Paul Krugman, em seu último artigo no NY Times, se aventurou na especulação sobre as semelhanças entre o desempenho recente da economia norte-americana e o ocorrido ao final da década de 1990.
Desemprego baixo, inflação voltando ao centro da meta, taxas de juros elevadas, expansão dos investimentos e crescimento populacional são as marcas que, segundo o nobelizado Krugman, assemelham os dois períodos. Sua dúvida gira em torno da expansão dos canais de poupança da economia. Há 25 anos, a bolha dotcom absorveu o “excesso de investimentos” da economia. Hoje, o prolongado inverno da política monetária do Federal Reserve tem freado o desempenho do mercado de capitais.
O economista adverte que as forças instaladas pela aceleração dos investimentos e pela resiliência do nível de empregos “criaram uma forte demanda por fundos investíveis e, embora as decisões do FED impulsionem as taxas de juros no curto prazo, no longo prazo o que importa é a oferta e demanda por poupança”. Quer dizer: muita gente querendo pegar dinheiro emprestado e pouco crédito na praça deveriam explicar a persistência dos juros historicamente elevados.
Os amantes da dobradinha poupança-investimento alertam: na falta de um, o outro não funciona. O curioso é a explicação para o descompasso entre poupança e investimento:
“A demografia fraca era uma parte importante do argumento para as baixas taxas de juros antes da pandemia. A fertilidade ainda é baixa e está caindo, mas os Estados Unidos estão passando por um aumento na imigração que, se continuar, transformará a perspectiva demográfica.
A demanda por investimentos também está mais forte do que o esperado. O investimento residencial tem se mantido muito melhor do que se poderia esperar, dadas as altas taxas de juros, possivelmente porque o aumento do trabalho em casa levou a uma demanda por mais casas para trabalhar.
Algumas formas de investimento empresarial também aumentaram muito, e não necessariamente as que você imagina. A I.A. ‘tem o potencial de impactar significativamente os fatores macroeconômicos’, de acordo com, sim, o Chat GPT.”
Nesta versão dos fatos, mais gente na economia significa mais oferta de trabalho, mais casas para serem construídas e maior demanda por investimentos. O mercado de trabalho aquecido pressiona os salários e dificulta a queda da inflação. O maior volume de investimentos, quando não acompanhado por elevação da poupança, pressiona para cima as taxas de juros.
A renda nominal crescente é consumida pela inflação, o que impede o crescimento da poupança. O Federal Reserve é obrigado a manter o ritmo contracionista, imaginando frear o consumo e os investimentos.
Devemos atenção à dependência do argumento em relação aos aspectos demográficos, ou melhor à “fertilidade”.
Thomas Malthus publicou seus Ensaios Sobre a População em 1798. No capítulo 2 desse famoso livro, o Bispo se propôs a investigar a constatação de que “a população, quando não controlada, cresce numa progressão geométrica, e os meios de subsistência numa progressão aritmética”.
Malthus estava interessado em determinar a lei que governava essa estranha relação matemática: a partir de certo limite, a produção não poderia acompanhar o crescimento da população, causando piora das condições de vida. Ou seja: quanto mais gente para alimentar, trabalhar, morar, piores serão as condições gerais de alimentação, moradia e trabalho para um determinado ritmo de expansão dos meios de subsistência.
Não é difícil imaginar uma implicação moral: quanto mais propensa ao vício da reprodução, mais miserável a sociedade. Se, ao contrário, as pessoas se guiarem pela razão e pela virtude, coibindo seus desejos para preservar os padrões de vida, mais rica a sociedade se torna a partir do avanço da produção.
Na sociedade pobre e imoral, as doenças e a violência derivadas da pobreza se encarregariam de reduzir a população a um nível coerente com os meios de subsistência. Na sociedade rica e abstêmia, a fartura levaria ao aumento populacional em ritmo acelerado, piorando as condições de vida. Nas duas sociedades, os salários permaneceriam no nível de subsistência, aquele suficiente para viver de forma frugal e moderada.
A Lei da População de Malthus influenciou decisivamente os economistas e sua ciência. A ciência econômica é capaz de admitir que pessoas vivendo ou nascendo mais é algo ruim para o desempenho das contas públicas, da inflação e dos negócios privados. O remédio recomendado sempre é a contenção dos gastos do governo ou o aumento dos juros. Caso contrário, a natureza se encarrega de ajustar as coisas.
Krugman parece partilhar dessa visão, mesmo sem perceber.
No Brasil, onde tolices parecidas habitam diariamente os jornais e o discurso econômico, discutimos a questão da previdência. O discurso se repete: “pessoas vivendo mais e recebendo aposentadorias corrigidas pelo salário mínimo é ruim para a economia. Os juros continuam altos porque a previdência pressiona o orçamento e gera dívida”.
Não seria inconveniente repetir: o gasto preexiste à formação da renda e o investimento preexiste à poupança. A poupança é o resultado entre a renda criada e o gasto realizado. Imaginar que mais desemprego é capaz de equilibrar as coisas, é o mesmo que fazer um gol contra esperando uma alteração positiva do placar.
Talvez fosse prudente que, ao invés de campanhas contra a revisão da meta fiscal, nossos economistas se empenhassem na campanha por métodos contraceptivos. Suspeito que isso seria ruim para os negócios: os economistas que patrocinam o desemprego como solução para os juros altos ficariam sem emprego se a vasectomia virasse moda!
Nathan Caixeta – Graduado em Economia pela Facamp, Mestre em Desenvolvimento Econômico pela Unicamp e coautor do livro “Crônicas Antieconômicas”.
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