do Observatório de Geopolítica
O mundo enquanto tablado
por Felipe Bueno
A despedida de um dos maiores nomes de nosso teatro me motivou a escrever sobre textos e palcos como representações do que somos, de como vivemos e de tudo ao nosso redor.
Está em As You Like It, de William Shakespeare: “all the world’s a stage and all the men and women merely players”(todo o mundo é um palco e todos os homens e mulheres são apenas jogadores).
O escritor britânico é uma referência quando se pensa no teatro como veículo para descrever não só a natureza humana mas também afetos e desafetos entre pessoas, disputas entre povos e Estados, antagonismos palacianos e animosidades entre reinos – vale dizer, entre mundos. Shakespeare não se limitou ao cenário elisabetano em que viveu, visitou o passado e o futuro: seus escritos recuaram no tempo e ainda hoje nos alcançam.
Ele não foi o único nem o primeiro. O teatro grego, muito antes, deixou como um dos principais legados os avisos frequentes sobre a falibilidade das paixões humanas e as consequências disso nas relações entre povos: paixões, traições e guerras são elementos constantes nas páginas dos principais textos de Ésquilo, Aristófanes e Sófocles, entre outros.
E o que dizer de Gil Vicente, que, no Auto da Lusitânia, coloca dois demônios para filosofar sobre a vida em uma importante cerimônia de casamento e imortaliza a conclusão de um deles, “Todo o Mundo é mentiroso e Ninguém diz a Verdade”.
Nossas referências tendem a ser ocidentais/europeias, mas é importante destacar a produção cênica milenar do que hoje conhecemos como Oriente Médio, da China e do Japão. Mensagens locais, alcances universais.
No cenário brasileiro de Martins Pena, Dias Gomes, Ariano Suassuna, Nelson Rodrigues e Plínio Marcos, escolho um nome que pode parecer inusitado: para quem conhece nosso Machado de Assis apenas dos romances essenciais, vale um passeio pelas suas páginas de teatro, como as comédias Quase Ministro e Os Deuses de Casaca.
Fecho esta reflexão com mais alguns nomes puxados das emperradas gavetas da memória. Pessoalmente tenho em Samuel Beckett um visionário. Poucos sabemos, mas estamos Esperando Godot até hoje, e assim será até o fim dos tempos.
Albert Camus nos deixou importantes e atemporais reflexões nos palcos, tanto escritos de lavra própria como adaptações. Estabeleceu sua versão de Calígula, um exercício de poder e destruição, e descreveu o domínio absoluto pela via do medo em Estado de Sítio.
José Saramago apontou velhos vícios no jornalismo – que só pioraram com o tempo – usando como cenário uma redação de jornal em A Noite. O português também denunciou contradições hoje ainda não resolvidas no capitalismo corporativo e na religião em A Segunda Vida de Francisco de Assis.
Romeno que fugiu das violências físicas e culturais de Nicolae Ceauşescu, Matéi Vişniec colocou seus fantasmas no palco em A História do Comunismo Contada aos Doentes Mentais e, num plano mais amplo, refletiu sobre a estupidez da guerra e suas consequências em A Palavra Progresso na Boca de Minha Mãe Soava Terrivelmente Falsa.
E há muitos e muitas mais.
Augusto Boal definiu que “todo teatro é necessariamente político, porque políticas são todas as atividades do homem”, e que o teatro é uma arma, e por isso “é necessário lutar por ele”. Clássico ou experimental – ou as duas coisas – o tablado sempre foi um espaço privilegiado de denúncia, resistência e conflito. Ainda que seus grandes nomes passem para o outro lado, como foi o caso recente de Zé Celso, que os palcos continuem sendo mundos em miniatura que nos permitam refletir e viver melhor.
Pano.
Felipe Bueno é jornalista desde 1995 com experiência em rádio, TV, jornal, agência de notícias, digital e podcast. Tem graduação em Jornalismo e História, com especializações em Política Contemporânea, Ética na Administração Pública, Introdução ao Orçamento Público, LAI, Marketing Digital, Relações Internacionais e História da Arte.
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