5 de junho de 2026

O  Larzac e a ecologia (1), por Walnice Nogueira Galvão

Em 1971, o governo francês declarou que ampliaria o campo militar de treinamento, localizado em Larzac, na Occitânia – no centro-sul do país.

O  Larzac e a ecologia (1)

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por Walnice Nogueira Galvão

Em 1971, o governo francês declarou que pretendia ampliar um campo militar de treinamento, localizado num trecho do platô de Larzac, na Occitânia – no centro-sul do país. A comunicação, televisionada, acrescentava que o perímetro era quase um deserto, terras estéreis e pedregosas onde, num ambiente “medievalesco”, alguns poucos pastores ainda criavam um punhado de carneiros.

Foi uma bomba para as 107 famílias de proprietários de pequenos lotes de terra,  especialistas na criação de animais de raça, fornecedores de leite para o afamado queijo Roquefort, fabricado na cidade de mesmo nome, ali perto. Católicos e conservadores,  não tinham noção de política, nem de longe. O máximo que faziam em matéria de política era votar nas eleições, e na direita, é claro. Aprenderão tudo na luta, como veremos.

O primeiro passo foi reunirem-se e decidir que ninguém sairia dali, ninguém venderia suas terras, ninguém aceitaria a desapropriação. E ninguém pegaria em armas para resistir, porque a tanto não eram inclinados, não tinham índole nem tradição de violência.

Mas naquele canto isolado do país, não havia repercussão dos acontecimentos. E resolveram fazer uma passeata de tratores até uma cidade próxima. Aí devagar foi-se espalhando a novidade.

Para espanto deles, começaram a afluir aliados. Corria o ano de 1972, portanto apenas quatro anos depois do Maio de 68, que pusera o país em pé de guerra. Seu rescaldo libertário dirigiu-se ao Larzac, para ajudar. Foram chegando os maoístas, os não-violentos (os camponeses ouviram falar em Gandhi pela primeira vez, e se identificaram com suas ideias), os objetores de consciência (fortes na França: você se recusa a prestar serviço militar e em troca cumpre outra tarefa), os pacifistas, os operários da LIP em autogestão, as feministas da segunda onda em ascensão, os anarquistas, os adeptos da desobediência civil, os hippies … O levante de Maio fora estrangulado, mas a chama se reacendera no Larzac.  E todos começaram a trabalhar na lida do campo. Era preciso fazer comida para toda aquela gente, lavar roupa, acomodar os sacos de dormir, cuidar das crianças, e assim por diante. Nas reminiscências, ocupa lugar privilegiado o espetáculo dos sacos de dormir coloridos emergindo da bruma matinal, sarapintando as terras a perder de vista.

Era verão, e para alegre escândalo dos camponeses, os adventícios tiraram a roupa e ficaram de sunga para trabalhar – o que era lógico, já que suavam em bicas, mas algo nunca visto por ali. Assim como nunca tinham visto homem de cabelo comprido.

E o movimento foi crescendo. A certa altura, foi necessário criar comitês em várias localidades – e foi assim que José Bové foi parar lá, vindo de outra região. As ações se multiplicaram e expandiram seu âmbito.

E a repressão não fazia nada? Ora, ora… Começou por comprar os terrenos em volta, ao que os camponeses contra-atacaram comprando outros também. Os militares ocuparam uma grande casa vazia, dando assim uma boa ideia aos insurretos, que ocuparam outras casas vazias. Gente não faltava para as ocupações.

Resolveram ir a Paris, pois só assim, pensavam, ficariam mais conhecidos e granjeariam apoio. E escolheram o Campo de Marte, debaixo da Torre Eiffel. Foram a pé (700 km!) e até levaram, em certa ocasião, seus tratores e seus rebanhos. Acamparam embaixo da torre, acenderam fogueirinhas e receberam os repórteres, até que foram expulsos pela polícia.

A certa altura, houve um comício para multidões no Larzac – por essa época, a um comício no Larzac acorriam 50 mil pessoas. Nesse lance, apareceu François Mitterrand, que era secretário do Partido Socialista. Começaram a atirar pedras nele, que foi subtraído às pressas. Os camponeses reconheceram num dos apedrejadores um policial que já tinha aparecido em outros atos da repressão no Larzac. Um helicóptero sem identificação sobrevoava. Mas os camponeses tinham aprendido a interferir nas transmissões da polícia e ouviram quando dos ares vieram as ordens para retirar do solo os vinte agentes provocadores, tiras infiltrados que já tinham cumprido sua missão. Não era só jogo limpo.

Walnice Nogueira Galvão é Professora Emérita da FFLCH-USP

Walnice Nogueira Galvão

Professora Emérita da FFLCH-USP

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1 Comentário
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  1. Paulo Dantas

    26 de fevereiro de 2024 1:08 pm

    Sensacional!

    Lembra a aldeia de Asterix resistindo aos EUA … ops romanos.

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