5 de junho de 2026

Gaza, “O inferno na Terra”, por Carlos Vianna

Parte da população de Gaza é composta por refugiados expulsos da Palestina em 1949, na “Grande Catástrofe”, Al Nakba.
UN Photo/Shareef Sarhan

Gaza, “O inferno na Terra”

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por Carlos Vianna

Assim qualificou a situação a situação humanitária de Gaza o alto comissário das Nações Unidas para os Refugiados, em 11 de dezembro. Com toda razão.

Assistimos desde o 7 de outubro, quando o Hamas realizou uma invasão vitoriosa e impiedosa do território fronteiriço de Israel, a uma narrativa cínica por parte de Israel, destinada a justificar o que hoje é evidente em sua estratégia frente ao povo de Gaza: a limpeza étnica e um massacre generalizado punitivo, que caminha para as 20 mil mortes nos próximos dias, em resposta à ousadia e violência do Hamas.

A narrativa de Israel, secundada pela generalidade dos media ocidentais e também por seus líderes políticos, é de que os objetivos de Israel são liquidar o braço armado do Hamas, as brigadas Al-Qassam e resgatar os reféns. Para realizar este objetivo, até o momento em que escrevo (13/dez.), mais de 20% das construções civis de Gaza foi destruída e 18 mil seres humanos, de bebês a velhos, a maioria civis, foram mortos em função dos bombardeamentos por terra, mar e ar ou em confrontos com as IDF (Israeli Defense Forces). nesta invasão do território antes vedado às forças israelenses. Os feridos já somam 50 mil pessoas, com atendimento médico muito precário devido ao quase colapso do sistema de saúde de Gaza. Os vários hospitais bem equipados existentes até o 7 de outubro estão hoje ou inoperantes, semi-destruídos ou em funcionamento muito precário. Não se sabe quantos combatentes do Hamas foram mortos em confrontos armados. Israel fala em seis mil, mas será um número seguramente inflacionado. Dificilmente será possível obter números finais fiáveis quando o conflito cessar, com a ocupação total da Faixa de Gaza pelas IDF. O jornal Haaretz, o mais fiável de Israel, alega que o número de soldados do IDF feridos é muito maior do que os divulgados oficialmente. Seriam mais de 3 mil. Mortos serão várias centenas, contando com os atingidos na invasão do Hamas em 7 de outubro.

Ao bombardeamento quase indiscriminado da população de Gaza soma-se a estratégia de deslocamento de sua população para o sul, que, entretanto, tem sido bombardeado e tomado pelas forças terrestres de Israel. Israel obrigou a que a população da Cidade de Gaza, no norte, fugisse para o Sul (Khan Yunis e Rafah) e continua a fustigar o mesmo sul, indicado como território “seguro”. Já houve bombardeamentos perto da fronteira de Rafa, além de Khan Yunis estar sendo objeto de intensas operações por terra e ar.

Assim, quase 2 milhões de pessoas vão sendo empurradas e encurraladas, o que torna possível a hipótese de parte da população, em desespero, invadir o Egito. Este não está disposto a abrigar refugiados palestinianos, mas esta possibilidade é falada abertamente por diplomatas e pela imprensa. Parte da população de Gaza é composta por refugiados expulsos da Palestina em 1949, na “Grande Catástrofe”, Al Nakba. Não querem repetir a História, em tragédia.

Além de “eliminar” o Hamas, objetivo repetido à exaustão desde o dia 7 de outubro, fica claro que o gabinete de guerra israelense quer e vem promovendo uma gigantesta operação de limpeza étnica, potenciada por um morticínio sem precedentes, com o objetivo oculto de despovoar a Faixa de Gaza e torná-la praticamente inabitável. Os países fronteiriços, Egito e Jordânia repetem que não aceitarão a presença maciça de refugiados de Gaza, mas o que acontecerá nas próximas semanas não se sabe.

Além da limpeza étnica, a ação impiedosa do IDF responde a um claro desejo de vingança, a uma operação de escarmento em resposta às mortes de 900 ou mais civis e 200 a 300 militares às mãos  do Hamas em 7 de outubro. Israel quer deixar claro aos palestinianos e também a seus apoiantes no mundo, sejam Estados ou populações, que qualquer ação de envergadura contra o território israelense terá uma resposta muitas vezes superior em violência, em mortes e em destruição material. É a Lei de Talião, é a lei do mais forte, não escritas nas constituições, mas plenamente vigentes para muitos judeus, muçulmanos e também cristãos, aqueles que seguem à letra as religiões do Livro.

Também ficou claro que Israel dificilmente negociará a troca de parte ou da totalidade dos reféns ainda em poder do Hamas por presos políticos palestinianos, a maioria da Cisjordânia, mais de 10 mil e em aumento diário. Apesar da pressão das ruas em Israel, a vida dos reféns nunca esteve tão em perigo devido às ações militares do IDF. Ao que parece, não menos de vinte já morreram nos bombardeamentos destes 2 meses. Israel optou por interromper a trégua e a negociação por mais trocas, por entender que ela favorecia o Hamas, política e militarmente. Assim, abdicou de obter a libertação de mais reféns pela via negocial, a mais segura, a mais viável.  

A nível da política interna de Israel, é claro para a maioria de seus cidadãos e também para o mundo, que Netanyahu joga sua sobrevivência política nesta guerra de destruição de Gaza. Ele estava quase a ser derrubado por um formidável movimento cidadão de repúdio às suas reformas “a la Orban”, destinadas a promover o controle do Judiciário pelo Poder Executivo. O 7 de outubro neutralizou este ajuste de contas dos cidadãos contra a liderança de direita e extrema-direita, que tem a maioria do Knesset. Mas a questão não foi esquecida. E na hora do ajuste de contas  com Netanyahu, mais cedo do que ele deseja, ele e as IDF terão que responder como foi possível o ataque exitoso do Hamas, por terra, mar e ar. A extensão da ação militar das IDF por vários meses, como já anunciado, favorece Netanyahu e seus fiéis, mas a oposição ao seu governo tem vindo a crescer, mesmo em tempo de guerra.

Sabe-se hoje, sem dúvida, que os planos de invasão do Hamas eram conhecidos em detalhe pelos serviços secretos israelenses muito antes do ocorrido. Como é possível que a resistência dos militares fronteiriços tenha sido tão insuficiente? Quer na defesa do território, quer na ajuda tardia aos apelos desesperados vindos dos kibutz atacados e dos participantes de um festival musical, perigosamente perto da fronteira? Terá Israel relaxado suas defesas de propósito, para justificar a reação que se seguiria a um ataque do Hamas em território do Estado de Israel? Isto já seria muito maquiavélico, mas… Ou simplesmente os responsáveis julgaram ser o Hamas incapaz militarmente, apesar deste bombardear Israel frequentemente. Até o Iron Dome falhou no 7 de outubro. Não há até hoje um relatório credível sobre tudo o que se passou neste fatídico dia. São muitas as perguntas incômodas a serem respondidas pelas autoridades, como se pode ler no Haaretz quase todos os dias. A imprensa de Israel tem relembrado a relação ambígua entre o Hamas e os governos de Israel, desde 2006, interessados em minar a Autoridade Palestiniana da Cisjordânia, liderada pela Fatah de Mahmoud Abbas.

Gaza, habitada desde a Antiguidade, foi um território ocupado e administrado por Israel de 1967 (Guerra dos 6 dias) até 2005, quando Israel se retirou. Antes de 1967 foi administrada pelo Egito. Os braços político e filantrópico do Hamas têm governado Gaza desde as últimas eleições de 2006, com algum apoio material do Estado de Israel. Do contrário nem água teriam para beber. Isto, apesar dos conflitos abertos em 2008, 2012 e 2014, entre Israel e o braço militar do Hamas terem redundados em quase 4000 palestinianos mortos, principalmente em bombardeamentos, a maioria civis e menos de 100 israelenses, a maioria militares.

Desde 2010 Israel encerrou os habitantes de Gaza, impedindo sua deslocação com exceção de um número muito limitado de trabalhadores palestinianos em Israel. Por sua vez o Egito também fechou as fronteiras com o território, ajudando a transformar Gaza no que muitos classificam como uma prisão a céu aberto. Sobraram uma fronteira muito controlada e os túneis clandestinos do Hamas por onde entraram armas e outros materiais e permitiram a entrada e saída de militantes.

No plano diplomático vamos assistindo à mudança da atitude de alguns países europeus em decorrência das evidências chocantes do morticínio e do desastre humanitário em Gaza. Ao que se somam as centenas de mortes e perpetradas pelas forças militares e pelos colonos judeus na Cisjordânia. Estes, muito empenhados em promover ações de limpeza étnica para tornar ainda mais penosa a vida dos palestinianos no território previsto para ser um futuro Estado Palestiniano, conforme o mapa desenhado pela ONU em 1948. Os países europeus com assento no Conselho de Segurança apoiaram a resolução proposta pelo EAU de novo cessar-fogo, só reprovada pelos veto dos Estado Unidos. Irlanda, Espanha e o Comissário para os Assuntos Externos da União Europeia têm criticado duramente Israel por suas ações militares. Por sua vez, o chefe do governo da Alemanha pediu às IDF que “melhorem a pontaria para matar menos civis”, numa declaração deplorável. Depois de tantos líderes ocidentais irem bajular Netanyahu logo depois do 7 de outubro, repetindo à exaustão “o direito à auto-defesa de Israel” e abençoando, assim, a resposta muitíssimo mais violenta que os ataques do Hamas, também muito violentos e chocantes, por sua vez. Mas agora os líderes ocidentais e até os Estados Unidos, com suas tímidas e humilhantes declarações em “defesa” dos civis palestinianos, não querem ficar colados ao morticínio tão evidente, à morte de milhares de crianças e velhos, de mais de 140 funcionários da ONU, à destruição de hospitais e escolas, ao panorama de fome e desespero que nos chega todos os dias pelas televisões.

Por seu lado, os países do mundo árabe e outros países muçulmanos como a Turquia e a Indonésia, parecem fazer pouco em defesa dos habitantes de Gaza e da Cisjordânia. Poderiam articular um cerco diplomático a Israel, com o corte generalizado de relações ou no mínimo a retirada de seus embaixadores. A ONU, através de seu secretário-geral e outros dirigentes, desmultiplica-se em críticas, propostas de resoluções e reuniões extraordinárias da Assembleia Geral, para pedir um cessar-fogo e iniciar negociações. Mas não tem capacidade de influência sobre Israel, que faz o que quer e espera sempre o apoio incondicional dos Estados Unidos e dos lobbies judeus em vários países. O apoio timidamente crítico da maioria dos países ditos ocidentais é acompanhado, com alguma hipocrisia, da defesa da bandeira dos “dois Estados”, como solução de fundo. Por seu lado, Israel tem a arrogância de “exigir” a destituição de António Guterres, considerado como “porta-voz do Hamas”, mesmo sendo derrotado em sucessivas eleições de resoluções, tanto no Conselho de Segurança como nas assembleias-gerais extraordinárias. Infelizmente, a “questão palestiniana” parece ser também um incômodo para muitos países árabes, em especial os mais ricos e antes em amnobras de aproximação  a Israel, como a Arábia Saudita e os Emiratos. Ou o Egito, que recebe há anos uma enorme ajuda financeira e militar dos Estados Unidos. Mas parece ser um fato que Israel, com o morticínio de Gaza, jogou por terra anos de aproximação a vários países árabes, que se vêem constrangidos pelo apoio popular de seus cidadãos à causa palestina. E também aumentou o seu isolamento a nível mundial, o que parece não lhe importar.

Israel sempre viveu à margem das leis internacionais, das múltiplas resoluções da ONU desde 1948, da Declaração Universal dos Direitos Humanos e aplica a lei do “quero, posso e mando”, empoderado pelas várias vitórias militares nas guerras contra Estados árabes e pela subjugação dos palestinianos nas mais diversas formas e ocasiões. Bombardeia os seus vizinhos quando quer, o Mossad assassina inimigos selecionados em qualquer parte do mundo.

Outro mito vendido com êxito ao mundo é que Israel é a única democracia da região. Será uma democracia para os judeus israelenses, mas não para os seus cidadãos de origem não judia, a maioria palestinianos que sobreviveram à Al Naqba, a enorme onda de violenta limpeza étnica que se seguiu à proclamação do Estado de Israel em 1948. O que existe é um regime de apartheid, não tão descarado como foi o sul-africano, mas que pratica a discriminação a vários níveis, como por exemplo, não servir o exército, vedado a não judeus. E também com uma discriminação positiva aos religiosos, que não são obrigados a servir o exército e têm outros privilégios civis, inclusive de formar partidospolíticos religiosos. Uma democracia com um “pezinho” na teocracia. Por outra parte até a democracia para os judeus vê-se ameaçada pelas reformas do Judiciário votadas pelo Knesset para turbinar o Poder Executivo em detrimento do Judiciário. Reformas também destinadas a proteger Netanyahu de condenações na Justiça por corrupção, em processos pendentes e adiados. Por fim, uma democracia que mantém um território ocupado militarmente, a Cisjordânia e promove a colonização por judeus deste território, ou seja a tomada de terras e recursos que oficialmente não são de Israel. É a guerra por terra e água, motivos milenares de invasões, escravizações, limpeza étnica e massacres no Médio Oriente. Com muita religião por meio. Desde o 7 de outubro, os colonos judeus na Cisjordânia, 500 mil, bem armados e muitos deles também militares, dedicam-se a assassinar ou hostilizar seus vizinhos palestinianos. Até já se fala em novos colonatos an Cisjordânia e em Jerusalém Oriental, antes totalmente não judia. Todos protegidos pelas forças policiais e armadas de Israel e conectados numa rede de estradas que destruiu completamente a possibilidade de integridade e continuidade territorial na região destinada a ser a base do Estado Palestiniano, conforme previsto pela ONU em 1948. Já foram mortos mais de 300 palestinianos da Cisjordânia, por colonos ou pelo IDF, junto aos colonatos, no campo de refugiados de Jenin ou nas ruas de Ramalah. Prisões foram feitas às centenas nestes dois meses. Já há muito que a solução de dois Estados foi inviabilizada pela ação consciente e persistente dos vários governos israelenses de colonização e subjugação dos palestinianos da Cisjordânia. E também pela fragilidade e desprestígio da dita Autoridade Palestina e do governo (?) de Mahmoud Abbas.

Algumas palavras sobre terrorismo. É certo que o braço armado do Hamas usa táticas terroristas, entre as quais o condenável sequestro de civis para a promoção de troca de prisioneiros. E também semeou o terror ao atacar e assassinar centenas de civis no 7 de outubro, depois de neutralizar as forças do IDF encarregadas de proteger as fronteiras. Fala-se em 300 militares israelenses mortos na ocasião, o que significa que houve confrontos violentos, seguramente com mortos de lado a lado. Nos kibutz terá havido também confrontos, pois normalmente há esquemas armados de segurança nos mesmos. Mas como disse António Guterres, os ataques do Hamas não se deram no vácuo. São fruto da radicalização de milhares de palestinianos que vivem há dezenas de anos uma vida de subjugação e privações, má como poucos humanos vivem. São fruto dos confrontos, mais semelhantes a morticínios de anos anteriores, que vitimaram milhares de civis e uns poucos israelenses em ações de bombardeamento e ataques por terra, mar, ar. São fruto deste ódio curtido no sofrimento de tanto tempo. Ao terrorismo dos combatentes do Hamas se contrapõe o terrorismo de Estado, ao terror vivido nos bombardeamentos, aos milhares de mortos e feridos, numa relação profundamente desigual em números, em desfavor dos palestinianos. E, nestes dois meses, o que tem sido vivido pela população de Gaza só se compara aos piores momentos da II Guerra Mundial. Se terrorismo quer dizer semear o terror, a ação da IDF em Gaza ultrapassa o imaginável. Se contarmos os conflitos anteriores de 2008, 2012 e 2014, a proporção de mortos já ultrapassa os 20 para 1.

Qual será o futuro? Dos próximos meses? Dos próximos anos? Há solução política e diplomática para a “questão palestiniana”?

Os indicadores de vária ordem e as situações consolidadas no terreno nada de positivo fazem prever.

Israel prolongará sua ocupação em Gaza, ainda em consolidação a esta data e governará manu militari a Faixa de Gaza por um tempo prolongado, apesar dos conselhos em contrário de Biden. Tudo indica que o número de mortes, feridos e desatendidos dos serviços médicos seguirá em crescendo nas próximas semanas. Além da falta dos serviços mais básicos, alimentação, água, higiene básica.

A solução apregoada dos dois Estados foi neutralizada pela colonização da Cisjordânia e não se vislumbra que Israel venha a promover uma “descolonização, com a retirada de 500 mil de seus cidadãos dos vários colonatos distribuídos em todo o território.

Apesar da recente votação maciça na ONU (153 a favor, 10 contra, 23 abstenções) exigindo um cessar-fogo, não se vislumbra o fim da brutal ofensiva israelense nas próximas semanas. O que está claro é que dificilmente o Hamas desaparecerá, mesmo derrotado.

Também é previsível o aumento da radicalização da militância palestina e islâmica, não só nos territórios ocupados, mas no mundo islâmico e nas minorias islâmicas em muitos países ocidentais.  A lógica da retaliação, da Lei de Talião, continuará a ser muito forte e não será surpresa o aumento de atentados ditos terroristas, como já aconteceu em Israel e na França, em ataques individuais.

As tensões com os países vizinhos, com a Turquia, com o Irão e as escaramuças do Hezbollah na zona fronteiriça do Líbano deverão aumentar, até que ponto, não se sabe. As palavras e a propaganda de guerra são fortes, mas as ações militares são muito limitadas de parte a parte, devido a um certo equilíbrio de forças.

O que quer Israel para os próximos tempos, depois de arrasar e subjugar ainda mais Gaza, seus habitantes e sua infra-estrutura? E depois de deixar de lado, até mais ver, o caminho negocial para resgatar os reféns ainda em posse do Hamas, condenando na prática alguns ou muitos a provavelmente morrerem por fogo amigo em arriscadas operações militares de resgate e invasão de esconderijos?

Israel, ou pelo menos a maior parte de suas elites dirigentes, não está disposto a negociar a solução de “Dois Estados”. É algo para se falar, mas não para se fazer.

Em relação aos milhões de palestinianos a viver em Gaza e na Cisjordânia, o que se deseja em Israel, é que se desloquem para os países vizinhos, Egito, Líbano, Jordânia, Síria. Uma nova Naqba. Ou seja, querem que diminua a massa crítica de população que mantém viva a “questão palestiniana”.

O futuro imediato depende também das atitudes, das iniciativas políticas e diplomáticas do resto do mundo, em especial dos países mais influentes, Estados Unidos à cabeça. Ursula Van der Leyen e outros líderes europeus devem estar arrependidos da vassalagem prestada a Netanyahu nos dias seguintes ao 7 de outubro. Querem se demarcar da matança em curso. Ou pelo menos, como disse o Chanceler Shultz, querem que o IDF melhore a sua mira e mate menos civis, as cinicamente chamadas “baixas colaterais”. Os Estados Unidos continuam de pedra e cal a respaldar Israel e sua ofensiva, apenas pedem um pouquinho mais de ajuda humanitária, um mínimo de contenção na mortandade. E outros países, como a Rússia e China, criticam Israel mas nada fazem de substancial, ainda que a nível diplomático, para isolar ou incomodar Israel. Até Lula e o Brasil, apesar de ser duro na qualificação feita de “genocídio”, poderiam fazer mais. Entendo que a diplomacia brasileira foi contida para proteger os muitos brasileiros resgatados de Gaza, mas já é hora de, no mínimo, congelar as relações diplomáticas.

Aos palestinianos pouca mais resta do que continuar a sofrer e a resistir. Eles têm o direito à revolta, tal como São Tomás de Aquino defendeu para os povos oprimidos. E resta desejar que o mundo faça mais por eles, pois de Israel, nos próximos tempos, a potência ocupante e opressora, pouco podem esperar.

Os judeus são um povo extraordinário, resiliente e que foi perseguido durante séculos, culminando com a tragédia humana do Holocausto. Sem terra própria onde construir o seu Estado, depois de destruídos os Reinos de Judá e de Israel e, por 3 vezes, o Templo de Jerusalém, escravizados na Babilônia, tudo isto ao longo de mil anos, há quase 2 mil anos dispersaram-se pelo mundo, depois de lutarem e serem derrotados pelo Império Romano. Na falta de terras onde se fixar, cultivaram o intelecto, em contraste com o obscurantismo católico da Idade Média. E também criaram os bancos e o sistema financeiro na Europa, a base para a Idade Moderna, o binômio conhecimento e capital. Um povo resiliente e que manteve as tradições e a religião como instrumentos para a sua sobrevivência e unidade, apesar de dispersos e diferentes entre si. Mas que também se integrou nas sociedades e países que os acolheu e, não raro, também os maltratou.

Apesar dos sinais em contrário, sei que há um outro Israel, o Israel e o judaísmo de Amos Oz, o humanista sobrevivente dos campos de concentração. Há movimentos em prol de uma convivência pacífica e construtiva com os palestinianos, há uma juventude preocupada com o seu futuro, há Daniel Baremboim e tantos outros, há até a utopia de um só Estado, de judeus, palestinianos, cristãos e outras minorias históricas, um Estado laico, democrático e respeitador dos direitos humanos. Todos precisamos de utopias para tornar mais humano este mundo tão violento.

Depois de tanto sofrimento e perseguição durante séculos, de muito preconceito, custa-me entender como tantos dirigentes e cidadãos do Estado de Israel acreditam que poderão sobreviver pelos próximos séculos convivendo tão mal com os países vizinhos e com os descendentes de Sem, seus primos bíblicos semitas, os atuais palestinianos.

Quem sabe, com o tempo e o sofrimento, se abram outras portas, outras esperanças.

P.S.) Uma nota pessoal: Registro com pesar a notícia sobre a morte ” num bombardeamento da Faixa de Gaza”, segundo o Hamas, de 3 membros da família Bibas, sequestrados de um kibutz em 7 de outubro, um bebê de 10 meses, Kfir e uma criança de 4 anos, Ariel, além da mãe. Meus filhos e minha mulher são Bibas, ela bisneta de um rabino que veio do Marrocos para Belém do Pará no fim do século XIX, Salomon Bibas e que teve muitos descendentes brasileiros. Os Bibas sequestrados possivelmente vêm do ramo egípcio da família. Provavelmente os Bibas terão sua origem remota no Al Andalus. Todos são sefarditas, imigrantes no norte da África, em países que acolheram generosamente os judeus ibéricos perseguidos pelos católicos nos séculos XVI e XVII. Durante vários séculos na Idade Média, muçulmanos e judeus viveram harmoniosamente na Península Ibérica, parcialmente dominada pelos primeiros. Um exemplo para os dias de hoje.

Carlos Vianna tem 72 anos, é engenheiro aposentado e vive em Portugal desde 1988. Foi militante político e associativo desde 1967 no Brasil. Viveu no Chile e Argentina de 1971 a 1977. Foi presidente da Casa do Brasil de Lisboa. É autor de 2 livros: A Derrota (ensaio) e Uma Questão de Justiça (novela policial).

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