A solidão de moribundos
por Daniel Afonso da Silva
O novo século, inaugurado no 11 de setembro de 2001, parece estar chegando ao paroxismo. Às voltas com Iraque, Afeganistão, Wikileaks, Julian Assange, Crise Financeira Mundial, BRICS, Primavera Árabe, Brexit, Donald J. Trump, Jair Messias Bolsonaro, Covid-19, tensão russo-ucraniana 2.0, a ressurreição do presidente Lula da Silva, a mais recente Assembleia Geral das Nações Unidas começou e terminou sem expressão.
Nenhum membro permanente do Conselho de Segurança, coração do multilateralismo, compareceu positivamente neste ano. O presidente norte-americano foi constrangido a estar presente antes pela sua condição de anfitrião que por suas eventuais convicções na relevância da agremiação. Dezenas de países de países enviaram os seus mandatários. Mas pouco se avançou e nada se resolveu.
O presidente russo nem o presidente chinês jamais foram afeitos a travessias do Atlântico para convescotes com comensais do multilateralismo em Nova Iorque. Foram pouquíssimas as vezes que se permitiram mostrar a figura por lá. No entanto, sempre enviaram delegações frondosas, com plenipotenciários de valor. Desta vez, não foi assim.
Outro ausente foi o presidente francês, que preferiu receber a Sua Majestade, o Rei Chales III, em visita de estado, para passeios por Paris e manjares em Versalhes, em lugar de se acotovelar pelos corredores das Nações Unidas.
Nova Iorque das Nações Unidas virou démodé. E não é de hoje. Mas a apatia e a impotência avistadas neste setembro sinalizam, como nunca, sinais dos tempos.
Tem vinte anos, é bem verdade, que ninguém acredita verdadeiramente nas Nações Unidas nem no multilateralismo. A invasão internacional do Iraque malgrado o veto francês em 2003 golpeou de morte a credibilidade do sistema coletivo de segurança internacional. A selvageria da crise financeira mundial de 2008 soterrou qualquer confiabilidade no Sistema Monetário Internacional. A insurgência da pandemia de Covid-19 inviabilizou a credibilidade do sistema onusiano de segurança humana. A nova fase da tensão russo-ucraniana também decorre desse vazio. O clamor de Lampedusa também.
Ao sondar os milhares de africanos despejados na charmosa ilhota italiana no início deste mês de setembro, os franceses se anteciparam em redizer que não podem “acolher toda a miséria do mundo”. A União Europeia seguiu se esquivando. Os norte-americanos, institucionalmente, meio que dão de ombro. E, na abertura dos trabalhos das Nações Unidas deste ano, falou-se pouco e decidiu-se menos ainda sobre a situação.
Os desesperados de Lampedusa anseiam por um lugar ao sol uma vez que até o sol, em seus países falidos ou depauperados pela intervenção europeia ou norte-americana, ficou encoberto depois da erupção da nova fase do conflito russo-ucraniano. A fome lhes tomou de todos conta.
Em fevereiro deste ano, para ficar num único demonstrativo, o Banco Mundial publicou o seu Food Security Update com o recolhido dos países com maior variação de preços em seus produtos da cesta de produtos básicos da dieta alimentar de seus nacionais em função da tensão russo-ucraniana. Vejam-se os números na tabela.

Olhando de perto, os países africanos arrolados, todos participam ou estão em vias de ingressar na caravana de estados falidos. A sua população, geralmente, tende a ser expressiva e vive mal ou pessimamente mal, triste e incrivelmente precariamente. Com esse choque inflacionário sobre produtos indispensáveis à nutrição corrente dessas pessoas, elas ficaram ainda mais derrotadas, humilhadas, esmagadas e escalpeladas. Consequentemente, muitos deles, foram parar em Lampedusa.
O paroxismo atual demonstrado do multilateralismo onusiano demonstrado nas conversações nas Nações Unidas nesta semana reside nos pesos e medidas variados onde russos e ucranianos vão lamentavelmente morrendo e recebem o clamor do mundo inteiro enquanto africanos perambulam solitários e moribundos por todas as partes sem ninguém lhes ouvir nem ver. As Nações Unidas parecem unidas, mas apenas em parte. Parte onde os desesperados em Lampedusa, definitivamente, não estão.
Daniel Afonso da Silva é doutor em História Social pela Universidade de São Paulo e autor de “Muito além dos olhos azuis e outros escritos sobre relações internacionais contemporâneas”.
O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.
Deixe um comentário