4 de junho de 2026

Portugal tenta se posicionar em um novo desenho do fornecimento de gás

Enviado por Paulo F.

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Do Dinheiro Vivo.pt

“Há interesse dos EUA em exportar gás através de Portugal”

Por Ana Baptista

O ministro da Energia, Jorge Moreira da Silva, esteve nos EUA durante cinco dias, foi a Washington e à Califórnia, reuniu com elementos do governo, com congressistas e com empresas do setor, e ainda organizou eventos para as empresas portuguesas mostrarem os seus projetos noutras empresas e em universidades. O objetivo foi mostrar o que Portugal pode fazer na economia verde e ainda como o país pode posicionar-se num novo desenho europeu de abastecimento de gás, uma necessidade cada vez mais premente agora que se aprofundou a crise na Ucrânia.

Quais eram os principais objetivos da viagem aos EUA?

Havia um objetivo mais político de aprofundar o diálogo entre Portugal e os EUA e nomeadamente a Califórnia, que é hoje a sétima maior economia do mundo, mas depois queríamos fomentar a visibilidade de Portugal nas energias renováveis e, mais importante, queríamos atrair investimento para as empresas e para o país.

E porquê agora?

A Europa está a tomar decisões e vai aprovar, em breve, um quadro clima-energia para 2030. Paralelamente, estamos a sofrer os efeitos da crise na Ucrânia e da questão da segurança de abastecimento de gás natural e, por isso, está a ser discutida a construção de novas interligações. E os EUA têm claras intenções de tomar decisões no plano da energia. Portanto, há aqui uma janela de tempo que é curta e que considerámos que devia ser aproveitada.

Que tipo de decisões vão tomar os EUA?

O presidente Obama tomou uma primeira grande medida para reduzir 30% das emissões em 600 centrais elétricas até 2030. E existe a possibilidade dos EUA exportarem gás natural. Se a Europa está a tomar decisões sobre interligações e se os EUA estão a falar em exportar é este o momento para nos posicionarmos.

Qual é a ideia?

Portugal, e Espanha também, podem ser uma verdadeira ponte para o gás na Europa. A Europa tem apenas 12 terminais de Gás Natural Liquefeito (GNL) e sete estão na Península Ibérica, seis em Espanha e um em Portugal, no porto de Sines, que tem capacidade para receber oito bcm (biliões de metros cúbicos), ou seja, 7% de todo o gás que a importado da Rússia. Incluindo as novas interligações previstas entre Portugal e Espanha e entre Espanha e França, a Península Ibérica tem capacidade para substituir 9% das importações de gás da Rússia e se se fizerem as outras ligações que já discutidas entre Espanha e França podemos mesmo substituir 40% dessas importações.

E por Espanha ter mais terminais de GNL não há o risco de beneficiar mais Espanha?

Não porque na última cimeira Portugal e Espanha acordaram aprofundar o mercado ibérico de gás e articulá-lo tal como já acontece hoje na eletricidade.

Qual foi o feedback desta proposta nos EUA?

Reuni com o ministro da Energia dos EUA, Ernest Moniz, e a reação foi muito positiva, não só da parte do governo, mas também das empresas e associações desse setor com quem também reunimos. Há um manifesto interesse das empresas norte-americanas em exportar gás para a Europa através de Portugal e por isso é que, do ponto de vista do gás, esta missão foi coroada de êxito.

Além do gás, houve outros temas em debate nesta missão, como o das energias renováveis…

O encontro com o responsável pelas medidas ambientais no governo, Todd Stern, mostrou que existe empenho dos EUA na redução das emissões e um cumprimento com as renováveis e isso é uma grande oportunidade para Portugal para exportar conhecimento e produtos. Todas as energias renováveis vão ter um grande salto nos EUA e foi por isso que quisemos dar visibilidade aos casos de sucesso que existem em Portugal.

Porquê ir à Califórnia?

O terceiro pilar desta missão estava relacionado com a atração de investimento para empresas portuguesas e foi nesse âmbito que reunimos com o Governador da Califórnia, Jerry Brown. As empresas portuguesas têm uma grande capacidade de internacionalização na Califórnia, porque existem imensas probabilidades de exportação de tecnologias verdes.

 

Mas os EUA sempre rejeitaram as questões ambientais…

É verdade mas, por exemplo, a Califórnia é hoje uma das mais afetadas pelas alterações climáticas. Atravessa, há quatro anos, uma grande seca, nos rios e barragens.

Que decisões concretas foram tomadas?

A Universidade de Berkeley está muito interessada em trabalhar com centros de competência e empresas portuguesas e pedirei ao Laboratório Nacional de Engenharia e Geologia (LNEG) que articule com o Laboratório de Engenharia da Universidade um protocolo de colaboração na área da economia verde.

Mas apenas na troca de conhecimento?

Não será apenas no plano científico. Estou a falar da Universidade de Berkeley servir de hub entre empresas portuguesas e californianas.

Qual foi o feedback que recebeu das empresas?

Foram 17 empresas e entidades portuguesas nesta missão, que sairam dos EUA com três certezas. A primeira de que vai haver procura para os nossos produtos. A segunda, de que existem grandes oportunidades para projetos apoiados pelo Banco Mundial nas áreas das águas, resíduos e abastecimento de energia em África e na América Latina. E terceiro, que existe interesse dos EUA em fazer investimentos na Europa na área verde.

Que investimentos?

Reunimos com a Tesla, que é uma líder mundial em mobilidade elétrica, com a Sun Power, da área da tecnologia solar, e com a Bloom Energy que se especializou no abastecimento de energia em zonas remotas através de células de combustível. A Tesla e a Bloom Energy não têm nenhuma fábrica na Europa e em breve, não este ano, mas em 2015 e 2016, teriam de ponderar uma expansão e então decidi avançar para reuniões para mostrar que temos empresas e centros de competência para isso. Portugal tem, agora, boas hipóteses de poder vir a ser escolhido para instalar essas unidades.

Em que áreas existem mais oportunidades para as empresas portugueses nos EUA?

Na área das smart grids houve um fortíssimo interesse. Houve também interesse na área da mobilidade elétrica, da energia das ondas e das plataformas flutuantes para energia eólica, aqui em particular na Califórnia que tem uma costa semelhante à nossa onde as torres não podem estar presas.

Redação

Curadoria de notícias, reportagens, artigos de opinião, entrevistas e conteúdos colaborativos da equipe de Redação do Jornal GGN

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