4 de junho de 2026

Meleca na catraca, por Heraldo Campos

Nos anos 70/80 do século passado, tinha uma peça de teatro que rolava no centro velho de São Paulo chamada “Tem meleca na catraca”
Bicicleta antiga Phillips, inglesa, com catraca (ou volante) original. Foto: Heraldo Campos.

Meleca na catraca

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por Heraldo Campos

Aos setentinha, confesso que minha memória começa a ratear. Mas, se não estou fazendo confusão, nos anos 70/80 do século passado, tinha uma peça de teatro que rolava no centro velho de São Paulo chamada “Tem meleca na catraca”. Será que, pelo título, era uma picante peça de teatro, em pleno anos de chumbo da ditadura? Fica aqui a dúvida. Pesquisando na internet, com esse engraçado e sugestivo título, que pego carona, em parte, para dar nome ao presente texto, não foi encontrada qualquer referência sobre essa peça ou espetáculo teatral, lembrando que nesse período a informação era divulgada em cartazes de papel, pregados em postes e nas paredes das calçadas públicas. 

Assim, a partir desses cacos de memória e da frase atribuída ao famoso físico, Albert Einstein, que “A vida é igual a andar de bicicleta. Para manter o equilíbrio é preciso se manter em movimento.”, aqui vão ser expostas três colocações.

A primeira é que uma bicicleta boa, para pedalar e rodar, tem que estar com a corrente e as catracas bem limpas e, de preferência, bem azeitadas. Se tiverem com meleca, cheia de areia e de outros resíduos urbanos, o desprendimento da corrente da bicicleta pode ocorrer. Um tombo é quase certo e os danos físicos são proporcionais.

A segunda é que, diferentemente dos cuidados necessários com a engrenagem de uma bicicleta, na vida temos algumas outras melecas que aparecem e temos que resolver. A água é um direito da população e um precioso recurso hídrico que deve ter boa qualidade para as necessidades dos humanos e de todos os seres vivos. Segundo dados recentes do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), o número de domicílios brasileiros com acesso à rede de coleta de esgoto melhorou, alcançando 62,5% em 2022, aumentando 18,1% em relação a 2000. Porém, falta bastante, ainda, alcançar uma meta razoável no saneamento básico, porque cerca de um terço da população brasileira continua dasassistida. A esse triste cenário, acrescenta-se, lamentavelmente, a dificuldade de se acabar com o garimpo ilegal e criminoso de ouro na Amazônia, que contamina os solos e os rios com o mercúrio na manipulação do vil metal, abalando, sensivelmente, a saúde dos povos indígenas e das populações ribeirinhas que ali vivem desde o descobrimento do Brasil.

A terceira colocação está no campo da catraca que move a política no nosso dia a dia e que precisamos ficar atentos. A juntação de gente na Avenida Paulista, em São Paulo, no dia 25/02/2024, pode ser muito bem um sinal de que se quer colocar meleca, mais uma vez, na democracia brasileira, como em outros tenebrosos tempos. Ressalta-se que o anfitrião dessa aglomeração adestrada, conhecidamente, nunca foi muito simpático e chegado a esse sistema de governo. Registros históricos existem e não são poucos. Não podemos ficar parados.

“A democracia não pretende criar santos, mas fazer justiça.” (Paulo Freire).

Heraldo Campos é geólogo (Instituto de Geociências e Ciências Exatas da UNESP, 1976), mestre em Geologia Geral e de Aplicação e doutor em Ciências (Instituto de Geociências da USP, 1987 e 1993) e pós-doutor em hidrogeologia (Universidad Politécnica de Cataluña e Escola de Engenharia de São Carlos da USP, 2000 e 2010).

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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1 Comentário
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  1. Antonio Carlos

    10 de março de 2024 4:21 pm

    Muito boa s crônica. Parabéns.

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