A armadilha do “Sul Global”
por Daniel Afonso da Silva
“Sul Global” virou um mantra. Quase uma explicação peremptória para um novo mundo que vem aí. Uma solução quase inquestionável para uma pretensa realidade pós-norte-americana e pós-ocidental. Um passaporte quase seguro de muitos para dias possivelmente bons, amenos, plurais, multiculturais, identitários, das minorias e do amor venturoso.
Olhando bem de longe, ele parece uma verdade sem contestação. Olhando mais de perto, ninguém sabe definir tampouco deseja negar a sua existência. Analisando com vagar, ele não passa de um artifício retórico que dia após dia se revela uma armadilha explosiva eivada de simplificações, tropismos e falta de atenção.
Norte nem Sul jamais foram categorias nem conceitos confiáveis. No passado, durante o auge da tensão Leste-Oeste, inaugurada pela Revolução Russa em 1917 e espraiada até o fim da URSS em 1989-1991, a tensão Norte versus Sul dava conta de projetar assimetrias majoritárias de duas realidades mundiais de acumulação, crescimento e desenvolvimento. Após 1945, o francês Alfred Sauvy imaginou uma alternativa ancorada na expressão “terceiro mundo”.
Mais expressão que conceito, “terceiro mundo” ganhou força no imaginário de muitos e persuadiu, essencialmente, um conjunto de países a se reunir em Bandung em 1955 para discutir as suas peculiaridades. Peculiaridades de países foram do eixo majoritários das deliberações sobre o destino do mundo. Essas entrevistas lançaram as bases para a criação do Movimento dos Não-Alinhados em 1961 e do Grupo dos 77 em 1964.
Poucos anos depois, em plena guerra do Vietnã, ainda sob os estampidos globais de Maio de 1968 e às vésperas da vitória de Richard Nixon nas presidenciais norte-americanas, o ativista Carl Oglesby forjou a expressão “Sul Global” com a pretensão de superar os arranjos conceituais anteriores. Em sua compreensão, “terceiro mundo” era pobre como explicação e rude como noção. Pobre por ofertar uma ilusão etapista aos movimentos do mundo. Rude por supor uma inferioridade inexistente nesses países arrolados terceiro-mundistas – haja vista, a inquestionável superioridade do Vietnã frente aos Estados Unidos.
Nos redemoinhos planetários dos anos de 1970-1980 – saída norte-americana dos acordos de Bretton Woods, choques do petróleo, criação do G4 depois 5, chegada de ultraliberais ao poder nos Estados Unidos e no Reino Unido em 1979, invasão do Afeganistão, tensão no Irã, choque da dívida nos países latino-americanos, aceleração do fim da Guerra Fria, abertura do muro de Berlim e dissolução da URSS –, a inovação de Carl Oglesby foi silenciada. Como foi descartada a impressão do diplomata George Kennan sobre os países-monstros que estavam às voltas de se insurgir e ultravalorada a avaliação do historiador Paul Kennedy sobre o declínio incontornável dos Estados Unidos.
A sedução do debate, a favor e contra, o fim da história, a seguir, impediu a disseminação de outros debates. Inclusive da discussão sobre o choque de civilizações.
Precisou chegar o 11 de setembro de 2001 para as cartas todas serem baralhadas. O primeiro reflexo foi eliminar a pretensão norte-americana de unipolaridade mundial. Mesmo tendo restado os Estados Unidos como a única superpotência do planeta, o mundo, após 1989-1991, era, no fundo, mundo mais plural e dinâmico que aquele de 1945. O segundo, e mais efetivo, foram os choques de consciência que ressoam até hoje.
A guerra ao terror do presidente George W. Bush alterou a cartografia das emoções mundiais. A polarização ideológica da tensão Leste-Oeste virou uma profusão de tensões culturais, religiosas e civilizacionais após. “O Ocidente versus o Resto” foi feito uma obsessão. Os valores ocidentais, a democracia e, no limite, Deus jamais foram tão mobilizados para justificar conflitos. E o “nós contra eles” virou, pouco a pouco, o pão de cada dia entre todos.
Foi exemplar, nesse contexto, a contundência do presidente Lula da Silva, recém-eleito em 2002, ao indicar ao presidente norte-americano a indiferença brasileira a esse “nós contra eles” que a guerra ao terror promovia. O “terror” brasileiro era a “fome”. Não outro. Dizia o presidente. E com essa postura ele parecia se alinhava com todos os movimentos altermundialistas em voga. Especialmente aqueles que se reuniam em Porto Alegre para anunciar o Socialismo do Século XXI juntamente com aqueles que se reuniam em todas as partes para afirmar que uma outra globalização era possível.
Vinte anos depois, a guerra ao terror deixou de existir, mas o terror das guerras e das tensões parece mais presente que nunca.
A nova fase da tensão russo-ucraniana representa o maior reservatório desse terror assim como o incontestável revelador de que a complexidade deste mundo não cabe nas abstrações correntes forjadas pela retórica do “Sul Global”.
Um primeiro retoque vai ao encontro da recepção analítica daquilo que se passa entre Moscou e Kiev.
Europeus educados tipificam como guerra e entendem ser uma guerra inédita no espaço europeu desde 1945 porque, verdadeiramente, desde as ruínas da segunda grande guerra do século XX que conflitos regulares de alta intensidade não tinham lugar por ali. Africanos, euroasiáticos e médio-orientais, ambientados em guerras civis, identitárias, religiosas, sentimentais, econômicas, climáticas, comerciais, emocionais, coloniais e pós-coloniais desde a noite dos tempos, continuam considerando a situação russo-ucraniana como uma tensão, podendo ser, no limite, uma guerra por procuração, mas jamais uma guerra com a gravidade que europeus e afins propõem. Norte-americanos, notadamente estadunidenses, continuam alimentando o insistente cinismo e a inconsequente irresponsabilidade de cutucar urso com varas curtas para afugentar o panda taciturno no objetivo de negacear que a guerra de verdade segue sendo pela hegemonia sobre o sistema internacional. Latino-americanos (brasileiros inclusos) fazem bem em não saber muito bem do que se trata – se guerra ou tensão – e somente os mais afoitos dizem abertamente se tratar de uma guerra enquanto o presidente Lula da Silva, liderança política e diplomática mais importante da região, sabe melhor que ninguém que, nesses casos de tensão, o melhor a se fazer segue sendo nada se fazer.
Isso tudo indica as quebras da pretensão de generalização forjada pela imagem obtusa de Sul versus Norte, Norte versus Sul e “Sul Global”.
Note-se que a China, a Rússia e a Índia, grandes vedetes do Sul dito global, estão, cartograficamente, no hemisfério Norte. Austrália e Nova Zelândia, dimensões incontestáveis do extremo-ocidente, estão no hemisfério Sul. No Norte nem no Sul existe unidade tampouco coerência política nem econômica.
A China, que está no Norte não no Sul, desde 1971, quando Pequim suplantou Tapei, é um membro do Conselho de Segurança das Nações Unidas. A peculiaridade dessa condição inviabiliza a participação, normal, da China em qualquer outra aglomeração. A sua superioridade gera constrangimentos inquestionáveis e certa dominação silenciosa sem perdão. A Rússia, da mesma sorte que a China, participa desse grupo seleto saído de 1945 e nada consegue negacear a sua imperiosidade. A Índia não participa como membro-permanente do Conselho de Segurança, mas a sua reivindicação recorrente é de se reconhecer como “não-ocidental, mas não anti-ocidental”. Essa postura indiana ambienta o conjunto das demais contradições e desarmonias dos países sugeridos meridionalistas. Síria e Irã se abraçam ao tônus ideológico russo. Arábia Saudita busca de todas as formas se norte-americanizar. A Malásia, em plena decolagem econômica, segue a Arábia Saudita. A Zâmbia, com um produto per capita dez vezes inferior ao da Malásia, busca abrigo no ambiente sino-russo. O Uruguai democrático nega qualquer vinculação aos ideários do Sul que se quer global – note-se que nem no Mercosul os uruguaios se percebem confortáveis. E o Sudão do Sul, mesmo estando no Sul, daria tudo para estar, mentalmente, em qualquer outro lugar que lhe portasse um mínimo amenidades.
Tunísia, Libéria e Quênia participam do grupo de contato de países neutros que intermediam a relação entre a Ucrânia e Rússia no conflito. Jordânia, Marrocos, Paquistão e Sudão, em contraponto, alimentam os ucranianos com armamentos. Contradição maior não poderia haver, mas existe. A rivalidade sino-indiana, que vem de longe, foi explicitada nas últimas negociações dos BRICS. A tensão mental entre brasileiros e argentinos, marroquinos e argelinos, etíopes e eritreus, iranianos e sauditas, que nunca foi negada nem superada, inviabiliza qualquer modificação revisionista mais consistente das instituições que saíram de 1945. Mesmo que os cinco membros-permanentes do Conselho de Segurança ofertassem maiores brechas – o que não está no horizonte – nenhum desses países do dito “Sul Global” receberia apoio de seus vizinhos.
Nenhuma instituição, ademais, comporta a integralidade das divergências, contradições e inconsistências dos medionalistas globais. A Organização de Cooperação de Shangai integra, amigavelmente, a Rússia, que jamais reconheceu com seriedade essa história de “Sul Global”, e a Índia que não tem pretensão de quebrar a sua ponte com os Estados Unidos, a Europa e diversos valores do Ocidente.
A evolução dos BRICS representa um feito extraordinário. De um simplório acrônimo de um Banco de Investimentos – no caso, Goldman Sachs –, tornou-se uma das mais imponentes plataformas de revisão da arquitetura internacional vigente. O anúncio, recente, de sua ampliação causou sentimentos divergentes entre todos. Os convidados a ingressar a partir de 2024 ampliarão a diversidade do grupo e complicarão a sua capacidade de gestão e deliberação. Contrário ao que se pode imaginar, os novos ingressantes, no fundo, querem, simplesmente, ter maior acesso aos recursos disponíveis no Banco dos BRICS. Mas o mais interessante, para além de curioso, reside no fato de a Indonésia, anfitriã da simbólica conferência de Bandung, após consultas, recusar-se a apresentar a sua candidatura ao BRICS sinalizando privilegiar o seu ingresso na OCDE.
O mantra do “Sul Global”, assim, não passa de alimento para armadilhas intelectuais e políticas. E, pior que tudo, na sanha de simplificar a complexidade da pasmaceira do mundo, vende ilusões e autoenganos facilmente internalizados, justamente, por aqueles que não podem mais viver de ilusões nem de autoenganos.
Daniel Afonso da Silva é doutor em História Social pela Universidade de São Paulo e autor de “Muito além dos olhos azuis e outros escritos sobre relações internacionais contemporâneas”.
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Diogo Fornelos
4 de outubro de 2024 4:03 pmHá um quê de Miriam Leitão style nessa abordagem acerca do que pode (ou não) simbolizar a ascensão, no cenário internacional, dos BRICS+.