Atualmente, 20% das calorias dos alimentos vêm de produtos ultraprocessados no Brasil. A situação, se comparada aos Estados Unidos, cujo índice é de 60%, não é tão crítica. Porém, a má alimentação tem diversos efeitos econômicos: cerca de 57 mil brasileiros no auge da vida produtiva morrem prematuramente todos os anos.
De acordo com Eduardo Nilson, pesquisador da Fiocruz Brasília e do NUPENS/USP, o consumo de produtos ultraprocessados gera obesidade que, se nada for feito, vai custar o equivalente a 3% do Produto Interno Bruto até 2060 e hoje exige R$ 1,5 bilhão em gastos com o Sistema Único de Saúde.
Para discutir o poder da indústria alimentícia e o peso dos ultraprocessados, o programa Nova Economia da última quinta-feira (9) contou com a participação também do cofundador do site O Joio e o Trigo, João Peres, e da pesquisadora da Faculdade de Saúde Pública da USP, Giorgia Russo.
O Guia alimentar para a população brasileira, produzido pelo Ministério da Saúde, classifica os alimentos em quatro categorias.
- Alimentos ultraprocessados: formulações industriais prontas para consumo;
- Alimentos processados: alimentos in natura ou minimamente processados e ingredientes culinários;
- Alimentos minimamente processados: in natura que, antes de sua aquisição, foram submetidos a alterações mínimas;
- Alimentos in natura: obtidos diretamente de plantas ou de animais.
“Apesar da classificação nova, tivemos só recentemente um decreto presidencial que de fato menciona as quatro categorias para estabelecer uma política muito importante que é a cesta básica de alimentos”, comenta Nilson.
Crianças
Eduardo Nilson comenta ainda que a classificação partiu da preocupação com o público infantil, tendo em vista o acesso das crianças aos ultraprocessados, como fórmulas que substituem o leite materno.
Nilson acrescenta que, apesar da recomendação de oferecer exclusivamente o leite materno nos primeiros seis meses de vida da criança e oferecer outros alimentos em paralelo até os dois anos, pesquisas apontam que 80% dos menores de cinco anos consomem alimentos ultraprocessados.
Especialista em alimentação escolar, Giorgia Russo afirma que a população mais vulnerabilizada está mais exposta a alimentos ultraprocessados, principalmente nas periferias das grandes cidades, onde o acesso a alimentos in natura costuma ser mais restrito, “expondo a população e o efeito desse ambiente na formação de hábito alimentar é muito forte”.
“É uma dupla carga de má alimentação expor a população a um alimento que não vai nutrir adequadamente, mas vai levar ao sobrepeso e obesidade”, resume Giorgia.
Colonização alimentar
João Peres, cofundador do site O Joio e o Trigo, relembra uma das matérias mais acessadas do site, que foi a releitura dos doces brasileiros feita pela Nestlé, nos anos 1960, a fim de introduzir o leite condensado na cultura nacional a partir da criação de uma “relação de afeto” com as donas de casa.
Como resultado, hoje o Brasil é o maior consumidor de leite condensado do mundo e teve grande influência sobre o público infantil.
“A gente observa por exemplo alimentação escolar nasce com a doação internacional de alimentos e super formulados para ser distribuído a qualquer custo com aquele intuito de encher a barriga a qualquer custo, sem se preocupar com a adequação daquilo. O Brasil começa a conquistar várias indústrias de alimentos formulados para atender essa demanda das escolas”, explica Giorgia Russo.
Outros dois produtos introduzidos na cultura alimentar brasileira foi o trigo, em substituição da mandioca e do milho, graças ao financiamento de padarias em todas as regiões do país, e leite.
“Essa colonização do nosso padrão alimentar que do ponto de vista originário e nutritivo é super equilibrado e nutritivo, equilibrado para o nosso corpo, equilibrado para o nosso meio ambiente, vai sendo deturpado com essas estratégias”, conclui a pesquisadora.
Confira a entrevista completa em:
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