Planeta e Brasil, onde tudo mudou. Parte 1
por Rui Daher
A qualquer medida ou projeto que parta do Estado, mesmo da iniciativa privada, e que sirva para amainar a desigualdade social no planeta ou, se mais profunda, como a miséria no Brasil e em outros países pobres (sim, porque o papo de “emergente” é falácia inventada pelos hegemônicos), levanta-se um coro a dizer que “tudo mudou” e programas de apoio social usados no passado não passam de assistencialismo, o que se non è vero, è ben trovato para ricos e elitistas.
Useiro e vezeiro em trazer tais pensamentos para o Brasil, tendo assumido altos cargos até mesmo nos governos de Lula e Dilma Rousseff, esteve nos visitando o filósofo Roberto Mangabeira Unger e suas insistentes credenciais, pois únicas, como professor em Harvard. Veio ver como estava o fedor por aqui, defenestrado RIP, o Regente Insano Primeiro, e empossado o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Chegou chutando o balde em entrevista para a Folha de São Paulo, em 17 de junho, para o repórter Naief Haddad, “Lula parece morar no passado”, baseado em que “tudo mudou”.
É mesmo?
Parece-me que estamos vivendo uma guerra territorial causada por potência econômica de estridente arsenal bélico que já provocou milhões de mortos e refugiados; conflitos regionais que fazem aumentar sofridos êxodos populacionais; pestes pandêmicas mal ou lentamente resolvidas em muitos países de perfil negacionista; novas doenças causadas pela desnutrição; surgimento de seitas religiosas financeiramente gananciosas em seus credos e impeditivas da evolução dos costumes em suas ações; racismo explícito; fome e miséria generalizada; doenças seculares sem cura prevista. Muitas mazelas mais.
Claro que sim. Mas nenhuma evolução? Nas inovações tecnológicas, por exemplo? Muitas delas devemos discutir se para o bem ou para o mal. Em relação ao meio ambiente há mais precariedade do que salvação. O mundo hoje é outro? Para começar, professor Mangabeira, a comparação da mudança refere-se a qual século? Para o Brasil atual, Roberto Mangabeira Unger faz sérias críticas, esquecendo-se do período obscurantista Bolsonaro, para visar o poder incumbente recentemente empossado:
- O PT tenta atenuar a desigualdade sem sacudir as estruturas;
- Marina Silva tem uma visão da Amazônia baseada em extrativismo primitivo e artesanal;
- Políticas sociais compensatórias não são eficazes;
- Mais sincretismo e menos identitarismo importado dos EUA.
Com o pouco que fez, faz e quer fazer, o PT já é estigmatizado como comunista pelo grosso dos eleitores, mesmo os que acreditam que estamos num Estado Democrático de Direito [sic]. Imagine, então, se o PT agisse para “sacudir as estruturas”. Vem fazer, professor “Manga”. A esta altura, a galhofa do colunista já se sobrepôs ao respeito do cabo eleitoral de Ciro Gomes.
Marina Silva? Conhece sua história? Já pisou onde ela nasceu, viveu e estudou, para agir melhor do que ela?
“Assistencialismo” é vão? Fale isso a quem morre de fome, vive entre esgotos, entrega sua cidadania, vê morrer seus rebentos. Ouvirá: “pois não, professor Olavo de Carvalho, dá uma esmolinha aí para eu comprar remédios e leite para os meus barrigudinhos”.
Identitarismo, como idade, gênero, orientação sexual, religião, classe social, etnia, raça, língua, nacionalidade, desrespeitados no Brasil, “importado dos EUA” [sic], como mencionado por “Manga”, a favor do nacionalista Sincretismo, fusão de antigas doutrinas para formar uma nova doutrina “filosófica, cultural ou religiosa”.
Vocês entenderam? Pensava sermos um povo em que subsistiam ambos, juntos e misturados. Me ajuda aí, doutora Marilena Chauí. Faltei nessa aula.
Bem, então a que veio “Manga”? A confundir, como vinha o saudoso Chacrinha. Se “tudo mudou e Lula mora no passado”, o filósofo deve ter em mente um projeto mais eficaz, por certo. Tem. Na parte 2 deste artigo, o discutiremos.
Finalizo, como sempre, com algo de nossa cultura que, em todas as artes coitada, esperneia para não cair na mediocridade. Gal Costa, querida, por que não me esperou? Logo estou chegando aí. Inté!
Rui Daher – administrador, consultor em desenvolvimento agrícola e escritor
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