Há duas diferenças fundamentais entre os governos Lula 1, Lula 2 e Lula 3.
- Apesar da crise energética, da crise cambial e outros desacertos do governo FHC, a máquina pública estava razoavelmente intacta. Agora, não. Desde Michel Temer, passando por Bolsonaro, o Estado brasileiro foi amplamente desorganizado. Aliás, em uma das reuniões presidenciais, Lula admitia a Aluizio Mercadante o fato de insistirem em terem recebido um governo destroçado de FHC (o que não era fato) e de pouco falarem sobre o Estado efetivamente destroçado por Bolsonaro.
- Com os ministérios razoavelmente operando, com os belíssimos avanços proporcionados pelo fortalecimento da ENAP (Escola Nacional de Administração Pública), Lula ficou à vontade com seu estilo preileto de gestão: administrar conflitos e decisões. Nas reuniões ministeriais, cada Ministro contava o que vinha fazendo. Lula selecionava os projetos que considerava mais promissores e envolvia outros ministérios auxiliando o principal. O estilo só mudou na crise de 2008-2010, quando constituiu um grupo de trabalho que foi essencial para a espetacular vitória sobre a crise.
Agora, tem-se um quadro totalmente distinto:
- A máquina pública está arrebentada.
- Há uma oportunidade enorme de montar políticas eficientes de desenvolvimento, articulando vários setores. Mas, para tal, Lula teria que abrir mão do personalismo e aceitar a constituições de Grupos de Trabalho, definindo os passos e as metas, e subordinado diretamente a ele.
Apesar da palavra final continuar sendo a dele, o modelo de Grupo de Trabalho só foi acionado na batalha épica de enfrentamento da crise.
Agora, a situação é totalmente diversa:
- Tem-se um setor público destroçado. Esses idiotas da objetividade, que defendem um “bolsonarismo light”, são incapazes de analisar o que significa esse estilo na gestão pública, o que significa desmontar a Saúde, as políticas sociais, a regulação dos serviços públicos. O liberalismo brasileiro ficou do nível das análises inacreditáveis de um Joel Pinheiro da Fonseca e de um Helio Beltrão Filho. Diria que a grande crise institucional brasileiro é a do liberalismo, incapaz de se sobrepor ao terraplanismo de seus porta-vozes mais estridentes.
- O país vive um processo de mudanças estruturais, e não mais incrementais como em Lula 1 e 2.
É um período – no mundo – similar ao período do segundo governo Vargas, governo JK e Jango. O mundo saía da Segunda Guerra, o conceito de planejamento do desenvolvimento se impunha (como herança do próprio planejamento para a guerra), havia uma realocação da indústria europeia, uma reorganização do comércio mundial.
Agora, tem-se a transição energética, a mudança nas redes globais de insumos, a revolução dos semicondutores, o papel das terras raras, os movimentos geopolíticos da China.
Forma-se um quadro de enorme complexidade, que não depende de cada ministério isoladamente, mas da articulação das diversas instâncias de governo.
Tome-se um caso, o da Transição Energética. A quantidade de setores e subsetores envolvidos é enorme.

Envolve estímulos fiscais e monetários (sob responsabilidade da Fazenda), reaparelhamento de setores do Estado (Planejamento), atuação dos órgãos de regulação, representações da indústria, comércio, cooperativismo e agricultura familiar, bancos públicos, Petrobras.
Dias atrás, dei um exemplo simples da cadeia produtiva dos medicamentos. A meta é produzir internamente 70% dos medicamentos consumidos. Todos os medicamentos precisam ser aprovados pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária). Mas ela está com uma fila de medicamentos que correspondem a um faturamento anual de 17 bilhões de reais. Por que a fila? Porque desde 2013 não é realizado concurso público para preenchimento de vaga. E quem é responsável por isso? Certamente não é a Saúde, que não pode abrir concursos sem a aprovação do Ministério da Gestão, que nada pode fazer sem o aval do Ministério do Planejamento, que precisa da aprovação do Ministério da Fazenda. Dá para entender? E é dos casos mais simples.
Por isso, a única maneira de efetivamente aproveitar o momento e conseguir definir uma bandeira de alcance nacional – tirando a discussão dessa ideia fixa de déficit zero e trazendo para um projeto de país – é juntar todas essas instituições em um Grupo de Trabalho, presidido preferencialmente pelo Ministro da Fazenda, e respondendo diretamente ao presidente da República.
A última palavra sempre será de Lula. Só que em cima de projetos estruturados, mobilizadores.
Sem essa mudança, a Neoindustrialização será apenas uma belíssima ideia desperdiçada.
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DOUGLAS BARRETO DA MATA
6 de maio de 2024 7:48 amNassif, seu sincero esforço é comovente.
Mas eu penso que inútil.
Não se saltam etapas do processo histórico de desenvolvimento econômico, nem se subverte a divisão internacional de tarefas no capitalismo, sem uma ruptura muito drástica (guerras ou conflitos internos, como EUA 1865), ou com intervenções externas profundas, como o Plano Marshall na Europa, devido a guerra fria ou na Ásia, no Japão e Coréias, por causa da China.
Não vamos pular para a revolução digital sem termos ultrapassado as etapas da revolução industrial.
Não há acúmulo de capital nem poupança interna.
O capital externo disponível é abutre, chacal ou hiena, ou outro bicho carniceiro.
Não há coragem para sequer tentarmos.
E para tentarmos, tem que tributar os mega ricos e emitir moeda para desvalorizar as taxas de arbitragem dos fundos, fazendo com que ofereçam liquidez em preços menos extorsivos.
Mesmo assim, para tocar esse projeto sem FFAA forte e leal ao poder civil, e um projeto nuclear de convencimento(contenção), nada feito.
Boa segunda..
Anônimo
11 de maio de 2024 2:46 pmAnálise ruim. Confusa.
Fábio de Oliveira Ribeiro
6 de maio de 2024 8:44 amImagino que Lula está esperando algo catastrófico ocorrer na arena internacional para retomar a luta contra o neoliberalismo. Todavia, ao fazer isso ele colocou a cabeça dele entre o cesto e a lâmina da guilhotina. A paciência das vítimas da especulação financeira já terminou.
Carlos Xavier
6 de maio de 2024 1:28 pmFábio, o PT virou um partido de culto a personalidade de Lula, não se renovou e não há nas fileiras do partido um nome forte para disputar cargos do executivo.
A mesma militância que cobra da população apoio é a mesma que zomba de trabalhadores precarizados e tem preconceito (a palavra certa seria NOJO) em ir às favelas para fazer trabalho de base – esses espaços foram tomados pelos neopentecostais e CEO de MEI – este último um grupo resultante frustrado das políticas de financiamento (FIES) sem a contrapartida da geração de empregos prometida.
Me decepcionei muito com esse partido que envelheceu de maneira triste, não aprendeu com os erros e trata de maneira virulenta às críticas que recebem de simpatizantes e ficam subservientes ao Arcabouço Fiscal do Haddad.
Lula com essa política de discursar para os convertidos, cada dia mais queima o seu capital político ao fechar os olhos para a classe média e no final vai se tornar uma sombra de si mesmo.
Leandro
6 de maio de 2024 9:37 am“Eu não daria nada por nenhum mortal que se consolasse com vãs esperanças” (Ajax – Sófocles).
Luiz Fernando Juncal Gomes
6 de maio de 2024 7:09 pmForte Odor
Não é de hoje que do governo Lula 3 exala um fortíssimo cheiro de Dilma 2.
fabricio coyote
6 de maio de 2024 9:33 pmO Rio Grande do Sul é umbilicalmente ligado ao Brasil: de Getúlio Vargas, Jango a Brizola gaúchos que garantiram e lutaram pela Soberania Nacional, pelo Povo Brasileiro e pela Democracia. O elã de nossa gente cordial é a nossa solidariedade, capaz de pôr em suspenso noss@s diferenças. Enquanto isso o partido dos trabalhadores aposta em … indústria automobilística, como se esses eventos climáticos extremos não tivessem ligação com a organização do transporte público, mediante a construção de um sistema ferroviário que evite a expansão de rodovias que usam de asfalto que impermeabilizam a absorção da água pelo solo e criam uma bolha de calor que bloqueia o ajuntamento de nuvens. Também aí a adoção de teletrabalho. P.S.: espera-se que banqueiros doem seus lucros, os marinho seus dividendos, e a CBF algo mais de que um minuto de silêncio.
Luiz Pontes
7 de maio de 2024 4:32 amLula não está a vontade nesse governo. Sem congresso, sem banco central e com o país dividido lula é um leão q rufe dentro da jaula, mas não e ouvido. Haddad uma vez disse w lula não queria mais ser presidente, qdo foi convidado a retornar depois do primeiro governo de Dilma. No entanto, as circunstâncias o fizeram retornar para por ordem na casa. Lula e um homem fira do seu tempo e lugar e aceitou a tarefa difícil de ser, hoje, uma rainha da Inglaterra. A impressão q se tem é q ele aguarda o fim de seu mandato, ansiando o descanso merecido, depois de anos de massacre em cima dele e de sua família. Lula tem e teve seus méritos, mas e preciso q ele aponte um sucessor a sua altura