4 de junho de 2026

Siderurgia Brasileira: quem te viu, quem te vê I, por Luiz Alberto Melchert

Minerações como as de Carajás (PA) e da Serra do Navio (AP) tomam décadas de investimento entre prospecção e montagem da planta de extração.

Siderurgia Brasileira: quem te viu, quem te vê

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por Luiz Alberto Melchert de Carvalho e Silva

Parte I- O Ferro

Nos anos 1980, o aço brasileiro estava no topo da lista de itens de importação a serem sobretaxados pelos Estados Unidos. Na verdade, o mundo de quarenta anos atrás via a explosão da aciaria brasileira com grande preocupação. A Vale do Rio Doce garantia a o fornecimento do melhor minério de ferro do mundo, juntamente com o que fosse preciso em manganês, a preços competitivos à siderurgia brasileira, principalmente constituídas por empresas estatais como a CSN, Usiminas ou Cosipa, além de outras privadas como Gerdau. Tudo isso graças a um investimento centralmente planejado com vistas à industrialização do país e à substituição de exportações. Por substituição de exportações, entenda-se a intenção de ir além da internalização das importações, criando excedentes exportáveis. Esse seria o caminho para levar o Brasil para mais próximo de uma posição mais central e menos periférica no cenário econômico mundial.

Vieram os anos 1990 com as privatizações e todo setor siderúrgico e de mineração, que faziam um só bloco altamente dependente de investimentos de longo prazo passaram às mãos da iniciativa privada no que se chamou eufemisticamente de “desestatização”. Isso alterou significativamente o horizonte das inversões, trazendo-o dos vinte ou trinta anos para maturação aos cinco anos impostos pelo mercado. É inegável o crescente imediatismo imposto pela financeirização da economia ocidental. Minerações como as de Carajás (PA) e da Serra do Navio (AP) tomam várias décadas de investimento entre a prospecção e a montagem da planta de extração. São prazos que afastam o investidor privado e só acontecem ao encontrarem guarida nos anseios do Estado. Prova disso é a criação de uma infraestrutura de transportes para vencer os 893 km que separam Carajás de S. Luís (MA), de ende se exportam mais de 120 t milhões ao ano. Pela ferrovia corre o sétimo maior trem do mundo com mais de 3,5 km de extensão, ao qual são atrelados carros de passageiros para cumprir finalidade social.

A EF-315 não é a única ferrovia administrada pela Vale, a ela deve-se somar toda a malha sob a administração da VLI Multimodal S. A, herdeira da Vale Operações Ferroviárias S/A, que inclui a Ferrovia Centro-Atlântica que, entre outras linhas, contém as Ferrovia do Aço e a Ferrovia Vitória-Minas, que vão de Itabira (MG) a Sepetiba, hoje Porto de Itaguaí (RJ) e ao Porto de Tubarão (ES). Uma ferrovia como a do Aço, contendo oitenta e um túneis e 109 obras de arte, entre pontes e viadutos, jamais seria construída pela iniciativa privada, cabendo ao Estado financiar tudo, incluindo as mais de cem locomotivas e mais de quatro mil vagões.

Claro que, depois de pegar o trem andando, pagando uma passagem altamente subsidiada, o número de investimentos palatáveis ao mercado continuaram, até se multiplicaram. É que os adquirentes pagaram US$3,3 bilhões financiados pelo BNDES, por um patrimônio líquido de mais de US$100 bilhões. Cabe lembrar que os planos de negócios para atividades já em andamento têm valores muito mais baixos para taxa de risco, além de se poder contar com financiamento a taxas altamente favoráveis.

Prova disso é que a exportação brasileira de minério de ferro saltou dos 114 t milhões em 1996, quando da privatização, para 240 t milhões em 2005 atingindo o recorde em 2016, com 453 t milhões. Em 2021, em plena pandemia, as exportações brasileiras foram de 350 t milhões. Com uma produção nacional de aço ao redor das 30 t milhões, é de se supor que a produção nacional de ferro esteja ao redor de 470 t milhões.

Como nosso maior cliente para minério de ferro é a China, existe uma enorme probabilidade de o Brasil estar importando aço feito a partir do nosso próprio minério de ferro. Essa situação se agrava com o fato de, segundo dados do Instituto Aço Brasil, em 2023, o Brasil ter produzido pouco mais de 31 t milhões de aço, para uma capacidade nominal de 50 t milhões, ficando entre 38% e 35% a capacidade ociosa. Na próxima semana, o processo produtivo será esmiuçado para que algumas soluções possam ser sugeridas.

Luiz Alberto Melchert de Carvalho e Silva é economista, estudou o mestrado na PUC, pós graduou-se em Economia Internacional na International Afairs da Columbia University e é doutor em História Econômica pela Universidade de São Paulo. Depois de aposentado como professor universitário, atua como coordenador do NAPP Economia da Fundação Perseu Abramo, como colaborador em diversas publicações, além de manter-se como consultor em agronegócios. Foi reconhecido como ativista pelos direitos da pessoa com deficiência ao participar do GT de Direitos Humanos no governo de transição.

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Luiz Alberto Melchert de Carvalho e Silva

Luiz Alberto Melchert de Carvalho e Silva é economista, estudou o mestrado na PUC, pós graduou-se em Economia Internacional na International Afairs da Columbia University e é doutor em História Econômica pela USP. Aposentou-se como professor universitário, e atua como coordenador do NAPP Economia da Fundação Perseu Abramo, como colaborador em diversas publicações, além de manter-se como consultor em agronegócios. Foi reconhecido como ativista pelos direitos da pessoa com deficiência ao participar do GT de Direitos Humanos no governo de transição.

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  1. Sergio Navas

    21 de maio de 2024 3:42 pm

    Um país que almeja se industrializar,tem que elaborar regras rígidas, claras e objetivas,desde o minério de ferro até a laminação.
    Infelizmente o Brasil faz o oposto, incentivando e colaborando com a concorrência internacional.

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