A extrema-direita chegou para ficar
por Luis Felipe Miguel
Donald Trump foi indiciado mais uma vez. Aproveita a visibilidade dos processos que sofre para fazer campanha. Seus advogados negociam os horários em que ele vai ser fichado ou depor, a fim de coincidir com os momentos de maior audiência na TV.
É o franco favorito para a indicação à candidatura presidencial republicana.
E é um forte candidato presidencial, impulsionado pela (justificada) impopularidade de Biden e pela absoluta blindagem de sua base a qualquer choque vindo da realidade.
Além disso, seu estilo histriônico e cínico é absolutamente irresistível para um sistema de comunicação baseado na disputa desesperada por atenção.
Trump mente de forma patológica, ofende, recai em erros primários de raciocínio, não apresenta uma única ideia digna de debate – mas está sempre no centro do picadeiro, atraindo todos os holofotes.
Mesmo caso venha a ser preso, Trump é um candidato forte.
Nos Estados Unidos, vigora a regra democrática de que uma condenação judicial não torna ninguém inelegível – ao contrário do Brasil em que, sobretudo depois da famigerada Lei da Ficha Limpa, vigora uma tutela do Judiciário sobre a soberania popular.
Caso eleito, ele assina um indulto presidencial para si mesmo – e tá tudo bem. (Menos no caso da Georgia, em que a condenação seria estadual).
Ele faltou ao debate entre os pré-candidatos de seu partido, mas foi o vencedor mesmo assim.
Seguir o caminho de Trump é o objetivo de muitos de seus concorrentes. Vivek Ramaswamy, a grande surpresa do debate, é um Trump de origem indiana, com face mais amigável (tá certo, isso deve contar como um defeito).
O fato é que o Partido Republicano rompeu o respeito às regras do jogo, que era a pedra de toque da estabilidade do regime estadunidense.
Está pronto a endossar qualquer manobra desonesta, golpe, virada de mesa, violência, sem nem tentar esconder.
Trump um dia vai desaparecer. O trumpismo parece que veio para ficar.
No Brasil, em que partimos de um patamar ainda mais baixo, não é diferente. O bolsonarismo é algo muito mais permanente que Bolsonaro.
Ontem, a Folha publicou uma matéria hilária sobre uma pretensa frente de partidos do campo democrático para isolar a extrema-direita nas eleições municipais.
Embora publique matéria todo dia sobre Ricardo Nunes se ajoelhando diante de Tarcísio e Jair, a reportagem nem fazia uma ressalva quando citava o MDB entre as forças dessa frente.
Se até no PT (não é, Quaquá?) há quem queira compor com o bolsonarismo, como imaginar que esse cordão sanitário vai vingar?
É um desafio grande para quem pensa em construir uma democracia minimamente sólida.
Não adianta ficar dando lições de civismo e chorando contra os “populistas”, como fazem muitos coleguinhas cientistas políticos.
Até onde vejo, é necessário agir em duas frentes.
Uma é punir os malfeitos da extrema-direita, para dissuadir os oportunistas. Mostrar que golpismo, manipulação, intimidação de adversários, que tudo isso tem consequências.
Outra é fazer a democracia cumprir melhor suas promessas e entregar melhorias para a maioria da população – uma vida melhor, uma expectativa de futuro melhor.
O extremismo de direita só se cria na desesperança e no descrédito de um sistema completamente entregue a uma classe dominante que não quer mais fazer nenhuma concessão.
Luis Felipe Miguel é professor do Instituto de Ciência Política da UnB. Autor, entre outros livros, de O colapso da democracia no Brasil (Expressão Popular).
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Antonio Uchoa Neto
28 de agosto de 2023 3:23 pmA Direita, extrema ou moderada, sempre esteve aí. Ela controla a sociedade ocidental desde 1789. Trump e Bolsonaro são apenas gigolôs da Burguesia latifundiária e posteriormente industrial (hoje financeira) que assumiu o comando executivo do mundo numa sequência de derrubadas do poder absoluto de outros gigolôs, os da autoridade divinamente instituída, na Inglaterra no final do século XVII, na França no final do século XVIII, etc. O bolsonarismo vai desaparecer, o trumpismo também. A Direita, em suas diferentes versões, vai permanecer. A Direita sabe o que o ser humano é, conhece seus vícios e paixões, e sabe manipular essas coisas como ninguém. A Esquerda sonha com o que o homem devia ser, e se emaranha nas próprias ilusões de generosidade e solidariedade mútuas, de um suposto sentimento coletivo de igualdade. A Direita sabe que o homem não quer ser igual aos outros, quer ser mais e melhor, e acena com essa possibilidade para todos, sob a forma de excrescências como a meritocracia. A Esquerda acha que o homem quer dividir o que tem. Tudo, ao longo da História da Humanidade, sugere o contrário; e enquanto a Esquerda persegue sonhos impossíveis, a Direita se apropria de todos os possíveis. A Direita faz um apelo à natureza real do homem, a Esquerda apela a uma suposta natureza ideal do homem. A realidade é densa, a ideia é fluida. É mais fácil entender o que é, e muito difícil sequer imaginar o que deveria ser. O pobre não consegue diferenciar uma coisa da outra; fica-se, portanto, com o que é real e compreensível. Mas isso é filosofia; a realidade de que falo é muito mais grosseira e óbvia, e, aqui nesse país infeliz, atende pelo nome de comunismo, corrupção, ideologia de gênero, etc. A grande obra da Direita, no Brasil, é a manutenção da população na mais total e completa ignorância e incapacidade cognitiva. E a Direita arrivista – os bolsonaros da vida – entende perfeitamente esse estado de coisas. E dele se beneficia, bons gigolôs que são. Lula vai tentar, novamente, quebrar essa corrente. Tomara que a História não se repita, nem como farsa, nem como tragédia. Boa sorte para todos nós. Porque nem quero imaginar como será o nosso próximo bolsonaro. E muito menos imaginar quanto tempo eles tolerarão uma nova tentativa de dar dignidade ao povo brasileiro. Eles= o Binômio Bancos/Corporações. Em outras palavras: a Extrema Direita. Que não chegou para ficar: sempre esteve aí, e controla o mundo desde 1694, quando foi fundado o Banco da Inglaterra.
José de Almeida Bispo
28 de agosto de 2023 9:42 pmO que caracteriza um direitista é, via de regra o simplismo (não confundir com simplicidade). E, em geral, o simplismo que aparentemente uma incapacidade cognitiva – e é – acaba sendo de fato uma licenciosidade para a prática do primitivismo; a lei da selva. Viva e deixe morrer. Sem lugar para perdedores, clemência, caridade… passe por cima de tudo. E esse tipo nunca esteve ausente; em contrário. Sempre foi maioria total, grande parte contida por leis, força, quando em período normais; porém sempre ameaçando sair de controle. O Homo sapiens, topo da cadeia alimentar, é, em princípio tão ladrão quando os rhesus ou os nossos saguis.