21 de maio de 2026

Extravagâncias da Guerra Fria: Pigeon Project e o controle orgânico dos armamentos, por Eduardo Barros Mariutti

Um desses casos foi o exótico Pigeon Project, capitaneado por Burrhus Frederic Skinner, conhecido como o pai do behaviorismo.

do Observatório de Geopolítica

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Extravagâncias da Guerra Fria: Pigeon Project e o controle orgânico dos armamentos

por Eduardo Barros Mariutti

            A Guerra Fria intensificou a simbiose entre a rivalidade interestatal e a intercapitalista que é a marca do capitalismo, resultando em um conjunto significativo de inovações básicas que ajudaram a modelar o mundo em que vivemos. O desenvolvimento dos computadores, os satélites e internet são os exemplos mais conspícuos. Contudo, quando se olha retrospectivamente para este período, geralmente selecionamos os projetos que deram certo, deixando de lado todas as extravagâncias e os fracassos retumbantes. Mas alguns casos ficam exatamente no meio do caminho: não geram nenhuma tecnologia imediatamente aplicável e, por conta disto, acabam sendo descartados. Mas, mesmo assim, ilustram princípios abstratos que, posteriormente, se revelam frutíferos.

            Um desses casos foi o exótico Pigeon Project, capitaneado por Burrhus Frederic Skinner, conhecido como o pai do behaviorismo. Como já discuti nas colunas anteriores, os caças da II Guerra Mundial complicaram significativamente a tarefa dos sistemas de defesa antiaérea que, desde então, tiveram de operar em espaço vetorial de 3 dimensões. Como os aviões e os mísseis balísticos foram se tornando cada vez mais rápidos, os tempos de resposta diminuíram muito, pressionando para a adoção de sistemas automatizados de controle de fogo. Como já apontei aqui neste espaço, a cibernética é um dos frutos deste esforço.

            O Office of Scientific Research and Development (OSRD), capitaneado por Vannevar Bush, desenvolveu uma série de projetos centrados na automação da percepção e na integração de sistemas de navegação nos armamentos, tendo como horizonte a criação de mísseis de cruzeiro mais efetivos. Estes mísseis, por permitirem variações na sua rota, são mais eficazes do que os mísseis balísticos para furar os sistemas de defesa antiaérea e, também, são mais precisos, pois podem fazer ajustes até o momento do impacto. O paradoxo é que a inspiração veio dos Kamikazes japoneses. Seria possível replicar a sua função utilizando sistemas eletrônicos ou, alternativamente, empregando “organismos inferiores”?

            Como o pombo-correio foi utilizado com muita intensidade na Primeira Guerra mundial como forma de comunicação das linhas de frente com a retaguarda, Skinner teve a “genial” ideia de utilizar pombos como o elemento central do sistema de direcionamento do míssil. Quando treinados de forma adequada, os pombos evitam distrações e conseguem encontrar sozinhos a rota mais eficiente para o ponto de destino. Disto nasceu o princípio que norteava o projeto de Skinner: o pombo seria posicionado no nariz do míssil e, orientado por lentes que projetariam as imagens do alvo, conduziria o míssil até o alvo. O projeto foi aprovado em 1943 e recebeu uma quantia módica de 25.000 dólares, mas acabou sendo rejeitado no ano seguinte, por conta da desconfiança dos militares sobre a adestrabilidade dos pombos e da dificuldade em transmitir os movimentos do pombo para o míssil. Contudo, o esforço de Skinner deu origem a um projeto mais geral, chamado de “organic control” (ORCON), sustentado pelo Naval Research Laboratory até 1953. O financiamento foi interrompido para que os recursos fossem controlados nos sistemas eletrônicos de navegação e controle de fogo.

            O curioso é que Skinner, muito mais famoso e experiente, revisitou a questão em 1960, ao publicar o artigo “Pigeons in a Pelican” (American Psychologist Vol 15 No. 1). Ele reiterou o impulso básico do seu projeto inicial: “Os sistemas de detecção e sinalização de organismos inferiores têm uma vantagem especial quando usados com dispositivos explosivos que podem ser guiados em direção aos objetos que devem destruir, seja por terra, mar ou ar.” Em seu julgamento, mesmo com o desenvolvimento de formas de rastreamento baseadas no radar, sons ou radiação, os “organismos vivos” poderiam ser utilizados como navegadores, pois são muito mais baratos e mais compactos. Ele é enfático: “O organismo inferior não é usado porque é mais sensível que o homem — afinal, o kamikaze se saiu muito bem —, mas porque é prontamente dispensável (expendable).”

            O fato é que havia muita pesquisa neste sentido na década de 1950 e 60. No artigo citado, Skinner relata que os ingleses estavam pesquisando o emprego de morcegos incendiários que poderiam ser lançados sobre a cidade do inimigo carregando dispositivos inflamáveis. Ao se refugirem em tetos e beiradas, dariam início a múltiplos focos de incêndio. Os russos estavam tentando treinar cães para explodir tanques, enquanto os suecos pesquisavam a possibilidade de usar minas magnéticas presas ao corpo de focas para explodir submarinos. Todos estes experimentos fracassaram, pois os sistemas eletrônicos de aquisição de alvos e de controle dos armamentos se mostraram muito mais eficientes no longo prazo. Mas, paradoxalmente, Skinner não estava totalmente errado. Afinal, sistemas cibernéticos foram pensados originalmente como uma forma de integrar homens, máquina e animais por fluxos de informação sujeitos a mecanismos de feedback. Esta é, precisamente, uma das fronteiras tecnológicas contemporâneas.

Eduardo Barros Mariutti – Professor do Instituto de Economia da Unicamp, do Programa de Pós-Graduação em Relações Internacionais San Tiago Dantas da UNESP, UNICAMP e PUC-SP e membro da rede de pesquisa PAET&D.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para dicasdepauta@jornalggn.com.br. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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O Observatório de Geopolítica do GGN tem como propósito analisar, de uma perspectiva crítica, a conjuntura internacional e os principais movimentos do Sistemas Mundial Moderno. Partimos do entendimento que o Sistema Internacional passa por profundas transformações estruturais, de caráter secular. E à partir desta compreensão se direcionam nossas contribuições no campo das Relações Internacionais, da Economia Política Internacional e da Geopolítica.

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  1. AMBAR

    27 de junho de 2023 8:41 pm

    Ninguémm é registrado sob o nome de Burruhs impunemente. Pai do behaveorismo(?) esse Burrohs justificou amplamente a associação do seu nome ao seu comportamento. Somente um burrus acharia interessante incendiar, explodir ou acoplar animais a foguetes para valer-se de seu senso de direção como experimento científico para destruir a humanidade. Burruhs e seus seguidores são cientistas de grande mérito e somente um Prêmio Ignóbil os recompensaria. Se existiu uma pessoa de mau gosto para dar esse nome ao filho, esse, o recebeu como um merecido galardão pela natureza de seu caráter. Burros Frederico Condutor de Mulas – Burrohs Frederic Skinner (a mule driver). ” Fantártico! “

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