Ensaio sobre os martelos
por Felipe Bueno
O clickbait dos últimos dias no noticiário internacional é o desentendimento entre o governo de Vladimir Putin e a direção do grupo mercenário Wagner, braço importante das ações militares da Rússia na Ucrânia – e anteriormente em outros pontos menos midiáticos do planeta Terra.
A expressão desentendimento, aliás, pode ser substituída por rebeldia, traição, golpe, guerra civil ou tantas outras, dependendo da análise.
Para quem não tem familiaridade com o termo mercenários, é facultada a substituição por outro, de uso corrente no Brasil: milicianos.
Que o novo foco de preocupações do líder russo tenha origem em um grupo de guerreiros terceirizados possa surpreender, a essa altura do campeonato, é admissível.
Não podemos, no entanto, passar recibo de desentendidos e desentendidas com o fato de que guerras entre nações são criadas, declaradas e sustentadas não apenas em palácios públicos, mas também em escritórios da iniciativa privada.
Nossa ingenuidade não pode ser tanta a ponto de ignorar que cada metro quadrado ocupado no mundo pelos Estados Unidos tem por trás a boa e velha expressão complexo industrial-militar, eternizada por Dwight Eisenhower, para ficar apenas no exemplo mais óbvio.
Recuando um pouco mais no tempo, vemos a iniciativa privada como responsável por todas as “descobertas” dos navegadores portugueses, das rotas para a Ásia ao desembarque em nossa humilde Terra Papagalli, para não falar no sequestro de mais de doze milhões de negros africanos, dois milhões dos quais mortos sem conhecer sequer o destino que os esperava para além do Oceano Atlântico.
Não é de hoje que alguns gênios privilegiados perceberam que dinheiro faz dinheiro, nem que para isso populações nativas tenham que ser dizimadas, famílias separadas, fauna e flora destruídas e mapas redesenhados de acordo com a disponibilidade de ouro, prata e petróleo.
Et cetera.
Friedrich Nietzsche escreveu que um bom uso para os martelos seria golpear as falsas ilusões que impedem a plenitude do ser humano. Mais de cem anos depois de Crepúsculo dos Ídolos, uma das tristes ironias do século XXI é que um grupo miliciano faz fama e fortuna usando a ferramenta para golpear qualquer ser vivo que ameace incomodar seus propósitos.
Não são os únicos.
Variam as cabeças e os cabos dos martelos.
Felipe Bueno é jornalista desde 1995 com experiência em rádio, TV, jornal, agência de notícias, digital e podcast. Tem graduação em Jornalismo e História, com especializações em Política Contemporânea, Ética na Administração Pública, Introdução ao Orçamento Público, LAI, Marketing Digital, Relações Internacionais e História da Arte.
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josé Oliveira de Araújo
29 de junho de 2023 7:57 amA lendária Legião Estrangeira a serviços da França mostra que guerreiros mercenários faz parte do pacote do empreendedorismo belicista que permeia a história das guerras desde a antiguidade.