Um dos episódios menos estudados da moderna história do país, foi a proposta de securitização da dívida externa brasileira, proposta pelo então Ministro da Fazenda de José Sarney, Luiz Carlos Bresser Pereira.
Acompanhei de perto aquela operação, por via indireta. A ideia veio de Paulo Brito, da Cotia Trading, e de Roberto Gianetti da Fonseca. Ambos se associaram na Silex, um fundo financeiro, importando um operador dos Estados Unidos, e se prepararam para o novo mercado que surgiria.
Por aqueles tempos, tinha o programa Dinheiro Vivo na TV Gazeta e havia lançado a newsletter Guia Financeiro, brilhantemente editada pelo amigo Sérgio Sister. A Cotia tinha acabado de recuperar uma bolada de US$ 1 bilhão que estava retida na Nigéria. Nosso repórter, William Salazar, teve um almoço com Paulo Britto e veio com a informação de que ele queria se associar à Dinheiro Vivo.
Paulo era um bom visionário e deu-se conta de que, com a mídia digital, haveria espaço para novos bancos de investimento ligados a publicações financeiras. A aventura durou pouco. Montei a Agência, divulgávamos nossas informações pela CMA – que distribuía sinais da bolsa. Mas éramos sempre passados para trás, na hora do balanço de assinaturas.
A Silex acabou se associando à Broadcast, um sistema de transmissão de dados através de sinais de FM. Não fosse uma briga entre os dois sócios, o projeto teria futuro.
Mas, no que importa, a proposta de securitização da dívida prosperou. Mas foi torpedeada fora e dentro do país. Fora do país por Nicholas Frederick Brady, o Secretário do Tesouro do país. Dentro, por inúmeros grupos que queriam faturar em cima da securitização.
Bresser saiu do governo, entrou a trágica gestão de Maílson da Nóbrega, que apresentou a mina de ouro da época: a conversão da dívida externa brasileira em moeda nacional.
Houve inúmeros aventureiros de olho no botim. Um deles chegou a apresentar um plano de exportação de casas de madeira para Angola, pela construtora Mendes Júnior.
Mas foi Maílson quem comandou um dos maiores golpes da história: a permissão para conversão da dívida externa em cruzados, dependendo exclusivamente da autorização do Banco Central, sem nenhuma espécie de licitação, disputa ou deságio.
Foi essa operação que permitiu ao ex-presidente do Banco Central, Fernão Bracher, tornar-se sócio do austríaco Banco BI Creditanstalt no BBA (de Bracher e Beltran Martinez, ex-diretor do Bradesco) e a João Sayad montar o SRL (de Sayad, Felippe Reichstul e Francisco Luna). A conversão provocou uma enorme emissão de moeda interna, que ajudou na hiperfinflação do período Mailson.
O Credistantalt era um banco controverso, que fechou em 2002 na Áustria, no bojo de um escândalo financeiro que envolveu Karlheinz Grasser, que era o Ministro das Finanças na época do colapso. Grasser foi condenado a oito anos de prisão em 2020.
Aparentemente, não contaminou o BBA. No mesmo ano da quebra do Credistantalt, o BBA acabou vendido para o Itaú. Na ocasião, já era o maior banco de investimento do país, depois que Pedro Moreira Salles liquidou o banco de investimentos do Unibanco que, desde os anos 80, dominava o mercado brasileiro.
evandro condé
16 de julho de 2023 6:27 pmEu sempre fico curioso se alguns dos citados (envolvidos?) se reportam ao Nassif dando explicações.
Célio Knipel Moreira
17 de julho de 2023 10:40 amFaltou falar um pouco de como foi processada a mágica. Os magos e a mágica estão aí. Qual o significado? Como foi feita? Quem foi favorecido?… Acho que perdi algo.
Antonio Uchoa Neto
17 de julho de 2023 6:15 pmA mágica dos bancos, amigo, é uma arte para a qual não existe Mister M.
Dizem que as mágicas perdem a graça, quando seus segredos são revelados.
Outros dizem o contrário. A graça está em saber como são feitos os truques. Apenas, nesse caso, é necessário inventar permanentemente novas mágicas.
Não é o caso dos bancos; sua mágica é uma só: criar dinheiro do nada. Pode-se dizer, não há truque a revelar.
Dinheiro, amigos, não está no reino da mágica: está no terreno da fraude.
Foi criado, supostamente, para facilitar a troca comercial e possibilitar a circulação dos valores.
Serviu, de fato, para sugar o valor das coisas – transformadas em outras, como sal, metais, papel, e, hoje, sinais eletrônicos. Enquanto acumulamos coisas, ou seja, valores de uso, os operadores acumulam o símbolo do valor dessas coisas: o dinheiro, os valores de troca.
Assim, esses últimos valores saem da mão do banqueiro, são utilizados para comprar valores de uso, e assim retornam aos banqueiros.
E fiquemos nisso, para não falar em excrescências tais como Sistema de Reserva Fracionária, Securitização, e outras aberrações, fraudes pura e simplesmente, legais, toleradas, ou somente acobertadas.
São negócios que se fazem envolvendo grandes somas de dinheiro, que não possuem existência física, nem são fruto de operações tangíveis: o boleto não pago, o empréstimo não quitado, a prestação da casa própria largada pela metade. Junta-se isso tudo, gera-se uma massa de dinheiro (uma carteira de investimento, na nomenclatura chique dos bancos) que não existe (nem nunca existiu), oferecem-se recompensas (juros) astronômicas, e enquanto essa mágica conseguir enganar o distinto público, o sistema financeiro enche as burras de dinheiro.
Quando a mágica (leia-se fraude) é descoberta, ou alguém revela como o truque é feito, os otários descobrem-se como otários, e os operadores dessa magnífica fraude já estão longe.
Melhor dizendo, os frutos da fraude já estão longe, em algum paraíso fiscal.
Frutos virtuais nascidos de árvores inexistentes, mas que compram a riqueza real. O invisível (Deus) criou e dominou o mundo. O inexistente (dinheiro) agora o controla. Seu nome artístico? O Incrível Algoritmo.
PHOTIOS ANDREAS ASSIMAKOPOULOS
17 de julho de 2023 12:53 pmO cabra que queria exportar barracos era Roberto Marinho