De onde vêm as superstições?
por Fernando Dias de Avila-Pires
Por que o leitor decidiu ler este artigo? Por simples curiosidade.
Todos nós temos curiosidade em saber o que nos aguarda o futuro: a próxima refeição, uma promoção na empresa, a subida ou a queda de nossos investimentos financeiros, uma viagem, a morte.
Crianças são naturalmente curiosas e a frase mais ouvida é:
– Por que mamãe?
As perguntas se sucedem até se tornarem irritantes – ou incômodas por não saber como responder. Em Plebiscito, conto de Artur de Azevedo (1855-1908), o pai é surpreendido pelo filho durante o jantar com uma questão cuja resposta ignora ou é incômoda. Maliciosamente, recorre ao subterfúgio de questionar a mãe pela ignorância do filho; deixa a sala com raiva e se refugia no escritório, onde encontra o que mais precisa: a paz – e um dicionário.
As respostas clássicas, do tipo Um dia você vai entender, não costumam deixar as crianças satisfeitas. Explicações míticas ou fantasiosas, do tipo Papai do céu está vendo tudo o que você faz, terminam por anestesiar a curiosidade natural. No colégio e na faculdade, os professores exigem respostas pré-programadas – extraídas das aulas, de algum manual ou, pior ainda, de apostilas escritas por eles e que jamais seriam aceitas por algum editor sério.
Na idade adulta, diante de uma notícia de impacto, como um diagnóstico de câncer, surge de pronto a questão: Por que eu? O que foi que eu fiz?
Na antiguidade, a causa das enfermidades era atribuída aos deuses – digo: uma espécie de castigo imposto pelos deuses. Na Roma antiga, a sensação de culpa ou de pecado exigia doações aos deuses do Olimpo; na igreja católica, temos os sacramentos da confissão e da penitência. Na Bíblia, lemos (João 9: 1-2): “Caminhando Jesus, viu um homem cego de nascença. E os Seus discípulos perguntaram: Mestre, quem pecou, este ou seus pais, para que nascesse cego? Os hebreus também acreditavam que os sofrimentos desta vida eram castigos divinos pelo pecado.
Saltemos agora para a literatura contemporânea.
Na novela Meanwhile (1927), H. G. Wells (1866-1946) ressaltou o papel da curiosidade como fator importante na pesquisa científica:
– O câncer será banido por pesquisadores persistentes, trabalhando em hospitais e laboratórios. E o motivo da conquista do câncer não será a piedade nem o horror: terá sido a curiosidade de saber como e por quê.
– E o desejo de servir – disse Lord Tomar.
– Como justificativa daquela curiosidade mas não o motivo. Piedade nunca produziu um bom doutor, o amor nunca produziu um bom poeta, o desejo de prestar um serviço nunca produziu uma descoberta.
CORRELAÇÕES
Associações de eventos fazem parte de nossa cultura e de nosso conhecimento do mundo. É parte intrínseca do nosso modo de ver e classificar os elementos ao nosso entorno.
São mecanismos inatos ou que se desenvolvem ao longo da infância e que, por suposto, teriam tido efeitos positivos na sobrevivência de nossos ancestrais. O escuro da noite, que favorece a ação dos animais predadores e nos assombra desde a infância; os sinais meteorológicos que precedem certos desastres naturais e que nós, observando outros animais, aprendemos a interpretar. Ruídos à noite em casa, por exemplo, nos põem de sobreaviso.
O trauma causado ao presenciarmos um acidente aéreo pode condicionar o medo de voar. A simples vista de um avião pode despertar o trauma. O medo de altura pode ser despertado pela antecipação de um episódio de um filme assistido na segurança de uma poltrona.
O russo Ivan Pavlov (1849-1936) formulou o conceito de reflexo condicionado, segundo o qual é possível induzir respostas comportamentais substituindo o estímulo original por um estímulo substituto. Por exemplo, induzir a salivação em cães tocando uma sineta (estímulo substituto) pouco antes de servir a ração (estímulo original).
É importante saber que associação entre um suposto estímulo e uma aparente resposta pode ser causal, ou espúria e não causal. Esta falsa associação ocorre mais comumente do que se pensa.
Um suposto estímulo é dito necessário se o desfecho não pode acontecer em sua ausência. Por exemplo, a tuberculose resulta de uma infecção por Mycobacterium. Mas a presença da bactéria não é condição suficiente, pois a infecção pode permanecer subclínica ou inaparente, sem provocar doença.
Diz-se que um estímulo é suficiente quando a presença dele inevitavelmente produz ou inicia um desfecho, embora não seja necessária. Armas de fogo, por exemplo, são suficientes para provocar ferimentos ou mortes, mas facas e outros artefatos também o são.
Por fim, há fatores ques são necessários e suficientes. A trisomia do cromossomo 21 seria um exemplo – a presença de três cópias daquele cromossomo, em vez de duas, inevitavelmente leva à chamada sindrome de Down.
Um dos casos mais notórios das falsas associações ocorre com o uso de medicamentos por conta própria e nasce da ideia de que há uma relação direta e positiva entre o uso daquele medicamento e a cura de uma doença. Daí se buscar receitas com amigos e vizinhos, ou nas propagandas da TV.
As causas da aparente ‘cura’ são várias, sendo a mais comum o erro no diagnóstico inicial. Além disso, um grande número das doenças tem cura espontânea. Costuma-se dizer que uma gripe se cura espontaneamente em uma semana e em sete dias, se medicada.
O conto O colecionador de coincidências, de Malba Tahan (pseudônimo do matemático e professor brasileiro Júlio César de Mello e Souza [1895-1974]), ilustra bem a questão das falsas associações.
A BUSCA DAS CAUSAS
Nas aulas de epidemiologia, costuma-se apresentar a seguinte questão:
Um determinado evento ocorreu 4 horas após uma refeição. Qual pode ter sido a causa?
A resposta é que tudo o que ocorre com alguém acontece cerca de 4 horas após uma refeição. A associação com a refeição é, portanto, enganosa.
A sequência imaginária da situação descrita a seguir nos ajuda a compreender melhor essa confusão que envolve o conceito de causa.
Um homem sai de casa apressado; briga com a mulher, que queria lher servir um desjejum completo; esquece as chaves, o que o faz perder ainda mais tempo; atravessa a rua com o sinal vermelho, é atropelado e morre.
Para o guarda de trânsito que atendeu a chamada, a causa da fatalidade foi a desobediência às regras de trânsito, afinal o sujeito não respeitou o sinal fechado.
Para o médico legista que examinou o corpo, a causa da morte foi traumatismo craniano com perda de massa encefálica.
Para uma ex-vizinha do falecido, a causa foi aquela megera que vivia atazanando a vida do marido.
E assim por diante, cada qual seguro de sua visão parcial, confundindo ainda fenômenos que ocorrem em distintos níveis de complexidade: celular, individual, social.
SUPERSTIÇÕES
Neste artigo foi minha intenção definir o fenômeno das correlações supersticiosas, que constituem correlações falsas, mas ligadas por uma interferência mágica.
Essas correlações nascem do fato de atribuirmos relação de causa (próxima ou distante) e efeito a meras sucessões temporais de eventos independentes – por exemplo, encontrar um gato preto ou passar debaixo de uma escada e sofrer um acidente. A correlação entre o gato ou a escada e o acidente é fortuita ou espúria.
Superstições constituem sistemas de pensamento que são transmitidos de uma geração a outra sem serem submetidos a testes de verificação.
No caso das superstições, não se trata de uma simples correlação falsa, mas do fato de que delas surge uma interferência mágica que as conecta.
Considere o caso da homeopatia. Ali a mágica decorre da crença de que agitar uma determinada solução algumas vezes (o número exato é variável), combinada com a dinamização ou diluição sucessiva de uma substância de origem vegetal, animal ou mineral em água, álcool ou sacarose liberaria uma energia responsável pela ação curativa. Ocorre que essa suposta energia não pode ser medida ou detectada em laboratório e nenhuma molécula da substância original (tintura mãe) pode ser encontrada no hipotético medicamento.

“Aqui acontece um milagre”
Sydney Harris, Research Gate
DE ONDE VÊM ESSAS CRENÇAS?
No Tratado único da constituição pestilencial de Pernambuco (1694), de João Ferreira da Rosa, justificou seu trabalho dizendo que::
Persuadindo-se que era um absurdo fantástico o método novamente proposto… fez um Tratadinho para evitar aos pseudo-médicos de usar a sua falta de prática e raciocínio falho, causando com isso algumas mortes, e para oferecer-lhes, neste pequeno volume, conselhos e remédios apropriados, tirados não dos Empíricos, mas dos Metódicos e Racionais.
Em 1882, ao analisar o ensino no Brasil, Rui Barbosa (1849-1923) reconheceu que:
O vício essencial entre nós é que o pouco da ciência que se ensina segue métodos que levam a decorar e repetir e nunca a desenvolver a capacidade de pensar e analisar. Estas faculdades vão produzir, então, doutores incapazes de ver a natureza presente, mas capazes de sustentar, com todas as pompas da oratória, as hipóteses mais inverificáveis sobre a existência do incognoscível.
Uma enorme parcela da população brasileira abandona a escola sem sequer completar o ensino fundamental (leia-se: o antigo Primeiro Grau). Além disso, uma parcela expressiva dos que completam o ensino universitário tem graves defeitos em sua formação acadêmica. Não estranha descobrir então que para milhões de brasileiros a escolha de métodos de tratamento para problemas de saúde está ancorada em questões de fé, tradição familiar ou em propagandas na TV. Essas escolhas pouco ou nada têm a ver com o exame criterioso dos fatos. Ao contrário, dá-se ênfase a correlações apressadas e não comprovadas entre ação e cura; correlações que são reforçadas pela memória seletiva, que guarda as ocasiões de aparente sucesso e esquece os insucessos.
Em 2023, o casal Natalia Pasternak e Carlos Orsi publicou Que bobagem! – Pseudociências e outros absurdos que não merecem ser levados a sério.
Desabonaram as crendices uma por uma.
Em artigos que publiquei anteriormente eu chamei a atenção para o fato de que superstição não é um conjunto de crenças independentes. Trata-se do resultado de um sistema de pensamento, no sentido piagetiano, não sendo suficiente desacreditá-las uma por uma, como se fossem independentes.
O primeiro fato que se torna evidente quando se analisam as razões que conduzem à escolha de um sistema médico-terapêutico – em geral sincrético – é a ausência de critérios explícitos e de justificativas racionais para as escolhas. É generalizado o desconhecimento dos fundamentos das práticas em que se acredita, como a acupuntura, fitoterapia, cromoterapia e homeopatia, esta última oficialmente regulamentada e vista por boa parte da população como uma alternativa séria e consistente à alopatia. Na maioria dos casos, a escolha não se baseia na avaliação crítica da coerência e validade dos princípios adotados por essas práticas.
Argumentos de ocasião, como a antiguidade da prática, não se justificam como critérios de validação.
Chineses, hindus e outros povos desenvolveram também códigos e sistemas judiciários e acumularam conhecimento prático de engenharia e arquitetura. Por que não se pensa em utilizar os mesmos argumentos, como o barateamento de custos, o acesso de todos e a simplificação dos procedimentos, instituindo-se tribunais de justiça alternativa ou técnicas de engenharia e arquitetura alternativas?
O ‘saber tradicional’ é empírico, na concepção literal do termo. O conhecimento milenar, por sua vez, pode ser cumulativo ou imutável. A antiguidade por si só não é um critério válido, não no sentido de tornar o procedimento em questão necessariamente eficaz. A antiguidade apenas atesta a longa sobrevivência das crendices.
Em 1965, Margaret Kreig (1922-1998) publicou um livro científico sobre plantas medicinais. Até o início do século 20, os medicamentos disponíveis eram extratos de plantas em solução alcoólica.
A busca de informações em etiquetas de exsicatas de plantas em coleções botânicas se revelou um empreendimento valioso. As etiquetas costumam vir acompanhadas de notas do coletor sobre eventuais usos medicinais por parte da população local. O tipo de informação que permitiu que vários laboratórios se envolvessem em pesquisas para isolar os princípios ativos presentes naquelas plantas. Isolado o princípio, Assim, a partir de plantas selecionadas do folclore nativo, surgiram moléculas de ação medicinal comprovada, moléculas que foram posteriormente sintetizadas em grandes laboratórios farmacêuticos com alto grau de pureza.
A fundamentação teórica é o que distingue diferentes sistemas, e não as práticas. Fórmulas químicas e fórmulas mágicas podem ser usadas da mesma maneira, mas diferem em seus fundamentos.
Superstição independe do nível socioeconômico e está presente em todos os segmentos da sociedade.
Resta discutir o direito de escolha dos sistemas terapêuticos do cidadão, que envolve convicções de natureza religiosa, e o grau de informação sobre ditos sistemas. Só a boa fundamentação permitirá uma escolha racional.
A quem recorrer?
Umberto Eco nos precaveu ao dizer que:
Os livros não são feitos para alguém acredite neles, mas para serem submetidos à investigação. Quando consideramos um livro, não devemos perguntar o que diz, mas o que significa.
E questionar não se aprende na escola…
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Bibliografia citada
Avila-Pires, F.D., 2023. Superstição. GGN Grupo Gente Nova, 30 de agosto
Avila-Pires, F.D.,2023. Superstição 2. GGN Grupo Gente Nova, 31 de outubro
Galton, F. 1890. Memories of my life. Methuen, London.
Gardner, M. 1960. Manias e crendices em nome da ciência. Ibrasa, São Paulo.
Huff, D. 1954 How to lie with statistics. W W Norton, New York. [Há uma edição brasileira.]
Kreig, M. B. 1965. Green Medicine. The search for plants that heal. Rand McNally, Chicago.
Renckens, C. N. M.; SCHOEPEN, T. & BETZ, W. 2005. Beware of Quacks at the WHO: Objecting to the WHO draft report on homeopathy.Skeptical Inquirer 29 (5): 11-14.
Tahan, M. 1957. O colecionador de coincidências. Maktub, 8ª ed. Conquista, Rio de Janeiro. [Disponível aqui: https://preciosidadesliterarias.blogspot.com/2015/10/o-colecionador-de-coincidencias-malba.html.]
Pavlov, I. 1954. Oeuvres choisies. Editions en langues etrangeres, Moscou
Wells, H. G. 1927. Meanwhile. George H. Doran, New York.– [Chapter 5, p. 44.]
Agradeço a Felipe A P L Costa pela leitura e valiosas sugestões.
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André-Kees Schouten
10 de maio de 2024 8:19 amCitar um livro de divulgadores científicos como se fosse a palavra definitiva sobre as ditas “crendices” demonstra também as graves deficiências de nosso ensino universitário. O autor não fez aquilo que Umberto Eco, citado ali, recomenda se fazer com os livros: perguntar não pelo “…o que diz, mas o que significa.” A pior das crendices contemporâneas é aquela que toma a ciência (que são ciências, no plural) como sistema de pensamento superior aos demais. Coitado do Rui Barbosa…