A participação de militares ao longo do primeiro ano da gestão de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) pode ser dividida em três momentos: no primeiro, entre o resultado da eleição, em 30 de outubro, e a posse, em dezembro, momento em que havia uma ameaça concreta de golpe de Estado. O segundo, durante os atos terroristas de 8 de janeiro, quando opositores também tentaram tomar o poder.
E o terceiro se inicia com a reorganização dos militares no governo, participação esta descrita como turva por Rodrigo Lentz, jornalista e doutor em ciência política pela Universidade de Brasília, que participou do programa TVGGN 20H desta segunda-feira (22) para comentar o artigo do Instituto Tricontinental de Pesquisa Social sobre a atuação e influência dos militares no Executivo federal.
De acordo com o entrevistado, ainda não é possível definir se os integrantes do Exército, Marinha e Aeronáutica são um risco real para a democracia brasileira, em especial durante a liderança de Lula.
Mas entre a eleição e os atos golpistas houve, sim, ameaças concretas de golpe de Estado. “A conclusão a que chegamos é que, diferente do início, em que era de fato uma ameaça concreta e imediata de golpe de Estado, hoje há o que a gente chama de subordinação dissimulada, bastante negociada, com o chamado centrão fardado. Os militares hoje prestam continência ao presidente Lula, ao presidente em exercício, reconhecido como presidente da República, e têm se engajado na política na área econômica, justamente a política de reindustrialização do país”, afirma Lentz.
Ameaça
O jornalista e doutor em ciência política observa a estreita relação entre militares e os governos brasileiros, uma vez que, independente da gestão, os militares atuam como uma força permanente na política, a exemplo do general Marcos Amaro, ministro do Gabinete de Segurança Institucional (GSI) da Presidência.
“Mas essa subordinação dissimulada não significou a ausência de uma série de posições de tutelas dos militares, sobretudo do Exército, que ainda representam uma ameaça ao regime democrático, sobretudo dependendo do contexto interno e externo. Este ano temos as eleições nos Estados Unidos, com a possibilidade de volta do [Donald] Trump e eleições municipais, então tudo pode acontecer”, acrescenta o Lentz.
Outro fato que chama a atenção dos pesquisadores é a escassez de dados sobre o número de militares no atual governo, o que tornaria o cenário turvo, na avaliação de Lentz. Enquanto Jair Bolsonaro (PL) contava com 2.900 militares atuando no governo, Lula tem 2.700.
“Nossa grande preocupação é que, agora com as águas mais calmas, não se perceba o tamanho da permanência dessa pitela e da provável desestabilização do regime político, do governo e da estrutura do Estado quando a conjuntura mudar”, comenta o jornalista.
Afinal, graças ao pragmatismo no Brasil, a população esquece rápido dos fatos que resultaram em erros como o impeachment de Dilma Rousseff (PT) e o golpe de 2016, da própria eleição de Bolsonaro em 2018 ou mesmo nos atos golpistas em 2023. “A tendência a médio prazo, quando a conjuntura alterar, é que a gente tenha novamente uma nova ascensão dos militares na política como poder estabilizador e ameaça à democracia”, conclui o entrevistado.
Confira o bate-papo na íntegra no link abaixo ou no canal da TVGGN no Youtube:
https://www.youtube.com/watch?v=EBZCV4AfOjc
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ed.
23 de janeiro de 2024 3:31 pmAlém de enquadrar todos os militares deixando claro sua submissão aos poderes civis (punindo exemplarmente os comprovadamente golpistas), outra das ações necessárias é uma intervenção no que é ensinado e cultuado nas academias militares e de polícia militar, deixando claro seu papel de servir aos poderes civis da nação e sua subordinação de terceiro nível no Poder Executivo (presidência, 1o.nível) e de um ministro da Defesa (2o.nível). É preciso ensinar-lhes o seu verdadeiro, necessário e honroso papel militar e ainda que não são sequer um Poder Constitucional da República (estando aos três existentes subordinados, sob o comando de um), quanto mais “moderador. Isto por si só levará pelo menos duas gerações para ser compreendido e assimilado. Mas precisa começar.
JOSE DE ALMEIDA BISPO
26 de janeiro de 2024 9:49 pmJá é assim. O problema é que, como na Monarquia e República Velha, só consideram cidadãos, poder civil, aqueles da faixa com renda acima de um milhão anual. O resto, quanto menos ter/ganhar, mais está sujeito à chibata, mesmo não sendo marinheiro não oficial.
JOSE DE ALMEIDA BISPO
26 de janeiro de 2024 9:43 pmPara um militar subordinar-se às leis, conseguinte aos interesses do pais, (e não de alguns poucos paisanos) ele tem que não ter patrões, exceto o Estado; não ser capataz de milionários ou quem os represente. Não me parece, em geral, o que ocorre na América Latina, em especial. Quase tudo carrasco de pobre, capitães-do-mato, que de fato nem pela cozinha dos granfinos adentram suas mansões. Mas se sentem o máximo sendo assim. Por outro lado, fruto da truculência dos “capitães-do-mato”, mas principalmente do mesmo preconceito que leva estes mesmos servidores de Estado a reles condição de “capitão-do-mato”, o escárnio que especialmente certa esquerda dedica asos militares acaba dando preciosos resultados dentro daquela máxima romana: dividir para melhor governar. As duas classes vivem se mordendo. Para deleite e segurança de quem realmente costuma ser o mal do país; em prejuízo até de si próprio.