10 de junho de 2026

Dona Brancosa Rezadeira – Acalento das Almas de Floresta do Piauí, por Eduardo Pontin

E ainda é possível encontrá-la nos velórios a entoar Benditos que atuam como acalento nas almas dos nascidos em Floresta do Piauí
Dona Brancosa passa as tardes rezando benditos no alpendre de sua casa | Foto: Francisca Sousa

Série Piauí Cultura Regional (XIV)

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Dona Brancosa Rezadeira – Acalento das Almas de Floresta do Piauí

por Eduardo Pontin

Com voz pungente digna das rezas de Benditos e Incelenças, Dona Brancosa (Angelina Joana da Conceição Lima, 28/12/1943) tem sido responsável por aquecer as almas de familiares e amigos que acabaram de perder um ente querido. Num passado não muito distante, não havia velório no município de Floresta do Piauí, a cerca de 400 km de Teresina, para Dona Brancosa não estar, seja no centro da cidade, seja no Oi D’Água, Patos, Riacho, Cerca Véa, Macambira, Machado, Pinhões, Caiçara ou qual fosse o interior. Lá estava a figura bondosa de Dona Brancosa, firme, a entoar as rezas que tocavam o coração de todos os presentes: “Meu fio, tem reza que faz arrancá o coração”.

Dona Brancosa encara a função de rezadeira como um chamado, uma obrigação, como se soubesse que a sua presença é necessária para que as pessoas se sintam melhor no momento de dor da perda de uma pessoa amada. Brancosa crê, em seu íntimo, que a sua reza auxilia a jornada da alma de quem acabou de fazer a sua viagem para o outro plano.

Essa é uma fé que se passa de geração para geração e as rezas são entoadas com grande devoção e entrega, amolecendo os corações e fazendo com que o pranto que resiste em cair seja derrubado com destemor, lavando a alma das pessoas que ali sofrem.

Quem reside nos grandes centros urbanos desconhece a força das rezas do sertão nordestino, já que os velórios nas grandes cidades são frios, sem o clamor e o calor das rezas de Benditos e Incelenças. Mas quando alguém chegava na sombra do frondoso pé de tamarindo no terreiro de Dona Brancosa com a notícia da morte de uma pessoa, ela imediatamente procurava saber onde iria ser o velório e dali a poucas horas lá estava ela.

Os velórios no sertão do Piauí, assim como no sertão nordestino, acontecem na casa onde a pessoa falecida vivia. Dona Brancosa então chegava naquele lar simples e ali permanecia madrugada adentro, sem deixar de rezar um minuto sequer. Para isso muito contribuíam as rezadeiras e rezadores que respondem os Benditos e Incelenças, pois como todo canto do povo, essas rezas são entoadas de forma coletiva, com a ajuda de outras pessoas. A reza tanto serve para aquecer a alma dos que sofrem, como ajuda a manter todos acordados noite afora.

Quando Dona Brancosa cansava ou não se recordava de nova reza, a saudosa Dona Ana de Neco então tomava à frente e emendava outra Incelencia. Quando Dona Ana se cansava, Nega de Chico de Joana é quem assumia a reza, até que Dona Brancosa a retomava, num revezamento de grande empenho em nome da fé, da consideração pelos familiares e da memória daquele que se foi.

Tanto esforço acabou sendo reconhecido publicamente pela Prefeitura de Floresta do Piauí. Em 2021, Dona Brancosa foi agraciada com o título de Imortal pela Academia Florestense de Cultura Popular, sendo reconhecida pelo poder público de sua cidade.

Dona Brancosa recebe diploma de Imortal das mãos da jornalista Francisca Sousa, sua conterrânea

Com os descaminhos da vida, após algumas perdas em sua família mais íntima e por questões de saúde, hoje Dona Brancosa já não é mais tão presente nos velórios de sua cidade. Porém, se engana quem pensa que por isso ela deixou de rezar. Basta visitá-la no alpendre de sua casa no povoado Volta para ver que Brancosa continua afiada nas rezas.

E conforme as circunstâncias, ainda é possível encontrá-la nos velórios a entoar Benditos que atuam como acalento nas almas dos nascidos em Floresta do Piauí. Município pequeno, com população de pouco mais de 2.500 pessoas, porém habitado por um povo perseverante e resistente, que tira suas forças das dificuldades do dia a dia e não se abate nunca. Terra onde ainda hoje se rezam Benditos e Incelenças, se tira Visita de Cova, São Gonçalo, Reisado e se dança Lezeira. Mesmo prestes a inteirar 80 anos, quando alguém precisa de fé e esperança, lá está Dona Brancosa, a entoar a reza:

“Espera anjo do céu, que eu também vô mais você!”

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Eduardo Pontin

Eduardo Pontin é filósofo e há mais de 10 anos desenvolve estudos e pesquisas de campo no universo do samba e da cultura popular brasileira. Produtor Cultural, vem trabalhando no processo de patrimonialização imaterial da Dança da Lezeira do Piauí, tendo atuado junto ao IPHAN para que esta expressão seja considerada Patrimônio Cultural Brasileiro. Recebeu 1ª Menção Honrosa no Prêmio Nacional Sílvio Romero de Monografias sobre Folclore e Cultura Popular 2022, com o livro “Lezô, Lezá, Vamô Vadiá, Nesta Lezeira – Ancestralidade e Simbolismo na Dança da Lezeira do Sertão do Piauí”.

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