5 de junho de 2026

País precisa de um ‘think tank’ para Infraestrutura, por André Castro Carvalho

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Todos já ouvimos falar de alguma organização think tank: elas servem para produzir e difundir conhecimentos e dados sobre temas considerados estratégicos para um grupo de interesse, ou mesmo para o governo de um país. A grande vantagem dessas instituições é congregar especialistas e ideias, com o objetivo de fomentar um foro contínuo de debates para assuntos que normalmente não são abordados com a profundidade necessária – ou, se são debatidos, aparecem de forma fragmentada no meio acadêmico e em algumas instituições e associações.

No Brasil, no entanto, não temos uma instituição exclusiva para cuidar do futuro da infraestrutura e dos serviços públicos – talvez um dos temas que mais afete, juntamente com o sistema tributário caótico e a falta de mão de obra qualificada, a nossa produtividade e a competitividade perante outros países.

Sem esse foro para pensar a infraestrutura como uma política de Estado, e não de governo, o País fica à deriva e sem uma referência devida no debate, e ficamos vítimas de medidas pontuais governamentais – tal como ocorreu com o advento do Programa de Aceleração do Crescimento em 2007. Posteriormente, percebendo-se que o PAC não teve o resultado esperado, vislumbrou-se que muito se deveu à ausência de reformas institucionais, extremamente necessárias, embora não realizadas na última década. Assim, passou-se nos últimos anos, como em um passe de mágica (o termo juridicamente correto é “medida provisória”), a promover ditas reformas da noite para o dia, como no caso de ferrovias, portos e energia – neste último caso, servindo ainda para desestruturar um setor que já estava sólido no País.

Para haver reformas relevantes em setores estratégicos, como são as infraestruturas de transporte, energia, telecomunicações e saneamento, é imprescindível, em primeiro lugar, pensar sobre o problema de forma conjunta e ampla – e com a devida calma. Essa assertiva pode parecer óbvia a qualquer governante; porém, sem o seguimento desse ritual, essas alterações bruscas e descoordenadas mais afugentam do que atraem investimentos para a infraestrutura – principalmente os de origem internacional. Qualquer espirro já leva a uma migração de capital do Brasil em direção a o Chile e Colômbia, países que pensam o problema de forma muito mais sólida e coordenada. É só verificarmos o organograma do Ministério de Obras Públicas do Chile para notarmos a diferença em comparação aos nossos Ministérios setoriais em infraestrutura.

O Governo Federal precisa ter um órgão think tank que pense o problema da falta de infraestrutura de forma ampla e aprofundada, tal como era a função do GEIPOT no passado no setor de transportes. Ou seja, é preciso existir um “IPEA da Infraestrutura” que possa estruturar o planejamento em infraestrutura no longo prazo, municiada de informações de entidades setoriais – tal como a Empresa de Planejamento e Logística (EPL) e a Empresa de Pesquisa Energética (EPE) –, além de pensar também o planejamento em outros setores que não possuem essas entidades, como telecomunicações e saneamento básico.

Esse think tank seria útil para que passemos a deixar de lado o uso de medidas pontuais regulatórias, a fim de que as reformas estruturais sejam oriundas de um verdadeiro programa de Estado, imprimindo segurança jurídica a quem quiser investir no setor. Nessa ideia de se pensar soluções, entidades universitárias, centros de pesquisas, associações e institutos especializados no tema poderiam atuar nesse processo juntamente com esse think tank, de forma muito mais convergente e coordenada do que ocorre atualmente. Daí porque a questão principal não é de falta de alguém que pense o problema e traga soluções, mas sim de quem reúna essas informações e organize esse debate.

Em virtude dessas medidas pontuais, o mais urgente que talvez se precise cogitar, para uma futura reforma ministerial que já se faz necessária há anos, a unificação de órgãos e secretarias que lidam com a infraestrutura sob uma mesma pasta, para que se tenha uma visão “de dentro” mais holística do problema, à maneira como é estruturado em diversos países. No caso de transportes, por exemplo, há o Ministério dos Transportes e outras Secretarias que tratam do setor, mas com subordinação hierárquica à Presidência da República: é o caso da Secretaria de Aviação Civil – SAC e da Secretaria Especial de Portos – SEP. Ou seja, uma nítida demonstração de que a estrutura ministerial atual na área da infraestrutura de transportes precisa ser revista para que se tenha uma maior coordenação nas políticas públicas do setor.

Mas isso já é conversa para o futuro debate político entre os candidatos à Presidência da República, de forma que nos resta ficar na expectativa de que venham boas propostas estruturais para uma verdadeira melhoria do setor, a fim de trazer os almejados reflexos positivos para o País e para toda a sociedade.

André Castro Carvalho é mestre e doutor em Direito pela Universidade de São Paulo e autor do livro “Direito da infraestrutura: perspectiva pública” (editora Quartier Latin).

Lourdes Nassif

Redatora-chefe no GGN

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9 Comentários
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  1. Lionel Rupaud

    13 de agosto de 2014 3:04 pm

    Concordo mas vou emendar:

    “Pais precisa de “think tanks” com “s” para infraestrutura, com juristas e economistas mas sobretudo engenheiros.

    Alias precisa para muitas outras coisas também, para tirar o peso descomunal nas decisões políticas dos “aquários” de uma mídia decadente que dá relevância a idiotas disfarçados de jornalistas.

  2. Nira

    13 de agosto de 2014 3:12 pm

    É periférico, mas não existe

    É periférico, mas não existe uma boa tradu,ão para “think tank” ? Se eu fosse mais inteligente já teria encontrado uma, mas há um pessoal intelectualmente bem dotado que pode resolver isso. Quem sabe com um “think tank” ?

  3. JB Costa

    13 de agosto de 2014 3:49 pm

    No Brasil não temos ainda um

    No Brasil não temos ainda um “think tank”, mas um “tique-tac”: o Instituto Millenium, cuja missão é “fabricar”  “idéias” que possam dar suporte aos discursos da extrema-direita e da direita conservadora. 

    Agora sério: realmente, falta ao país essa dita “usina de idéias”(tradução a la cearense) que nos EUA, por exemplo, sempre foi comum. A mais notória foi a Corporação RAND, cujo integrante mais midiático foi Herman Khan, considerado um gênio, mas que na sua obra mais conhecida O ANO 2000(1968), de cunho futurologista, deu mais com os burros n’água que propriamente projetar e antever o futuro em bases randômicas.

    Mas não só na área públicas nos ressentimos desses centros de excelência. No setor privado não conheço nenhuma estrutura voltada para esse mister. Tudo se restringe aos apêndices ligados às entidades de classe(Federações, Confederações etc).

    1. Nira

      13 de agosto de 2014 4:49 pm

      Taí, gostei da usina de

      Taí, gostei da usina de iéias.

  4. altamiro souza

    13 de agosto de 2014 3:51 pm

    tem os think tanques

    tem os think tanques norteamericanos que devem aconselhar aquelas invasões periódicas a  diversos países.

    tem os think tanks do millenium no brasil, formados por notórios direitistas.e daquelas siglas todas que derrubaram jango em 64,

    prefiro um como o professor ladislau dowbor que aparece de vez em quando por aqui com seus brilhantes artigos.

    na verdade, sem a aprticipação dos movimentos sociais e da maioria da população não há  think tank que resolva qualquer cossa.

    só se for um leitor de todas as mentes.

     

  5. Athos

    13 de agosto de 2014 5:06 pm

    Coloque um engenheiro nos

    Coloque um engenheiro nos cargos chave e deixe o cara trabalhar.

     

    Mas não, todos os postos chave são ocupados por advogados. Um caso ou outro de economista que é quase a mesma coisa.

    Não são gente que FAZ. Gente que faz é outro bicho. Bicho engenheiro.

    1. João Ricardo Peixoto

      14 de agosto de 2014 5:47 am

      O problema não é colocar

      O problema não é colocar gente que faz, ainda mais que nessa posição de Think Tank, não se faz efetivamente nada. E economista e advogado são duas funções MUITO diferentes. Eu concordo em observar que o advogado talvez não tenha o preparo, mas o economista certamente o tem em algumas áreas. Mas quem deveria ocupar o cargo de fato é o administrador, que tem sua função rechaçada dentro do Brasil. Engenheiro não é formado para gestão, enquanto o administrador o é. Logo, quem deve “fazer” é sim o engenheiro, dentro das suas áreas de competência, que seria a efetiva implementação dos projetos. Quem deve pensar e tocar esse projeto é o administrador, sendo aconselhado dos engenheiros, pois nenhum gestor pode gerenciar sem consultar sua mão de obra.

      1. Athos

        15 de agosto de 2014 5:13 pm

        Administrador só serve para

        Administrador só serve para administrar contas a pagar.

        Não tem qualquer outra utilidade a não ser naqueles problemas do dia a dia que ninguém quer saber porque são irrelevantes.

         

         

  6. Calvin

    13 de agosto de 2014 7:08 pm

    Essa assertiva pode parecer óbvia?

    Quer ver como não? O grosso do pessoal aqui não concorda com “percebendo-se que o PAC não teve o resultado esperado.. passou-se…a promover ditas reformas da noite para o dia, como no caso de ferrovias, portos e energia – neste último caso, servindo ainda para desestruturar um setor que já estava sólido no País.”

    Entende o que quero dizer?

     

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