própria verdade, até onde levá-la adiante? Qual é o limite? O limite é imposto pelo corpo? Essa é uma questão que todo aquele que se senta a escrever ou a trabalhar com a arte, com isso se debate. Visto de forma radical, esse “debater-se consigo mesmo” traz a imagem da loucura, o que é bem certo, mas como disse Nise da Silveira, “os artistas e os loucos mergulham nas mesmas águas, mas os artistas voltam”. E, ainda, como disse Fuks, como encontrar a medida entre vida e verdade pessoal sem se fundir por completo no abismo da própria verdade. E isso é uma prova à qual submetemos ou não a própria vida.
Maíra Vasconcelos, jornalista e poeta, de Belo Horizonte, mora em Buenos Aires, escreve crônicas e artigos sobre política argentina no Jornal GGN. Tem dois livros de poemas publicados e uma plaquete.
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