13 de junho de 2026

O populismo tem começado a sobrepujar a economia

Em artigo, professora de Cambridge cita Polanyi e alerta políticos de que não existe economia fora da sociedade que a criou e a sustenta
Foto de Element5 Digital via pexels.com

Os avisos do sociólogo econômico Karl Polanyi têm se mostrado prudentes mesmo 80 anos após a publicação de sua obra “A Grande Transformação”, que aborda os perigos de se tentar separar os sistemas econômicos das sociedades em que as habitam.

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E o futuro traçado por Polanyi pode estar diante da sociedade em 2024, segundo Antara Haldar, professora assistente em estudos empíricos legais na Universidade de Cambridge e professora visitante em Harvard.

Em artigo publicado no site Project Syndicate, Antara lembra que 2024 é o maior ano eleitoral da história, com muitos o considerando inclusive “uma espécie de plebiscito sobre a ordem global do pós-guerra”.

Entre os diversos países que vão realizar eleições gerais neste ano, estão duas maiores democracias do mundo (Índia e Estados Unidos) e três dos seus países mais populosos (Indonésia, Paquistão e Bangladesh), além das eleições parlamentares na União Europeia.

E até o momento, as críticas não parecem muito favoráveis – o que levanta questões sobre o que levou o mundo a passar da “esperança ofuscante” vista no final da Guerra Fria à desilusão atual.

Retrocesso na democracia

Segundo Antara, a democracia foi seriamente afetada em muitos países, mas o ponto de maior mal-estar envolve o avanço do populismo além do seu impacto à integridade eleitoral e à liberdade de expressão.

“Líderes como o ex-presidente Donald Trump, que deve garantir a vaga do Partido Republicano para disputar uma nova eleição, e o primeiro-ministro Narendra Modi, que lançou informalmente sua campanha à reeleição (…) parecem expressar algo real na psique global”, diz a pesquisadora.

Isso vem a partir das promessas de paz e prosperidade por meio do liberalismo político (em especial, a democracia e o Estado de direito) e da economia neoclássica, mas tais modelos foram comercializadas exigindo envolvimento mínimo com contextos, em ações desprovidas de política, valores e emoções.

Diante disso, Antara lembra Polanyi: a economia não pode ser “desincorporada” da sociedade, e as tentativas de elevar a economia acima da sociedade e reduzir as pessoas à mercadorias começaram a gerar descontentamento social, e uma série de avisos se fizeram presentes em forma de crises e até mesmo por meio do referendo do Brexit em 2016.

“Os líderes populistas de todo o mundo têm ganho terreno ao abandonar argumentos economicistas avançados e invocarem motivos nativistas – o misticismo e a magia que, de acordo com o sociólogo alemão Max Weber, o capitalismo tinha reprimido de forma decisiva”, diz Antara, ressaltando que as eleições deveriam ser um alerta para os políticos prestarem atenção à mensagem de que não existe economia fora da sociedade que a criou e sustenta.

Tatiane Correia

Jornalista, MBA em Derivativos e Informações Econômico-Financeiras pela Fundação Instituto de Administração (FIA). Com passagens pela revista Executivos Financeiros e Agência Dinheiro Vivo. Repórter do GGN desde 2019.

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