Uma hora haverá a necessidade de se discutir: qual é, afinal, a função das Forças Armadas? Nos longínquos anos 70, a primeira Página Amarela que consegui emplacar na Veja foi com Fábio Konder Comparato. E ele situava nessa ausência de propósito claro a tendência dos militares de se imiscuírem em todos os poros da vida nacional – e estávamos em plena ditadura.
De lá para cá, nada aconteceu. Qual a função das Forças Armadas na atual quadra da história? Defesa nacional, é que não é. Não há ameaça dos vizinhos, não há protagonismo algum nos grandes embates geopolíticos globais. E se houvesse ameaça, não haveria Forças Armadas preparadas. Não há investimentos em inovação ou tecnologia, capazes de transbordar para o setor civil. E tanques e outros instrumentos de dissuasão são utilizados apenas contra brasileira, como ficou claro na invasão do Morro do Alemão.
O Plano Nacional de Defesa, elaborado na gestão Nelson Jobim, mostrava a necessidade de uma força enxuta, tecnológica e com capacidade de mobilização. Para tal, houve investimentos vultuosos no submarino nuclear e nos caças Gripen.
Haveria dois objetivos potenciais para serem trabalhados. Um deles, as ameaças à Amazônia, especialmente com a invasão de traficantes. Mas já está comprovado a ineficácia do uso das FFAAs contra o crime organizado.
O segundo, seria a defesa da Amazônia Azul, da costa brasileira, das plataformas da Petrobras e, especialmente, das novas fronteiras de exploração mineral, no Elevado Rio Grande.
Mas a gloriosa Marinha dos Almirantes Álvaro Alberto e Othon Luiz transformou-se em uma força contaminada pela ultradireita mais indisciplinada – bastando conferir o comportamento abusivo do Alto Comando na transição para o governo Lula.
Coube a um Almirante ligado à energia nuclear, Bento Albuquerque, permitir o maior atentado à segurança nacional, o golpe da privatização da Eletrobras. Ao que tudo indica, seu objetivo é ajudar a desenvolver – e a participar – do mercado privado de pequenas centrais.
Mesmo com participação direta nas decisões de poder, os militares permitiram a venda da Embraer à Boeing, sabendo que a empresa era a única maneira do país absorver a tecnologia do Gripen. E tudo isso no governo militar de Jair Bolsonaro.
Dia desses, uma publicação chinesa taxou as FFAAs brasileiras como as piores do planeta. Foi um exagero retórico, mas que reflete a extraordinária perda de foco do orçamento de defesa, consumido quase que inteiramente com gastos com pessoal. E para quê?
O país tem carência de pessoal na saúde, nos órgãos ambientais, na Previdência Social. O máximo que o governo militar de Bolsonaro ousou foi alocar militares em alguns quadros, mas com superposição de vencimentos.
Nos anos 70, o governo militar de Médici e Geisel tiveram preocupação em criar instituições ligadas ao financiamento da inovação. Nos anos 2020, o governo militar de Bolsonaro permitiu o esvaziamento dos centros de pesquisa E seu único foco foi a criação de empregos para patentes inferiores e negócios para superiores.
Por falta total de objetivos, de projetos ou de conceitos, o que restou às Forças Armadas foi tentar empalmar o poder civil, sem nenhum projeto nacional consistente de desenvolvimento como álibi.
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José de Almeida Bispo
21 de julho de 2023 2:08 pmTriste. É pavoroso. Mas a sensação que restou dessa aventura dos últimos dez anos foi de que as FFAA voltaram a ser meramente de capitães-do-mato, como nos tempos coloniais. Pra pegar PPPePT. Entre a fase 1 do Golpe – as tais jornadas de junho, em 2013 – e a fase 2 eu fiquei entre a cruz e a espada. Achava que poderia ser uma estratégia inteligente para confundir o adversário, à esquerda, obviamente; mas também a direita radicalizada. De fato ainda me mantive em dúvida até fevereiro de 2020. Porém o não enfrentamento da pandemia e o atabalhoamento de quem é pago para defender o país e seu povo, demonstrou cabalmente que foi o mais infame golpe; ao nível de 1889, sem Deodoro e Floriano; logo, muito pior. Essa história ainda virá à tona, com todas as suas desgraças.
Marcio
21 de julho de 2023 3:07 pmAlém de Pintar Meio Fio, pra que Serve ??….
Fábio de Oliveira Ribeiro
21 de julho de 2023 3:19 pmNassif faz bem em meter o dedo nessa ferida purulenta. As Forças Armadas são geopoliticamente inúteis e custam caro. Em razão da forma como os oficiais são intelectualmente adestrados as Forças Armadas representam um perigo para a democracia. Não só isso. Elas mantém o Brasil aferrado a uma estrutura fundiária e social semi feudal que impede o país de se desenvolver. No episódio da Lava Jato as Forças Armadas se mostraram simpáticas à destruição da economia do país por um bando de procuradores e juízes que se atuaram como agentes dos interesses norte-americanos no Brasil. Sob Bolsonaro elas quase se transformaram na milícia de um capitão bestial e genocida.
Wanderley Egidio
21 de julho de 2023 4:28 pmConcordo plenamente com este artigo. Ineficiente e incompetente, desnecessária/inútil, não confiável, onerosa, corrupta e golpista. Defendo seu fim imediato com alocação de seus recursos para melhores fins tal como acabar com a saúde privada e constituir um super SUS, de alta qualidade e disponível a todos e paralelamente desenvolvendo o complexo indústrial da saúde. Estou certo que o dinheiro desperdiçados com estes mateiros e golpistas daria perfeitamente para tanto.
Niveo R. Campos e Souza
21 de julho de 2023 5:43 pmForças Armadas, sempre, só serviram para dar golpes e para bater em pretoe e em pobres. E gastar dinheiro da Nação.
José de Oliveira Guimarães
21 de julho de 2023 6:14 pm“Dia desses, uma publicação chinesa taxou as FFAAs brasileiras como as piores do planeta. Foi um exagero retórico”.
Não acho que tenha sido exagero. Há vários sites que classificam o poder militar e o Brasil só se dá bem no número de pessoas. O que não é tão relevante atualmente, se falta equipamento. As FFAA brasileiras são mesmo um investimento de baixíssima eficiência.
+almeida
21 de julho de 2023 7:27 pmAtualmente eu acredito que as Forças Armadas só serve para nos envergonhar e para administrar, com muita incompetência, as verbas que hoje, imerecidamente, recebe do governo federal. O desastroso atual comando, se apequena cada mais quando apoia, se alia e defende ex e atuais militares que estão alinhados com traidores da pátria, terroristas, subversivos e golpistas da pior espécie. O repugnante atentado terrorista e golpista de 08 de janeiro expôs todas as fragilidades do alto comando e a imensa traição que fez ao país, a população, a democracia e ao estado de direito,por deixar propositalmente de cumprir o seu impressindivel dever militar e constitucional. Como se fosse pouco, ainda impediu que a polícia fizesse o seu papel em desmobilizar o acampamento e o avanço dos subversivos que tentaram o golpe contra o governo recém empossado de Lula. A mancha que as Forças Armadas deixaram foi tão negra e imperdoável, que já foi rebaixada mundialmente,como a pior que existe no planeta. As investigações continuam e nenhum militar,seja de baixo, médio ou alto escalão deverá ficar impune, muito ao contrário todos devem ser rigidamente punidos, com o maior tempo de condenação que uma traição desse vulto possa permitir. Depois, toda a estrutura na relação presidência, como comandante chefe das forças armadas, e as instituições militares devem ser revistas e colocadas em pratos limpos, ainda que a parte militar já esteja bastante manchada.
Flavio Emieni
22 de julho de 2023 7:28 amPra que servem as ffaa? Como dizia meu velho avô ‘pra esvaziar o saco’. A sorte é que nem Guiana, nem Suriname pretendem invadir o Brasil, senão já era.
No mais, o momento é propício para a sociedade pressionar o governo para restringir esse infindo formigame de saúvas.
Ideal seria acabar, mas vá lá…
evandro condé
22 de julho de 2023 9:59 amAguardando igual postagem sobre nosso judiciário, a bem da verdade, nossos juízes (que se acham deuses) e desembargadores (que têm certeza). Periodicamente, e não esporadicamente, saem reportagens de como utilizam de artimanhas legais (lógico) para se locupletarem. Se o executivo utilizasse iguais critérios, já estaríamos quebrados há décadas.
LUIZ CLAUDIO VIEIRA DE OLIVEIRA
22 de julho de 2023 12:25 pmCreio que a resposta (ou uma delas) está no livro Os Donos do Poder, de Raymundo Faoro. Na passagem da monarquia para a república, o papel do exército está descrito de forma clara, da mesma forma que a participação em negociatas. O livro dá a impressão de ter sido escrito para descrever o governo Bolsonaro.
jura
22 de julho de 2023 11:43 pmA unica coisa brasileira nas forcas armadas brasileiras e o uniforme.
Os exercitos coloniais usam o uniforme do colonizador.
No Brasil os colonizadores nem precisam gastar com uniforme, nem pagar soldos.
A funcao delas e defender os colonizadores desde sua origem colonial. Sejam eles quais forem, portugueses, holandeses, franceses, espanhois, ingleses ou americanos. Tanto faz.
Ate hoje nossos comandantes nao entenderam o que foi a campanha da Italia, nem o que foram fazer la, nem quem ou o que combatiam. Eles ja mataram mais brasileiros do que soldados inimigos e nisso sao muito bons. Dai o eterno combate ao inimigo interno, aos comunistas e outros fantasmas que eles espantam para cumprir o dever de proteger os seus senhores de fato. Por isso nao respeitam nenhum presidente eleito, a menos que seja tao subserviente aos interesses estrangeiros quanto eles.
Robson Santos Dias
23 de julho de 2023 12:16 pmOs militares brasileiros são um anacronismo, um estamento e um Estado paralelo. Seu horizonte não é a defesa da soberania do país, mas a defesa desse Estado paralelo. São um peso morto para o orçamento, sempre apertado pela fé austericida. A população brasileira está envelhecendo, e há uma bomba demográfica em contagem regressiva no país. O minoritário estamento improdutivo pesa sobre a sociedade, com mamatas, privilégios e muito pouco trabalho. Vamos ver até quando a maioria da população que produz, cujo horizonte futuro é de provável escassez (haverá previdência digna quando a maioria estiver em idade de se aposentar?), aguentará sustentar os rentistas das finanças e os improdutivos do Estado paralelo, no caso, magistrados e oficiais militares.
João Chiaffitelli
23 de julho de 2023 12:49 pmJá que gostam tanto (os militares) deveriamos propor a privatização das forças. Perguntem o que eles acham…
Botelho
25 de julho de 2023 11:42 amO filho de um (bolsonarista) conhecido meu entrou para o exército, em cidade do interior de São Paulo. Está servindo em um batalhão desde o início do ano. Até agora, segundo ele, TODOS os exercícios, treinamentos, cursos, etc são voltados para “garantia da lei e da ordem”, ou seja, para controle de manifestações. NENHUM exercicio de guerra, batalha, etc.
Ou seja, todo o treinamento é feito para o controle do “inimigo interno”.