10 de junho de 2026

Não é só o futebol, por Maíra Vasconcelos

Em várias esquinas da Corrientes, uma pequena reunião de vizinhos cantava, “muchachos, agora voltamos a nos iludir”

Não é só o futebol

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por Maíra Vasconcelos

Não é só o futebol. Mas é como se o futebol pudesse reunir todas as minhas vivências argentinas. Na tarde em que pela sexta vez o país de Don Diego Armando Maradona chega à final de um Mundial, como se esse feito bastasse para que em segundos eu sentisse o que foi aquela decisão de viver aqui, em outro país. Neste 13 de dezembro, quando cheguei ao Obelisco, após percorrer uns cinquenta quarteirões pela ciclovia da Avenida Corrientes, desde o querido bairro de Chacarita até o furioso Centro portenho, em segundos, como flashbacks de um filme reduzido a momentos aleatórios e desordenados, sem qualquer critério, o futebol da equipe de Lionel Messi e “La Scaloneta” conseguiu destapar as emoções de uma vida em Buenos Aires.

Em várias esquinas da Corrientes, uma pequena reunião de vizinhos cantava, “muchachos, agora voltamos a nos iludir”, “quero ganhar a terceira, quero ser campeão mundial”. Me aproximava, escutava, cantava também, mas tinha que chegar ao Obelisco, mais uma vez, como na semifinal. Não é só o futebol. Mas é pelo futebol dos jogadores que cantam pelos “pibes de Malvinas”, que agora ao escrever me vem a imagem daquela minha primeira carteira de identidade argentina. Então, de bicicleta deixo Chacarita, bairro de grandes amigas, passo por Villa Crespo, minha morada preferida, depois Almagro, ah, Balvanera. Enquanto lembro também como foi o velório de Maradona em plena pandemia, aquela fila tensa, tumultuada, triste e vibrante ao mesmo tempo. E um amigo confessando suas idas e voltas na relação com Diego, e porque Riquelme quando entrou no Boca, etcétera.

Não é só o futebol. Quando chegava àquela conhecida esquina, Corrientes e Callao. Não estava “a lua que vai passando por Callao”, como no tango de Horacio Ferrer cantado por Roberto Goyeneche, mas era sim a sua versão de um sol escaldante. Uma bella confusão em meio a um trânsito irrepetível, entre motos, carros, bicicletas e transeuntes vindos de uma vitória nas semifinais da Copa do Mundo do Qatar. Quantas vezes passei por esta esquina, já não sei dizer. Mas, foi outro dia, que entrei para conhecer o famoso café “La Opera”, e o fiz porque Emilio Renzi conta em seus diários que aí se reunia com amigos para discutir literatura. Então, não é só o futebol. Mas é como se Buenos Aires se concentrasse, hoje, nas vésperas da final do Mundial, nos pés de Messi, que bateu um pênalti perfeito, no ângulo, aos 34 minutos do primeiro tempo, e abriu o placar contra a Croácia.

Não é só o futebol. Quando Julián Álvarez dominou a bola no pé, correndo todos os 40 metros até furar as redes de Dominik Livakovic e marcar o segundo, lá em Chacarita comíamos mais doces do que no Natal e algumas fumavam dentro do quarto abafado como se estivessem ao ar livre. Ali, vimos que as jogadas da Albiceleste foram ganhando corpo de equipe a cada partida e que ter perdido aquele primeiro jogo, de 2 a 1 para a Arábia Saudita, foi uma lição para o time.

Não é só o futebol. Como se a magia de Messi passeando a bola com elegância para se desfazer do adversário e tocar para Julián Àlvarez, que ali esperava a bola porque sabia, acreditava que o camisa 10, com seus três “Balões de Ouro”, poderia fazer exatamente aquilo que ele fez. Majestosamente Messi entregou a bola certinha para aquele menino que um dia foi eu fã e hoje estava ao seu lado para liquidar a Croácia, terminar o jogo e fechar o placar de três gols para a Argentina. E enquanto caminhava nas imediações do Obelisco, alguém me chama e pergunta, de onde você é? E aquela hora, ainda não tinha caído a lua sobre Callao.

Maíra Vasconcelos, jornalista e poeta, escreve crônicas no Jornal GGN, desde 2014. Cobriu algumas eleições presidenciais na América Latina e escreve sobre política argentina.

Maira Vasconcelos

Maíra Mateus de Vasconcelos – jornalista, de Belo Horizonte, mora há anos em Buenos Aires. Publica matérias e artigos sobre política argentina no Jornal GGN, cobriu algumas eleições presidenciais na América Latina. Também escreve crônicas para o GGN. Tem uma plaqueta e dois livros de poesia publicados, sendo o último “Algumas ideias para filmes de terror” (editora 7Letras, 2022).

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Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

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