Ludus Secundus – Uma vitória esganiçada
por Rui Daher
Otto anni fa quando, ao mesmo tempo, fui convidado pelo Luís Nassif On Line, hoje GGN, e CartaCapital, que lançava sua versão digital, para escrever sobre agronegócios. Por que não? Afinal, há 40 anos, trabalhava como mascate no setor agropecuário, de onde tirava meu sustento e da família. Até hoje trabalho no mesmo e, semanalmente, aqui e lá escrevo. Não apenas sobre o mesmo tema, mas é frequente ele aparecer.
Sexta-feira (28/07/2023), assinante, recebi a versão impressa da revista (edição 1.270).Na capa, trabalho sempre virtuoso de Pilar Velloso, e das coxias um berrante alertava: “A Roça Venceu”.
Ogro não o sou, mas não entendi o “ovo de Colombo” da revista, visto que 11 entre 10 dos think tanks tupiniquins e a mídia perna-de-pau a isso aludem quando não querem espinafrar quão roto está o País – Estado, governo e povo. Desses, dá-lhe índices e estatísticas que glorificam o Brasil. Tenho preferido apontar as mazelas que não o deixam ser melhor.
Haveria alguma vitória de que eu não tivesse conhecimento? Difícil. Mas, afinal, em país tão “merdificado”, qualquer menção honrosa em Feira Agrícola de Angola, África, poderia justificar o “venceu”.
Matutei. Por que estariam destacando o óbvio? Falta de assunto? Patrocínio? Assinantes e leitores mais confiantes? Novas conquistas? Alardear feito de primeiro mundo e amenizar a imagem de revista, dita carrancuda, do contra, e “de esquerda”? Ajudar Lula nas pazes com os ruralistas?
Ensimesmado, fui tratar de outros afazeres e somente no fim de semana cinzento e frio dediquei-me ao artigo da estimada jornalista Fabíola Mendonça. Teria sido eu mais crítico do que deveria nos meus artigos e
explorado e exacerbado os aspectos negativos do agronegócio, agora vencedor?
Apesar de entre março e junho estar com a mobilidade comprometida, resultado de um acidente caseiro que me fez passar alguns dias de férias na rua Adma Jafet, São Paulo, consegui enviar uns dez artigos para o site.
Fui da visão estreita da ultradireita sobre o papel de homens e mulheres no trabalho de campo até como o agronegócio é algo mais amplo do que a simples exportação de commodities. Da forma estúpida, como ajudam na destruição da Amazônia e de outros biomas. No caminho, tal “Jesus na Goiabeira”, avistei Glauber Rocha e suas profecias em “O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro” (1969). A farsa multinacional que é o Agrishow. O escândalo que seria o “Marco Temporal”. Ademais, e na contramão, elogiei o Plano Safra 2023/2024, dadivoso, que voltava a apoiar a agricultura familiar e mantinha boas condições para os bem-aventurados da agropecuária de exportação, apesar do equívoco que é a utilização exclusiva e caríssima de insumos para nutrição e sanidade vegetal de origem química, quando não tóxica.
Não estava bom? Faltou algo? Sempre com algum humor, ironia e chutes nas canelas daqueles que não prestam atenção nas mazelas de uma roça que ainda precisa muito para vencer.
Sim, faltou o fundamental. Li a matéria. Faltou chamarem ambulância e, novamente, me internarem. A roça que venceu é aquela que há décadas tentava, mas não conseguia: destruir aquilo que o Brasil tem de muito valioso, a cultura popular.
No caso da matéria de Fabíola Mendonça, especificamente, as canções do que ela chama de “agronejo”. Tal a vitória da roça.
O cacete! Porra nenhuma! Um esganiçar, na origem, copiado da música country norte-americana (outra excrescência), como o foram os rodeios e
festas de peões que vicejaram, no Brasil, nas últimas décadas do século passado.
Lembram-se de marmanjões e marmanjonas vestindo jeans apertadinhos, cinturões de largas fivelas, botas canos longos, coreografados com mãos na cintura, passinhos pra frente e pra trás, direita e esquerda. Pois é, a isso o “agronejo” juntou falares erotizados para agradar os centros urbanos e vencer nossos tesouros de raiz como, por ironia, Dorival Caymmi e nossas raízes africanas, citados, na mesma edição da revista, pelo jornalista Mino Carta.
Venceram? Nada além de oportunismo e indução de empresários sem nenhum predicado intelectual e talento para fazê-lo e à indústria fonográfica, bem como permitir artistas bobocas do rural ganharem dinheiro, destruindo a verdadeira música caipira, da roça, assim como se tentou, no passado, fazer com o samba e as músicas das variadas e ricas regionalidades brasileiras.
Esse movimento musical, portanto, só pode ser vencedor como um movimento reverso, induzido pela indústria fonográfica capitalista para avacalhar (êpa! busquem o berrante), e destruir qualquer raiz cultural de um país ignorante e subdesenvolvido.
Não vou dizer que ele se deve à idiotia rural, pois sei que Karl Marx (1818-1883) quando usou esse termo não o levou ao pé-da-letra, mas muito além. Para o povo brasileiro, no entanto, o termo do filósofo alemão “se non è vero, è ben trovato”.
Agora, quando quiserem fazer uma matéria que explique a riqueza da música popular brasileira, não tomem o “estar no topo das paradas no Spotify”como indicador. Muito menos se for para justificar qualquer vitória. Perguntem-se quem celebra e ostenta, do Norte ao Sul do País, Thiago de Mello, Ariano Suassuna, Sivuca, Dorival Caymmi, Luiz Gonzaga, Milton Nascimento, Almir Sater, Inezita Barroso, Antônio Cândido e “Os Parceiros do Rio Bonito”, Lucy Alves junto com Isaac Karabtchevsky regendo a Orquestra Petrobras Sinfônica, Pixinguinha, Cartola e Jamelão, Teixeirinha, tudo justo e misturado numa só alma.
Inté! Desintoxiquem-se ouvindo música brasileira de qualidade. Sim, feita por jovens. Hoje somente um exemplo. Trarei muitos.
Nota: por uma questão de ética, este mesmo texto, com pequenas alterações, foi há alguns dias e com o mesmo teor crítico, enviado a CartaCapital que não o publicou. Então …
Rui Daher – administrador, consultor em desenvolvimento agrícola e escritor
O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.
Deixe um comentário