O joão-de-barro na arquitetura e na lenda
Do: Jangada Brasil – Mário Melo
Vindo do sertão, trouxe-me o deputado e confrade da Academia Pernambucana de Letras, Ulisses Lins, como lembrança, um ninho de joão-de-barro. É ave enquadrada na brasiliana poranduba.
Na concepção dos guaranis, os pássaros foram gente e por isso alguns ainda falam e outros exercem o ofício que tinham, quando humanos. O pica-pau, por exemplo, foi carpinteiro; o quero-quero foi mestre de capoeiragem, motivo por que traz, escondida, em cada uma asa, espécie de navalha; a araponga exercia o ofício de ferreiro e continua a, com seu canto, imitar o choque da marreta na bigorna; o joão-de-barro – e há outros joões, como o joão-barbudo, o joão-pobre, o joão-pinto, o joão-tolo, o joão-grande – Foi forneiro.
Nem todos os joões, porém, pertencem à mesma família, o joão-de-barro é um furnarius – em todo o Brasil, na Bolívia, na Guiana Inglesa, no Equador, no Peru; o joão-bobo é um bucconidae, que nas Minas Gerais tem o nome de paulo-pires; o joão-barbudo ou joão-doído, o joão-do-mato e o joão-tolo são também desta família; o joão-cortapau é um caprimulgidae, o joão-grande é um icteridae; da mesma família é o joão-pinto; um tiranidae, o joão-pobre; dendrocolaptidae, o joão-tolo; psidae o joão-velho. Como se vê, somente o joão-de-barro é um furnarius, isto é forneiro.
Classificaram-no assim, de certo, pelo original modo de construir o ninho.
Como se teria dado a transformação dos seres humanos em aves?
Precisamos recorrer à lenda tupi divulgada pelo general Couto de Magalhães:
“No principio, não havia noite. Era o dia eterno. Jazia a noite no fundo das águas. Também não havia animais.
Mboiguaçu, a cobra grande, tinha uma filha que se casou com um moço possuidor de três fâmulos fiéis.
A filha de cobra grande não queria aproximar-se do marido, porque os fâmulos não se separavam dele.
Compreendendo isso, mandou-os o jovem passear e chamou a mulher. Esta respondeu que só se juntaria a ele à noite.
– Ha, sim. Meu pai tem a noite, se queres que eu fique contigo, manda buscá-la no Grande Rio.
De acordo com o marido, chamou os fâmulos e mandou dizer ao pai que lhe enviasse a noite num caroço de tucumã.
Este atendeu ao pedido da filha e entregou aos emissários um coco fechado, recomendando-lhes que em nenhuma hipótese o abrissem.
Durante a viagem de volta, notaram rumor dentro do caroço, à semelhança de grilos e sapinhos.
Houve tentativa de abri-lo, mas contiveram-se.
Continuou a viagem e continuou o rumor.
A certa altura, em eqüidistância da viagem, acenderam fogo, derreteram o breu que fechava o coco. Abriram-no.
De repente, escureceu tudo.
A moça pressentiu-o de longe e avisou o marido.
Logo que tudo escureceu, as coisas espalhadas pelo bosques transformaram-se em animais e as dos rios em peixes e patos: Do paneiro, formou-se o jaguaruçu; os pescadores e as canoas viraram patos.
A filha de cobra grande viu Jacitataguaçu, a estrela d’alva e disse ao marido:
– Vem rompendo a madrugada; vou dividir o dia da noite. Transformou o marido em cajubim, espécie de jacutinga do Nordeste, ordenou que cantassem, pela madrugada, todos os pássaros, e fez que os fâmulos, porque infiéis na condução do caroço de tucumã, virassem macacos.
Daí porque há noite, daí porque apareceram os pássaros, daí porque cantam os pássaros ao crepúsculo matinal.
O joão-de-barro, porém, é de outra origem.
Velho caçador possuía um filho único de nome Jaebé. Educava-o de modo que ao chegar à virilidade soubesse de tudo.
Enamorou-se de Iponá, cunhãmucu doutra tribo. Para desposá-la, precisava, de acordo com o ritual, de passar por provas de coragem e fortaleza, sobretudo vencer páreos de corrida, de natação e submeter-se a rigoroso jejum de nove dias.
Disposto a tudo, pediu ao pai que o acompanhassem à tribo de sua eleita para pedir-lhe a mão ao morubixaba, certo de que sairia vencedor das provas.
Fez-se a disputa entre cinqüenta jovens. O vitorioso foi Jaebé.
Premiou-o o morubixaba com sua mais forte couraça, feita de couro de anta, ornada de penas de tucano e de papagaio.
Venceu, igualmente, a prova de natação e teve como prêmio um manto de peles de cisne, ornado também de plumagem.
A mais difícil das provas era a de jejum. Apenas oitos jovens, inclusive Jaebé se apresentaram.
Para maior segurança, cada um foi envolvido em peles.
Somente Jaebé chegou ao nono dia. Quando desenrolaram o couro que o envolvia, converteu-se em pássaro, recebendo por encanto a plumagem, bateu asas e voou para a árvore próxima.
Iponá transformou-se, igualmente em avezinha semelhante, voou e foi fazer companhia ao namorado e pretendente.
É por isso que o joão-de-barro constrói sua casa como o homem, vindo daí a denominação popular.
O ninho de joão-de-barro é argamassado de argila, que o casal, escolhida a área, leva no bico e nos pés.
Trabalham como sob inspiração de arquitetos. Levantam primeiramente as paredes. Deixam-nas secar e continuam a obra, fazendo no bloco de barro uma abertura côncava. Atapetam, então, o ninho, com penas e flocos de algodão.
Consideram-na ave sagrada, porque sua casa está sempre, como as igrejas, voltada para o Oriente e porque não trabalha aos domingos.
Não sendo, por isso, perseguido, não teme o joão-de-barro a aproximação do homem.
Aqui um caso de meu conhecimento, pois, como funcionário do Telégrafo Nacional, fui quase testemunha:
Deu-se um defeito na linha telegráfica do interior. Localizada entre duas estações, partiu o guarda-fios para descobri-lo e removê-lo.
No dia seguinte, informou ao engenheiro-chefe do Distrito Telegráfico que a causa fora – na sintética telegráfica linguagem – uma casa de joão-de-barro. Destruíra-a.
Dias depois, outro defeito, no mesmo local, pela mesma causa.
O engenheiro, então telegrafou a seu subordinado ordenando-lhe que procurasse o delegado de polícia e desse queixa contra esse joão-de-barro, que, reincidentemente, construía casa sob os fios telegráficos, perturbando as comunicações…
Outra lenda, divulgada por Clemente Branderburguer diz que os caxinauás, não possuíam casa, dormiam no chão, e só comiam carne assada, porque não sabiam fazer panela.
Viram, um dia, o ninho de joão-de-barro e quiseram arrancá-lo, na crença de que era a panela do pássaro.
Este perguntou-lhes se queriam aprender a fazer panela.
Responderam afirmativamente.
João-de-barro mandou que fossem tirar argila.
Quando havia bastante barro, o pássaro fez uma panela e mandou que cozinhassem a comida.
Comeram e gostaram.
Disse-lhes então, joão-de-barro, que eles não deviam continuar dormir ao relento. Precisavam ter casa. Trouxeram muita argila.
E, com o barro colhido, fez uma casa para os caxinauás, de deu-lhes instruções para fazer outras.
Daí a veneração que têm pelo pássaro em causa. Não o matam, nem o perseguem. Admiram-no com a veneração devida a mestre.
(Melo, Mário. “O joão-de-barro na arquitetura e na lenda”. Folha da Manhã, Recife, 06 de abril de 1952)
http://www.jangadabrasil.com.br/revista/abril123/im12304.asp
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