22 de junho de 2026

Machado Inventado, por Jorge Alberto Benitz

Parece que tudo continua igual em tudo ao que ele percebeu e descreveu quando vivia lá no final do século XIX e início do século XX.
xr:d:DAFkHnb2HO4:53,j:3744011059306080799,t:23061900

Machado Inventado

Siga o Jornal GGN no Google e receba as principais notícias do Brasil e do Mundo

Seguir no Google

por Jorge Alberto Benitz

    Sou tentado a cogitar de um absurdo que me permito graças à liberdade que me concede a ficção.  O absurdo a que me refiro é pensar como agiria Machado de Assis diante da realidade do mundo contemporâneo. Até pensei em pedir para algum amigo espírita para que tentasse contato com ele e assim psicografasse suas impressões sobre o nosso mundo. Não levei adiante esta ideia porque me lembrei de um pensamento irônico do, se não me engano, Mário Quintana quando instado a entrar em contato com grandes poetas mortos. Disse ele que não faria isto porque o estilo, a qualidade dos textos psicografados que ele tomou conhecimento em nada acusavam sequer proximidade com o talento dos falecidos. Os textos psicografados representavam mais pastiches. Parece que lá no outro mundo o sujeito perde o talento e fica fazendo tudo meio borrado, com seus textos escritos ou suas pinturas em nada lembrando a qualidade que tinham quando no lado de cá.

    Como estou anos-luz distante do talento do Machado de Assis, resta emula-lo – há tempos queria usar este termo –imagina-lo zapeando, acabrunhado, tentando encontrar algo capaz de prender a sua atenção e de repente, se deparando em um canal de notícias com a seguinte cena:

    O jornalista- âncora de uma TV, ansioso para mostrar serviço ao patrão, pergunta a pessoa que está sendo inquirida – não sei bem se ela é uma jornalista setorista de política em Brasília ou se é uma analista politica porque não peguei a reportagem desde o começo – , qual sua opinião acerca da postura de Lula diante dos últimos acontecimentos e, em especial, diante da demissão do Presidente da Petrobrás, Jean Paul Prates,  e o medo que paira entre os rentistas – medo ilustrado pela queda das ações da empresa na Bolsa de Valores que, segundo o google, “As ações ordinárias da Petrobras (PETR3, com direito a voto) encerraram esta quarta em queda de 6,78% e as preferenc iais (PETR4, sem direito a voto) 6,04%, totalizando uma perda em valor de mercado de R$ 34 bilhões, segundo um levantamento feito pela Elos Ayta Consultoria.” – de que este decida usar parte dos lucros e dividendos em uma causa mais nobre do que continuar distribuindo quantias enormes aos beneficiários de sempre. Os contratos exigem a continuidade das distribuições de lucros e dividendos nos moldes atuais, diz a jornalista. Ah!  Os contratos feitos com mão de gato por astutos advogados com o beneplácito dos governos de orientação neoliberal de plantão, para eternizar a vida mansa dos rentistas e o resto que se lixe. Que importa para estes a necessidade de separar recursos para avançar na busca de tecnologia limpa, de comprometer parte desta grana para obras sociais e para saúde e educação. O episódio de Brumadinho mostra que a política de curto prazo onde o &ldqu o;O acionista é o Rei”, é a antessala das tragédias. Neste episódio, como a imprensa denunciou, os gestores da Vale do Rio Doce, não se constrangeram em cortas verbas de manutenção das barragens para aumentar os dividendos a serem distribuídos aos acionistas. Ressalte-se que neste modelo de gestão, ao aumentar a distribuição de dividendos, os gestores aumentam seus próprios rendimentos, seja como acionista, seja como gestor.

    Com certeza Machado de Assis, conseguiria, com seu gosto pelo miúdo, seu senso de observação único, seu humor, tirar de episódios assim, um belo conto ou uma crônica – muito superior as minhas cogitações, claro! –  daquelas que só ele conseguia fazer sobre o jeitinho peculiar do brasileiro de sempre estar a querer agradar seus patrões, de ser mais realista que o rei com seu espirito bajulador de cortesão. O espanto dele ficaria por conta de que neste quesito parece que nada mudou. Parece que tudo continua igual em tudo ao que ele percebeu e descreveu quando vivia lá no final do século XIX e início do século XX.

    Críticos de Machado de Assis, os Silvio Romeros de hoje – Romero era um crítico implacável de Machado. É dele está crítica, tirada do livro “Ao Vencedor as Batatas”, de Roberto Schwarz, com um tom naturalista preconceituoso e racista, metido a científico, muito comum na época “Quem já o estudou a luz de seu meio social, de sua educação, de sua psicologia, de sua hereditariedade não só física como étnica, mostrando a formação e a orientação normal de seu talento? Pergunta Silvio Romero. Na resposta, lembra que o seu estudado é de família pobre, mulato, sem educação, cheio de receios, muito mediano e doente do sistema nervoso.” –, diriam que ele estar ia mais, ambicioso e sestroso como era, para tucano emplumado.

    Difícil saber qual destas opções se enquadraria o esquivo Machado se lembrarmos que ao mesmo tempo em que era um crítico sagaz e profundo  do paternalismo e da relação de favor da elite brasileira de seu tempo, como mostra Roberto Schwarz, ele, ao alcançar uma boa posição social e profissional “ vai abandonando aos poucos a crítica, vai- se alheando da vida política, fechando- se exteriormente na rotina, e interiormente nos seus romances, diminuindo, portanto, as possibilidades de choque, numa instintiva defesa de hipersensível (..) e passou indiferente, senão frio pelos grandes movimentos de sua época, a Abolição e a República” , como registra Lucia Miguel Pereira.

Jorge Alberto Benitz é engenheiro e escritor.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

“Democracia é coisa frágil. Defendê-la requer um jornalismo corajoso e contundente. Junte-se a nós: www.catarse.me/jornalggn

Redação

Curadoria de notícias, reportagens, artigos de opinião, entrevistas e conteúdos colaborativos da equipe de Redação do Jornal GGN

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Mais lidas

As mais comentadas

Colunistas

Ana Gabriela Sales

Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

Camila Bezerra

Graduada em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela Universidade. com passagem pelo Jornal da Tarde e veículos regionais. É...

Carla Castanho

Carla Castanho é repórter no Jornal GGN e produtora no canal TVGGN

...

Faça login para comentar ou registre-se.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Recomendados para você

Recomendados