Série PIAUÍ CULTURA REGIONAL (X)
A Lezeira que parte com Dona Joaquina
por Eduardo Pontin
Com 95 anos completos e bem vividos, partiu desse plano no último domingo Dona Joaquina (Joaquina Antônia da Conceição, 6/3/1928 – 16/7/2023), lavradora, artesã de peças de barro, dançadeira de Lezeira, de Contradança e de Batuque, além de rezadeira de Benditos. Dona Joaquina era moradora do povoado das Baixas, no pequeno município de Floresta do Piauí localizado no coração do sertão do estado. Sem sair muito de casa, Dona Joaquina passou seus últimos anos de vida cercada de seus familiares, transmitindo a quem com ela convivesse ou a visitasse todos os saberes e fazeres que dominava como ninguém.
Dona Joaquina era daquelas pessoas que já tinha passado de tudo um pouco nessa vida e conhecia muito bem a arte de superar os obstáculos, experimentando ao longo de sua existência muitas dificuldades, mas também inúmeras vitórias. Lavradora do sertão do Piauí, desde muito cedo teve de se habituar a realidade de trabalho braçal debaixo de sol escaldante. Mas Dona Joaquina não reclamava, era mulher forte e de tudo fazia para que a fartura dos invernos piauienses batesse também a sua porta.
Com muito trabalho, criou todos os seus filhos de forma honrada, produzindo artesanato de barro com suas mãos hábeis para vender pela região, tão materialmente carente quanto ela. Com essas mesmas mãos, colocava a rudia na cabeça e ia caçar freguesia, em meio ao sol trepidante e a areia quente do sertão do Piauí. Dona Joaquina narrava que muitas vezes o seu artesanato era comercializado na base da troca de cereais e alimentos, tudo para que sua família vivesse dignamente.

Mesmo com tanto suor e tanta luta, Dona Joaquina ainda arranjava tempo para brincar. Aliás, brincar não, vadiar! Num tempo em que a palavra vadiar significava brincar pra valer, dançar com seus familiares, amigas e amigos noite adentro. Quando Dona Joaquina se recordava dos maiores mestres de cultura de seu tempo, como Augusto Torres (Augusto Raimundo Torres, 1922-2006) , falava de boca cheia: “Augusto era o mais viciado! o nego era vadi!”. Porém, Dona Joaquina não deixava de usar a mesma qualificação para mestres ainda hoje vivos, como “Chiquim Ferreira é nego safado, ali sabe vadiá”, ou “Gabiru tá aprovado, alí é vadi!”.
Mesmo com tantos percalços em sua vida, Dona Joaquina não deixava de vadiar e ir à festa. Aquela veterana senhora havia sido em seus tempos áureos de mocidade uma das mais célebres dançadeiras de Lezeira do povoado Oi D’Água, no município de Floresta do Piauí. Além de grande dançadeira, Dona Joaquina se valia da igualdade reinante dentro do círculo da grande roda da Lezeira e sempre que o cantador principal perdia o fôlego, sapecava o seu verso, dando o seu recado, de forma decidida:
Lá vem a lua saindo
Por detrás da macambira
Menina sustenta o verso
Se não a cangaia vira
Uma das cantigas de Lezeira que Dona Joaquina mais gostava de cantar e que fez parte de seus tempos de mocidade é uma pérola que não escutei da boca de nenhum dos pouco mais de 50 cantadores que conheci:
Desanda roda, Lili
Desanda roda, Lilá
Pancadinha de amô
Quem me faz eu chorá
Dona Joaquina passou seus últimos anos de vida numa espécie de retiro, residindo numa casa no povoado das Baixas, a cerca de uma légua de distância da cidade de Floresta, afastada de tudo e todos, mas sempre próxima dos seus. Cercada de familiares e dos cuidados e carinhos de suas filhas e filhos, era conversadeira e recebia muito bem quem se achegasse a sua volta.

Dona Joaquina foi também grande dançadeira de Batuque em seus tempos de moçotinha e gostava de lembrar dos sambas em que Firmina de João Torres (Firmina Maria de Jesus, 1884-1949) peneirava mais ela. Mas Dona Joaquina pertencia a uma escola antiga de brincadeiras, na qual tudo era feito com muita seriedade e fuleiragem, do jeito que uma noite de brincadeira deve ser.
É que Dona Joaquina era da escola que conhecia como ninguém as regras da arte de cada expressão cultural. Por isso, até o findar de seus dias, sabia realizar distinções com fineza de pensamento: “A Roda é uma; a Lezeira é outra; a Contradança é outra e o Batuque é outro, tem diferença”, dizia a sábia senhora que tanto encantava quem parasse para escutar as suas histórias e seus cantos.
Em novembro de 2021, Dona Joaquina recebeu diploma de Mestra Imortal da Academia Florestense de Cultura Popular, sendo reconhecida em vida pela Prefeitura de Floresta do Piauí pelas suas relevantes contribuições à Lezeira, ao Batuque, a transmissão dos Benditos e a produção de Artesanato de Barro.

Criada num tempo em que estudar era uma realidade distante, Dona Joaquina muitas vezes se comunicava com ditos populares que ensinavam mais que tratados de sociologia. Quando recebia uma visita e há muito não via aquela pessoa, soltava logo: “se até as pedras se encontram, quanto mais as criaturas!”. Ou quando duvidava com convicção de uma situação, energicamente falava “cara d’eu que isso vai acontecer! cara d’eu!”.
Dona Joaquina recebia tão bem as pessoas que chegavam em sua casa quanto uma das quadras de Lezeira que gostava de cantar:
Se’u soubesse que tu vinha
Meu gaio, meu ramaiete
Mandava varrê a estrada
C’a fita do meu colete
Aliás, em se tratando de Lezeira, Dona Joaquina era desempenada, aprendida no assunto mesmo! Em sua juventude, vivenciou rodas de Lezeira históricas iluminadas apenas pelo clarão da lua, com todos se rindo e um buraco em círculo se formando no terreiro com a pisada firme dos que ali brincavam. As conversas que tive com Dona Joaquina são uma das grandes bases da monografia “Lezô, Lezá, Vamô Vadiá, Nesta Lezeira! Ancestralidade e Simbolismo na Dança da Lezeira do Piauí” que recebeu 1ª Menção Honrosa no Prêmio Nacional Sílvio Romero sobre Folclore e Cultura Popular de 2022. Já no ano de 2023, tive a felicidade de estar em duas ocasiões na presença de Dona Joaquina. A primeira delas, na companhia do documentarista Roberto Saboia e do produtor musical Zé Dantas, para gravar profissionalmente com estúdio itinerante a ainda firme e boa voz de Dona Joaquina entoando cantigas e versos de Lezeira.

Na segunda, com uma equipe do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) composta pelo historiador Ricardo Augusto e por Seu Ivanildo, para estabelecer diálogo com detentores da dança da Lezeira do Piauí, como Dona Joaquina, já que este bem imaterial está em processo para se tornar patrimônio cultural do Brasil. Neste dia, levamos até a casa de Dona Joaquina o grande cantador de Lezeira Chiquim Ferreira. Nem preciso dizer que, fora a aula que tivemos, esse encontro foi uma grande festa repleta de fuleiragem, comentários acanaiados e boas risadas.

Porém, em seus últimos anos de vida, recolhida em sua fortaleza familiar no povoado rural das Baixas, Dona Joaquina não mais dançava… mas cantava. A velhice lhe fez naturalmente reflexiva e o que Dona Joaquina mais gostava de cantar nessa fase de sua vida eram Benditos. Aliás, cantar, não, rezar! Dona Joaquina era capaz de passar dezenas de minutos a fio apenas rezando Benditos. Enquanto entoava aquele cântico sagrado, pausava e perguntava para quem lhe fizesse companhia: “Tá suntando?”, e então explicava o que estava se dando no enredo dessas rezas que padre nenhum conhece, mas que a maior parte do povo nordestino sabe e geração após geração reproduz com fervor.
A hora de fumar seu cachimbinho era sagrada em seu dia e aí de quem puxasse assunto num momento desses! Enquanto pitava, em silêncio mirava longe seu olhar já turvo, mas com a mente em movimento, só falava algo quando as ideias repousavam e o assunto era certo, com uma mensagem nítida e expressivamente sábia. Dona Joaquina fez a sua viagem, mas seus ensinamentos ficaram vivos em quem teve o privilégio de conviver com ela e aprender um pouco sobre a desafiante arte de viver.

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