10 de junho de 2026

Políticas de estabilização e estagnação econômica, por Luís Nassif

Nessa terra de brucutus, é possível ouvir economistas de consultorias celebrando estimativas de baixo crescimento como condição para um futuro crescimento

Um dos temas mais palpitantes da nova economia, em discussão nos principais centros acadêmicos, é o do papel das políticas de estabilização na estagnação das nações. Livro recente da economista Clara Mattei – “A ordem do capital – como economistas inventaram a austeridade e prepararam o caminho para o fascismo” – é o novo sucesso nas discussões econômicas mundiais.

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O tema foi tratado por André Araújo, em seu portentoso, “Moeda & Prosperidade – o impasse do crescimento na política de estabilização” -, um livro de 900 páginas, que passou despercebido quando foi lançado, há cerca de 15 anos.

O ponto central está no primeiro parágrafo: “O crescimento econômico é compatível com a estabilidade natural de uma economia madura, mas historicamente é incompatível com um Plano de Estabilização Monetária. Um plano artificial de estabilização, como o Plano Real, necessita da estagnação da economia para se impor. O crescimento significa o fim do Plano de Estabilização”.

As contas externas – e o câmbio – são os obstáculos principais no crescimento de uma economia emergente. Nos anos 50 e 60, o Brasil enfrentou enormes desequilíbrios externos, carência de divisas, resolvido com gambiarras que deram certo, como a taxa múltipla de câmbio.

O problema das economias emergentes se agravou com a volta da financeirização da economia e a liberalização dos fluxos de capitais. Especialmente após os anos 90, houve sucessivas corridas contra moedas nacionais e títulos da dívida. Cada corrida especulativa provocava oscilações enormes no câmbio, com reflexos na inflação interna.

Desequilíbrios na balança comercial ou nos fluxos de capital eram resolvidos com desvalorizações cambiais e medidas restritivas ao fluxo de capitais. Para não mexer com interesses do mercado, economistas desenvolveram terapias que impactam emprego, crescimento, produção.
Nos anos 90, Mário Henrique Simonsen e o promissor economista Edmar Bacha tornaram-se os porta-vozes da teoria dos déficits gêmeos. Rezava que déficit externo e interno tinham correlação direta. Para combater o déficit externo seria necessário uma política de austeridade, com aumento de juros e redução dos investimentos públicos.

A lógica, extremamente cruel, era simples:

  1. Com políticas de austeridade, aumento de juros e cortes nos investimentos públicos, haveria uma redução da demanda.
  2. Aumento dos juros ajudaria a reduzir a demanda e os estoques, ajudando a derrubar os preços.
  3. Com menos crescimento haveria menos importação e estímulo aos empresários para exportar os excedentes.
  4. Juros altos desestimulariam investimentos produtivos e atraíriam dólares, provocando uma apreciação da moeda nacional, barateando as importações.
  5. Menos crescimento também reduziria o poder de barganha dos sindicatos, reduzindo a pressão dos salários.

Durante todos os anos 90, todas as crises foram tratadas com arrocho fiscal e aumento de juros. Pior que isso. Queda da atividade econômica reduz a arrecadação fiscal. Com menos arrecadação, há uma pressão sobre as contas públicas. Em vez de se estimular a economia com mais investimentos – que teriam a contrapartida de um aumento posterior da receita fiscal – recorria-se exclusivamente a mais corte de despesas, que pressionaram ainda mais a atividade econômica.

E, toda essa irracionalidade era vendida como decisão técnica, no padrão economia doméstica, na qual a austeridade é vista como virtude. Na vida pessoal, a economia de hoje serve como poupança de amanhã. Na economia, os cortes de gastos de hoje significam a prorrogação da estagnação da economia.

Mesmo assim, nessa terra de brucutus, é possível ouvir economistas de consultorias celebrando estimativas de baixo crescimento como condição para um futuro crescimento. Ou executivos celebrando aumento de taxas de desemprego, como sinais positivos.

Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

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1 Comentário
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  1. José Carvalho

    13 de julho de 2023 3:29 pm

    Como a economia é feita de um conjunto de atividades, cuja tendência natural é expandir, essas medidas só produzem pobreza. Por menor que seja, o aumento nos contingentes populacionais distribuidos entre todas as classes sociais já reduz a chance de sucesso dessa lógica. Esse caminho tem como fundamento a abdicação do desejo de desenvolvimento, pois nega o movimento de evolução na economia que é o que promove atingir os ganhos de produtividade com algum aumento de competitividade. Ao reduzir o potencial econômico e de desenvolvimento do País, fica afastado o termo “em desenvolvimento”. Uma vez que a economia é um processo de ações e intervenções buscando a eficiência do conjunto, o fator juros tem importância nesse funcionamento. Como foi citado “economia madura”; aos que já chegaram lá o peso dos juros não é o mesmo. Os títulos públicos tem mais a função de garantia dos recursos do que de remuneração. No Brasil que depende de crédito e financiamento para o dia-a-dia na maior parte dos negócios, fica difícil.

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