21 de maio de 2026

Ensaio sobre os martelos, por Felipe Bueno

Nietzsche escreveu que um bom uso para os martelos seria golpear as falsas ilusões que impedem a plenitude do ser humano
BBC

Ensaio sobre os martelos

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por Felipe Bueno

O clickbait dos últimos dias no noticiário internacional é o desentendimento entre o governo de Vladimir Putin e a direção do grupo mercenário Wagner, braço importante das ações militares da Rússia na Ucrânia – e anteriormente em outros pontos menos midiáticos do planeta Terra.

A expressão desentendimento, aliás, pode ser substituída por rebeldia, traição, golpe, guerra civil ou tantas outras, dependendo da análise.

Para quem não tem familiaridade com o termo mercenários, é facultada a substituição por outro, de uso corrente no Brasil: milicianos.

Que o novo foco de preocupações do líder russo tenha origem em um grupo de guerreiros terceirizados possa surpreender, a essa altura do campeonato, é admissível.

Não podemos, no entanto, passar recibo de desentendidos e desentendidas com o fato de que guerras entre nações são criadas, declaradas e sustentadas não apenas em palácios públicos, mas também em escritórios da iniciativa privada.

Nossa ingenuidade não pode ser tanta a ponto de ignorar que cada metro quadrado ocupado no mundo pelos Estados Unidos tem por trás a boa e velha expressão complexo industrial-militar, eternizada por Dwight Eisenhower, para ficar apenas no exemplo mais óbvio.

Recuando um pouco mais no tempo, vemos a iniciativa privada como responsável por todas as “descobertas” dos navegadores portugueses, das rotas para a Ásia ao desembarque em nossa humilde Terra Papagalli, para não falar no sequestro de mais de doze milhões de negros africanos, dois milhões dos quais mortos sem conhecer sequer o destino que os esperava para além do Oceano Atlântico.

Não é de hoje que alguns gênios privilegiados perceberam que dinheiro faz dinheiro, nem que para isso populações nativas tenham que ser dizimadas, famílias separadas, fauna e flora destruídas e mapas redesenhados de acordo com a disponibilidade de ouro, prata e petróleo.

Et cetera.

Friedrich Nietzsche escreveu que um bom uso para os martelos seria golpear as falsas ilusões que impedem a plenitude do ser humano. Mais de cem anos depois de Crepúsculo dos Ídolos, uma das tristes ironias do século XXI é que um grupo miliciano faz fama e fortuna usando a ferramenta para golpear qualquer ser vivo que ameace incomodar seus propósitos.

Não são os únicos.

Variam as cabeças e os cabos dos martelos.

Felipe Bueno é jornalista desde 1995 com experiência em rádio, TV, jornal, agência de notícias, digital e podcast. Tem graduação em Jornalismo e História, com especializações em Política Contemporânea, Ética na Administração Pública, Introdução ao Orçamento Público, LAI, Marketing Digital, Relações Internacionais e História da Arte.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para dicasdepauta@jornalggn.com.br. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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O Observatório de Geopolítica do GGN tem como propósito analisar, de uma perspectiva crítica, a conjuntura internacional e os principais movimentos do Sistemas Mundial Moderno. Partimos do entendimento que o Sistema Internacional passa por profundas transformações estruturais, de caráter secular. E à partir desta compreensão se direcionam nossas contribuições no campo das Relações Internacionais, da Economia Política Internacional e da Geopolítica.

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1 Comentário
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  1. josé Oliveira de Araújo

    29 de junho de 2023 7:57 am

    A lendária Legião Estrangeira a serviços da França mostra que guerreiros mercenários faz parte do pacote do empreendedorismo belicista que permeia a história das guerras desde a antiguidade.

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