4 de junho de 2026

Vulnerabilidade e libertação, por Paulo Fernandes Silveira

Segundo Lévinas, a vulnerabilidade e a empatia são elementos fundamentais na resistência contra a barbárie.
(Renata Humaire e o felino sem-nome)

Vulnerabilidade e libertação

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por Paulo Fernandes Silveira

Depois de dois anos comendo todas as madrugadas na lavanderia de nossa casa, um gato mirrado estacionou na calçada para nos pedir socorro. Ele está gripado, fraco e magrinho. Vive nas ruas, nunca tinha deixado as pessoas chegarem perto dele.

Impressiona a mudança de comportamento, provavelmente, provocada pela debilidade. Agora, ele mora em nossa lavanderia (os outros gatos da casa não aceitam o hóspede), pede colo a todo o momento, aceita o tratamento e come muito. O nariz ainda escorre, como no choro triste e silencioso das crianças institucionalizadas.

Essa experiência-limite me fez lembrar de Lévinas. Numa entrevista acadêmica (POIRIÉ, 2007), o filósofo refere-se ao romance Vida e destino, de Grosmann (2014). Como o autor do romance, Lévinas enfrentou os horrores da Shoah.

A passagem citada retrata uma senhora que não nega um copo d’água a um soldado alemão ferido. Segundo Lévinas, a vulnerabilidade e a empatia são elementos fundamentais na resistência contra a barbárie.

Larrosa (2011) analisa o papel da vulnerabilidade para a educação. Butler (s/d) indica a importância da vulnerabilidade no combate à opressão. Safatle (2019) traça uma relação entre a vulnerabilidade e o poder de libertação.

O atual movimento feminista tem trabalhado o conceito de vulnerabilidade no debate sobre políticas sociais (TEIXEIRA, 2022).

No caso do pequeno felino sem-nome, imagino que a vulnerabilidade o tenha libertado do seu próprio instinto de sobrevivência que o fazia correr das pessoas. Ele precisou apostar que aquelas e aqueles que temia poderiam lhe ajudar.

Referências.

BUTLER, Judith. s/d. Repensar la vulnerabilidad y la resistencia por Judith Butler, Parole de Queer. Disponível em: https://paroledequeer.blogspot.com/2014/06/repensar-la-vulnerabilidad-por-judith.html

GROSSMAN, Vassili. 2014. Vida e destino. Rio de Janeiro: Objetiva.

LARROSA, Jorge. 2011. Experiência e alteridade em educação. Reflexão e ação, v. 19, n. 2, p. 4-27. Disponível em: https://online.unisc.br/seer/index.php/reflex/article/view/2444

POIRIÉ, François. 2007. Emmanuel Lévinas: ensaio e entrevistas. São Paulo: Perspectiva.

SAFATLE, Vladimir. 2019. Crítica da autonomia: liberdade como heteronomia sem servidão. Discurso49 (2), 21–41. Disponível em: https://www.revistas.usp.br/discurso/article/view/165473

TEIXEIRA, Mariana. 2022. Vulnerability a critical tool for conviviality-inequality studies, Working Paper, n. 44. Disponível em: https://publications.iai.spk-berlin.de/receive/iai_mods_00000141

Paulo Fernandes Silveira (FEUSP e IEA-USP)

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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