5 de junho de 2026

Oriente Médio: Formas breves, por Daniel Afonso da Silva

No caso presente, sabem todos, não existe saída confortável. O teatro de operações vai imensamente desfavorável para todos.
R. Fonseca - Divulgação exposição Banksy em Londres

Formas breves

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por Daniel Afonso da Silva

A situação no Oriente Médio monopoliza todas as atenções desde os ataques do Hamas aos judeus de Israel no último sábado, 7 de outubro de 2023. O mosaico de convicções da região foi, pouco a pouco, invadindo o cotidiano das pessoas no mundo inteiro. Se a tensão russo-ucraniana já indicava ingredientes suficientes para uma terceira guerra mundial, as conflagrações entre esses fiéis médio-orientais adicionam óleo – para não dizer, gasolina – ao fogo que milenarmente arde. O número crescente de mortos e feridos de parte a parte nestes dias impressiona. Somado a isso, o Hamas sequestrou 163 pessoas e promete assassiná-las espetacularmente a qualquer momento em caso de represálias ocidentais. Sua reivindicação é a soltura de seus correligionários encarcerados em prisões israelenses. Seu objetivo, grafado preto no branco em seus documentos oficiais, é exterminar todos os judeus da face da Terra. A sua tática é a barbárie. Mas dessa vez surpreenderam. Jamais Israel e seus habitantes foram confrontados a tamanha humilhação.

A enxurrada de avaliações de todas as qualidades e posicionamentos desde o início das escaramuças dispensa a necessidade de recomposição das razões e motivações gerais do conflito. Análises prospectivas, agora, parecem ser o mais consequente para se forjar um salvamento desse prenúncio de Apocalipse.

O princípio universal de legítima defesa pode legitimar a reação de Israel ao encontro do Hamas na Faixa de Gaza – mesmo que o tom das manifestações dos mandatários judeus tenha extrapolado todos os códigos de decoro e decência. Mas induzir os palestinos a mais penúria implacável parece demasiado.

Bombardeios, restrições e a toda sorte de humilhação aos muçulmanos da região ultrapassam o suportável. Viram um ato de vingança. Repaginam a famigerada e inconsequente guerra ao terror dos norte-americanos após os incidentes do 11 de setembro de 2001. Dão ares de insanidade. Uma condição, como conhecido, péssima conselheira.

No caso presente, sabem todos, não existe saída confortável. O teatro de operações vai imensamente desfavorável para todos. O Hamas não é a Palestina nem os palestinos são membros integrais do Hamas. Punir os palestinos pelas ações do Hamas junta desonra à indecência. O orgulho à inglória. O desprezo à vulgaridade.

De toda sorte, o Hamas sequestrou centenas de pessoas e agora está de posse de 163 reféns. Alguns jovens. Outros idosos. Muitos, muito vulneráveis. Qualquer ofensiva de Israel põe em risco a vida desses multiplamente inocentes.

Os apoiadores da democracia de Israel – malgrado a crise estruturalmente sem precedentes do seu sistema político que vai atualmente extremamente contestado pelas suas incontestáveis práticas de mistura à corrupção – não conseguem imaginar que suas armas, munição e recursos financeiros sejam utilizados numa carnificina de palestinos. O seu falso moralismo desbragadamente utilizado na condenação das investidas do presidente Vladmir Putin sobre o solo ucraniano, agora, vê a história se tornar em contravento. Se condenaram as ações da Rússia como vão apoiar as investidas de Israel? Europeus e norte-americanos não podem fazê-lo. O mundo inteiro, especialmente os africanos, sabem bem como esses ocidentais se condoeram pelos ucranianos.

Por tudo isso, a opinião pública internacional já começa a condenar as investidas de Israel na Faixa de Gaza. A união nacional israelense somada à sensibilização ocidental dos primeiros dias já, praticamente, não existe mais. Conseguintemente, a alternativa de “dialogar” com o Hamas para minimizar os danos colaterais começa a ingressar nos horizontes de todos os diretamente envolvidos.

Diante disso, emerge a pergunta essencial: é possível “dialogar” com o Hamas? Uma resposta imediata e pragmática indicaria, naturalmente, que sim, por evidente. A política e a diplomacia foram feitas para se conversar com quem não se gosta nem se aprecia.

Nessa situação, o próximo questionamento envolve saber se esse “diálogo” tem como ser consequente.

No plano moral, ele seria, claramente, uma monstruosidade. O que esses fanáticos promoveram no sábado foi de uma selvageria sem nome. Comparativamente – se é que é possível se comparar ações tão macabras –, proporcionalmente, nem os ataques do 11 de setembro de 2001 foram tão brutais. Ninguém em Manhattan foi violentado à luz do dia, como se fez às fartas nos campos de concentração nazistas e soviéticos de outros tempos e esses senhores do Hamas, agora, refizeram. Assim, “dialogar” com essa gente, por esse prisma, seria uma monstruosidade.

No campo da ética, esse “diálogo” seria “por um bem maior” que reside na liberação de inocentes civis. Talvez, assim, seja justificável uma conversação avec le diable.

Mas no âmbito da realpolitik, essas ponderações, a favor e contra o “diálogo”, parecem extremamente inconsistentes.

Todos os entendidos reiteram que o Hamas promoveu a operação, mas não tem domínio sobre ela. Ao que tudo indica, o monopólio das decisões reside em Teerã. Foram, em tese, os guardiões da revolução iraniana que tudo organizaram, planejaram, financiaram e manobraram. Restando ao Hamas na Palestina simplesmente executar.

É bastante plausível que tenha sido, realmente, assim. O propósito do Irã, desde muito, era interromper as negociações entre a Arábia Saudita e Israel. Com o ataque do Hamas, estrategicamente, conseguiu. E muito exitosamente. Entretanto, se for verdade, talvez, sob um custo mais alto que o previsto. Nem os mais entusiastas da operação poderiam imaginar a facilidade de sua mise en place. A fragilidade do estado hebreu de Israel impressionou inclusive aos seus algozes mais contumazes. A quantidade de pessoas barbarizadas e tornadas reféns não passava pelos cálculos de ninguém. Nem, certamente, dos fiadores da operação. Isso tudo aumenta a complexidade da prospecção. Como e onde liberar tanta gente com o mínimo de segurança? Esse, certamente, também virou um temor de Teerã, que vai orientar os próximos passos. Por essas e outras razões, “dialogar” com a gente do Hamas, na Palestina, talvez, não tenha sentido. Quem, de fato, manda e decide está ausente.

Nessa perspectiva o “diálogo” deveria ser com o Irã. Mas sugerir isso como alternativa seria um contrassenso. Os iranianos jamais reconhecerão, oficialmente, a sua parte de responsabilidade nos feitos do Hamas. Do contrário. Vão se eximir até o seu último suspiro – mesmo não sendo segredo para ninguém que o Irã, politicamente, sucedeu o Estado Islâmico na promoção da ofensiva islamista mundial ante o Ocidente e seus “infiéis”, notadamente europeus e norte-americanos, e apoia não simplesmente o Hamas, mas todos os grupos fiéis à causa.

Não sendo possível “dialogar” com o Irã, o segundo nível das deliberações, após Teerã, reside em Doha. O Catar não simplesmente participa dessa volição fundamentalista islâmica como concede refúgio às principais lideranças do Hamas. O terceiro ambiente de simpatias pode ser localizado no Líbano e na Turquia. Esses países apoiam tudo que seja contra Israel e sua população entrou em êxtase quando soube dos feitos horrivelmente horripilantes praticados pelo Hamas no estado hebreu.

O quarto espaço de suporte ao movimento islâmico do Hamas passa pela Argélia e pela Síria. Notadamente os fiéis de Damasco, que perderam Palmira, jamais voltará a creditar qualquer simpatia pelos ocidentais nem por Israel. Num quinto nível de sustentação, mesmo que não explícita, o Hamas se ancora na Rússia e na China. Moscou nem Pequim manifestaram condenação aos seus feitos do último sábado, mas também não lhes aplicaram nenhuma condenação. Da mesma maneira, a quase integralidade disso que se convenciona, perigosamente, chamar de “Sul Global” continua, uma semana depois, em cima do muro [tratei das ambivalências do dito “Sul Global” em A armadilha do Sul Global, gentilmente publicado neste espaço, no último dia 4 de outubro de 2023. Vide https://jornalggn.com.br/geopolitica/a-armadilha-do-sul-global-por-daniel-afonso-da-silva/]. Note-se que mesmo o presidente Lula da Silva continua embaraçado no trato da situação. Claramente, ele não sabe bem o que fazer nem dizer. Pela relevância do Brasil, ele precisa se posicionar. Mas segue hesitando entre a condenação absoluta e a aprovação envergonhada. Complicado. Muito complicado. Inclusive os seus assessores mais próximos já notaram. Mas, por prudência, silenciam.

Seja como for, encontrar alguém para “dialogar” parece ser o único caminho para se inibir o efeito contágio dessas escaramuças por Jerusalém. No passado já distante da Guerra Fria, a tensão Leste-Oeste sempre resolveu esses dissensos entre os herdeiros de Abraão. Após 1948, a URSS, a Otan, os Estados Unidos ou as Nações Unidas intervieram constantemente na região para aplacar conflitos. Foi assim em 1956 no Egito, 1967 na Guerra de Sete dias e 1973 no Yom Kippur. Tudo se solucionou rapidamente para que Moscou e Washington voltassem ao seu confronto ideológico de natureza macroestrutural.

Depois de 1989-1991 e especialmente depois do 11 de setembro de 2001, a instabilidade reina sem mediação na região. Animados pelos feitos de Osama Bin Laden em 2001 nos Estados Unidos, 2004 na Espanha e 2008 em Londres, a irmandade muçulmana encarnada no Hamas se permitiu injuriar os judeus em Israel seguidamente em 2008, 2014, 2018 e 2021. Sempre com atentados e sabotagens. Sempre batendo mais forte. Até chegar à pancada de agora. Seguramente a mais sentida de todas.

Todas as constatações demonstram que o Egito preveniu Telavive da selvageria iminente, mas os judeus, no Yom Kippur, cinquenta anos atrás, preferiram ignorar. Talvez por orgulho. Mas talvez, também, por desconfiança. A inscrição do Cairo como outra capital dos BRICS foi recebida com suspeição em Israel. Pouco a pouco, o Egito está se afastando de Washington e Jerusalém para se aproximar de Brasília, Moscou, Nova Delhi e Joanesburgo.

Enfim, a situação exige cautela. Uma solução suportável vai precisar envolver formas breves. A efeméride do sábado transformou o conflito de irmãos num conflito mundial cuja complexidade jamais se imaginou. O Ocidente claudica, os revisionistas avançam e a instabilidade se afirma. O multilateralismo não sabe o que fazer. O que se supõe é que a força bruta – dos europeus, norte-americanos ou das Nações Unidas – não vai resolver a situação. Apenas um “diálogo” franco poderá diminuir os danos colaterais. Com quem “dialogar” virou o grandioso problema. Independente de com quem seja, que se seja breve.

Daniel Afonso da Silva é doutor em História Social pela Universidade de São Paulo e autor de “Muito além dos olhos azuis e outros escritos sobre relações internacionais contemporâneas”.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

Daniel Afonso da Silva

Daniel Afonso da Silva é doutor em História Social pela Universidade de São Paulo e autor de “Muito além dos olhos azuis e outros escritos sobre relações internacionais contemporâneas”. [email protected]

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  1. Edivaldo Dias de Oliveira

    14 de outubro de 2023 5:04 pm

    Se você diz que o Irã é quem deve dialogar com Israel, posto que o Hamas é só um satélite iraniano, por que o diálogo não se dá entre Irá e EUA, posto que também Israel é só um satélite, um protetorado americano?

    Seja coerente companheiro!

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