25 de junho de 2026

“Se você engravidar de novo, vai morrer, viu, mãezinha?”: Mulheres enfrentam violência obstétrica em hospital de referência

Relatos inéditos de violência obstétrica obtidos pelo GGN acendem alerta para necessidade de mudança de protocolos
Mirella Galize, 21, alega violência obstétrica no HMU - antigo Hospital da Mulher

Carla Castanho e Pedro Hugo Nogueira

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Após a paciente Raíssa Falosi relatar à imprensa um caso de negligência que ocorreu no Hospital da Mulher, em São Bernardo do Campo, na região metropolitana de São Paulo, outras vítimas começam a vir a público compartilhar o mesmo sentimento de impotência diante de casos de violência obstétrica e possíveis erros médicos que precisam ser apurados pela unidade hospitalar que é referência no atendimento às gestantes.

A reportagem do GGN colheu relatos inéditos com as pacientes Mirella Galize, 21, que passou por um episódio traumático de gordofobia no Hospital da Mulher, e com Yabba Tutti, 30, que enfrentou uma tentativa não autorizada de curetagem uterina – processo de raspagem da parede do útero após aborto espontâneo – no antigo hospital da Mulher de São Bernardo, o HMU.

Em todos os casos, vê-se a necessidade de mudança de protocolos para garantir uma atendimento mais humanizado às genitoras. Ao longo da reportagem, é possível compreender a complexidade e a gravidade da violência obstétrica, que se caracteriza por toda e qualquer prática de desrespeito e maus tratos à gestante ou parturiente.

“Se você engravidar de novo, vai morrer”: O caso Mirella Galize

Submetida a uma cesárea de emergência, após a cardiotocografia ter constatado sofrimento fetal, a jovem Mirella Galize, hoje com 21 anos, relatou ao GGN ter sido vítima de gordofobia, em mais de uma oportunidade, enquanto esteve internada na maternidade pública de referência em São Bernardo, em setembro de 2021.

O primeiro comentário depreciativo que ouviu sobre seu corpo teria partido da médica obstetra responsável pela cesárea, realizada após 36 horas de tentativa de indução de parto natural sob uso do misoprostol.

“Quando minha mãe foi embora e depois de tudo o que passei, ainda tive que ouvir: ‘Não sei por que essas mulheres engravidam, só pra dar trabalho pra gente. Se você engravidar de novo, você vai morrer, viu, mãezinha?’”.

Com uma gestação de alto risco relacionada a pressão e tireoide alteradas, Mirella também ouviu críticas sobre seu peso após o parto, da equipe de enfermagem, enquanto tentava obter atendimento para um vazamento que partia da cicatriz da cesárea.

“Perguntei se poderiam limpar, fazer um curativo. Ela [enfermeira] falou pra mim que não poderia tampar porque tem que deixar a cesárea respirar. ‘Isso está acontecendo porque sua barriga é caída. Você quer o quê?’”, disparou a profissional de saúde.

A paciente relata que, após insistência para evitar o vazamento que a incomodava, as enfermeiras suspenderam sua barriga com duas fitas semelhantes a esparadrapo, o que causou, dias depois, uma assadura e diversas bolhas. Na foto enviada à reportagem, é possível ver uma gaze cobrindo a área afetada.

“Fiquei com esparadrapo por cinco dias porque não consegui tirar. Minha barriga ficou assada e repleta de bolhas, tenho cicatrizes até hoje”, lembrou Mirella.

À época emocionalmente abalada com a forma com a qual foi atendida, a paciente optou por não seguir com reclamações ou denúncias aos órgãos competentes, por temor de ser desacreditada e passar por mais frustrações e maus tratos.

“Meu filho hoje já está com dois anos e oito meses, mas eu não vou esquecer nunca de tudo o que passei lá. Foi muito difícil pra mim e pra minha mãe ver tudo o que ela viu”.

A mãe de Mirella, sua acompanhante na sala de parto, relatou ter presenciado uma tentativa da equipe médica de realizar uma histerectomia – procedimento cirúrgico para retirada do útero.

A tentativa, segundo a mãe, Fabiana Oliveira Galize, teria sido consequência de uma perfuração no útero cuja causa é desconhecida, mas que teria provocado uma hemorragia interna e supostamente impedido a parturiente de realizar o movimento de contração para expelir o bebê no trabalho de parto natural.

Embora tecnicamente não configure violência obstétrica, a mãe ainda presenciou que “colocaram o útero em cima da minha barriga, [porque] tiveram que se virar para salvar”, comentou Mirella.

Um outro gargalo bastante relatado por Mirella e outras pacientes ouvidas pelo GGN é a resposta negativa sobre a transfusão de sangue que consta no termo de consentimento para a internação. Ainda que a paciente ou familiares tenham autorizado a medida previamente ao parto, segundo Mirella, constou em sua ficha que ela “não quis responder” sobre a transfusão.

“Respondi na frente do meu esposo e da minha mãe. Não sei porque fazem isso, se é para economizar ou algo do tipo, mas eu sofri hemorragia no parto do meu filho, se eu tivesse precisado de doação ou transfusão eu teria morrido, porque até a minha mãe descer lá embaixo para autorizar…”

Aborto espontâneo: raspagem e falta de sensibilidade

Um outro caso inédito de suposta violência obstétrica apurado pelo GGN aconteceu com Yabba Tutti, 29, em junho do ano passado. Vítima de um aborto espontâneo com 12 semanas de gstação, Tutti compartilhou que chegou a sofrer uma tentativa de raspagem não autorizada para acelerar o processo de retirada do feto do útero.

Eram dois médicos, novinhos, mas sem nenhuma sensibilidade. Tentaram fazer com que eu expelisse o bebê com a raspagem, mas eu não deixei”.

Yabba Tutti Wodaabe Idamuü, 29, alega ter sofrido tentativa de raspagem. Foto: Divulgação

As queixas ao atendimento desumanizado no hospital também alcançam o delicado momento em que toda genitora que teve a gestação precocemente abreviada precisa passar: a entrega do feto perdido.

“Acho que poderiam ter me avisado ou explicado como funciona. Tiraram da minha mão em segundos, foi horrível, não tiveram cuidado. Disseram que era material de estudo e pronto. Tiraram e já começaram a fazer exames para assegurar que não tinha mais nada dentro.”

O processo de aborto espontâneo sofrido por Tutti começou em sua casa, quando teve os primeiros sinais de sangramento, no mesmo dia em que soube da gestação no HMU, já com 12 semanas de gestação.

Após muitas dores e aplicação de analgésicos administrados primeiro numa UBS próxima de sua casa, Tutti foi encaminhada por uma ambulância à unidade especialista em gestantes.

“Foi quando eu descobri que estava com 12 semanas. Fui direto para a sala de emergência, com muita dor. Como eu estava muito vulnerável – até porque meu companheiro teve que deixar meu filho com alguém para cuidar e voltar ao hospital – fiquei sozinha”.

Mulher preta e mãe de um menino de sete anos, Tutti trouxe à baila em seu depoimento outro tipo de descuido com gestantes: o excesso de toques realizado por qualquer um da equipe que esteja passando pelo quarto e que queira “checar” o nível de dilatação da mulher.

“Muito toque, feito por qualquer um, sem delicadeza. Mesmo com muita dor tive que aguentar, não ligavam para a minha dor. Gostaria de ser mais ouvida, ou de ter tido uma doula”.

A compressa esquecida no corpo da paciente

Ao todo, até o momento, pelo menos dez casos de negligência, violência obstétrica e possível erro médico foram divulgados pela imprensa regional e nacional, do Diário do Grande ABC à Folha de S. Paulo e G1.

A primeira vítima a denunciar a situação foi Raissa Falosi, que ficou com uma compressa de pano dentro do corpo por 19 dias. “Por causa dessa besteira que eles fizeram, eu poderia estar a sete palmos debaixo da terra. Eles poderiam ter tido mais atenção”, disse ela ao GGN.

“Peguei ônibus e ninguém queria ficar do meu lado pelo cheiro forte. Eu ia tomar banho e jorrava sangue e caíam pedaços. Em um dia, eu percebi que saíram linhas com os coágulos e fui ao hospital”.

Raissa esteve presente na audiência que a Câmara de São Bernardo promoveu para obter esclarecimentos do secretário de Saúde. Ela afirmou não ter recebido apoio psicológico do hospital. Porém, durante a oitiva, e por conta da repercussão do caso, Raissa recebeu uma ligação do Hospital da Mulher oferecendo o apoio, quase um mês após o erro médico ser revelado.

Ainda falei que não gostaria que fosse no Hospital da Mulher. Eles me ligaram e disseram que, se eu quiser psicólogo, só será no Hospital da Mulher, mas eu não quero passar lá.”

“Se não tivessem me liberado, eu estaria com meu bebê”: o caso Priscila Benedito

Priscila Benedito, 35, é mais uma das mães que alega ter sofrido negligência médica no Hospital da Mulher em julho passado, devido à demora da equipe médica para realizar o parto, o que supostamente teria causado a morte do bebê após uma gestação de 39 semanas.

Ao GGN, ela disse que mesmo com histórico de mioma uterino – o que classificava a gravidez como de alto risco – foi mandada para casa sentindo fortes dores porque só estava com “dois dedos de dilatação”. “A médica chamou de contração de treinamento”.

Priscila Benedito, 35, alega ter perdido o bebê pela demora na realização do parto. Foto: Divulgação

Segundo Priscila, quando retornou para o parto, foi atendida durante troca de plantão e não houve qualquer informação sobre possíveis alterações em seus exames.

“Minha filha já nasceu sem vida. Ela já estava madura, tinha feito cocô na minha barriga. Só me falaram 40 minutos depois que ela tinha nascido sem vida. Se aquela médica não tivesse me liberado para casa, hoje eu não estaria com o meu colo vazio.”

Cerca de um mês após a morte do bebê, a ex-paciente teve uma reunião com o diretor do Hospital da Mulher, Rodolfo Strufaldi, afastado do cargo após dizer que os casos eram “isolados” em entrevista à TV Globo.

“Eles nem tinham lido o meu prontuário. Foram lá só para falar ‘a gente sente muito’. Tudo o que perguntávamos, eles não sabiam responder”, relata Priscila.

Priscila fez o boletim de ocorrência no dia seguinte ao parto, e o depoimento só foi colhido nove meses depois, em meio à explosão de denúncias na imprensa, em maio deste ano.

“Tenho que puxar no ferro porque você não sabe parir”: o caso Kimberlly Macedo

A ex-paciente do Hospital da Mulher, Kimberlly Macedo Katzenwadel, 27, também relatou violência obstétrica durante o parto de seu primeiro filho, ocorrido em julho do ano passado, quando foi submetida a tentativa de parto normal por mais de nove horas, mesmo com exames indicando que a posição do bebê não era adequada para o procedimento.

Ao GGN, Kimberlly pontuou a falta de sensibilidade de uma das médicas durante o parto.

“Eu tenho que puxar no ferro porque você não sabe parir o seu filho”.

A técnica de enfermagem que também foi residente no Hospital da Mulher disse que as condutas passaram longe de ser profissionais, e que não pretende voltar ao local por estar enfrentando um episódio de depressão.

“Eu nem voltei ao hospital para tirar os pontos, tirei em casa”.

“Todo procedimento feito na minha filha foi através da carteira de outra gestante”: o caso Marilia Beatriz Alves

Ainda no HMU, Marilia Beatriz Alves revelou que sua filha perdeu o bebê após uma suposta troca de prontuários: a ex-paciente teria recebido, por conta do erro, doses de insulina sem ser diabética.

Marilia chegou a questionar a equipe médica sobre a troca de nomes das pacientes e, após a morte da neta, foi à delegacia para denunciar o possível erro médico.

“O delegado foi ao hospital para tentar pegar a médica em flagrante, mas ela já havia saído do hospital e o plantão dela só terminaria às 6 horas da manhã”.

Ao GGN, Marília ressaltou que a prática de “corporativismo” da instituição não é novidade, e, ciente disso, buscou manter sua força diante do momento delicado. Ela ainda procura por justiça.

“Era gravidez de alto risco”: o caso Giovanna Bianchi Dinalli

Adriano Batista de Lima perdeu a esposa e o filho no Hospital da Mulher em abril deste ano. A paciente Giovanna Bianchi Dinalli, grávida de 30 semanas, sofria de pré-eclâmpsia e, segundo o viúvo, o atendimento não foi sinalizado como um quadro com complicações.

“Ela tinha pressão alta, asma e era um pouco gordinha. Ao invés de tratarem como gravidez de risco, ela passava com enfermeira e clínico, não passava por obstetra”, afirma Adriano.

O viúvo alega que Giovanna Bianchi ficou internada por cinco dias e, nesse período, a equipe médica “tentava abaixar a pressão” da paciente. No quinto dia de internação, Giovanna sofreu uma hemorragia e foi realizada uma cesariana de emergência, mas o bebê não resistiu ao parto.

Adriano Batista de Lima perdeu a esposa Giovanna Bianchi Dinalli, grávida de 30 semanas. Foto: Divulgação

“Tudo isso foi negligência médica porque não tiraram o bebê na segunda (08/04) quando chegamos lá. Éramos pais de primeira viagem, acreditamos que estava tudo bem”, conclui Adriano.

Lima também alega que “nenhum médico quis atestar o laudo” e segue aguardando os resultados do IML.

Mais casos

Após o relato inicial de Raissa, outras vítimas vieram a público relatar violência obstétrica e erros médicos, como Maria Eunice da Silvia Souza, 20, que denunciou descolamento de placenta no Hospital da Mulher, ainda neste mês.

Em outro caso, Arthur Henry Coimbra denunciou a morte suspeita da esposa, Deise Coimbra, que ocorreu após duas doses de anestesia, em abril. O médico, nesse caso, pediu a Arthur que assinasse um termo consentindo a anestesia para não colocar “a sua profissão em risco”, mas Arthur recusou.

De acordo com Raissa, que tem mobilizado outras supostas vítimas para cobrar por esclarecimentos e apuração do protocolo hospitalar, há ainda outros relatos de famílias que preferem não ser identificadas pelo trauma e receio de novas frustrações.

Todo desrespeito e mau trato é violência obstétrica

O GGN conversou com a médica ginecologista, obstetra, pesquisadora e ativista pelos direitos sexuais e reprodutivos, Melania Amorim, para entender o conceito de violência obstétrica, que ainda carece de uma lei no Brasil, apesar de haver jurisprudência.

A profissional cita um estudo sobre desrespeito e maus tratos durante o parto (que representam 43% dos casos de violência obstétrica) e o aborto (29%) na América Latina, publicado na The Pan American Journal of Public Health (PAJPH), em 2019. Apesar da importância da revisão sistemática sobre a frequência de violência obstétrica, infelizmente, o problema sequer é chamado pelo nome correto. “Devemos dar nome aos bois, pois tudo isso é VIOLÊNCIA OBSTÉTRICA”.

O contato pele a pele, por exemplo, uma recomendação da OMS por estabelecer o primeiro momento de conexão entre a mãe e o bebê e reforçar o vínculo afetivo, é recomendado em 90% dos partos; a exceção são os cerca de 10% de casos que necessitam de alguma interrupção para atendimento ao nascituro. No entanto, no Hospital da Mulher, a meta é garantir o contato pele a pele em até 50% dos partos mensais.

A ditadura do parto natural?

A falta de reconhecimento sobre o que pode ser enquadrado como violência obstétrica abre margem para uma outra questão que torna as mulheres ainda mais vulneráveis. A falsa ideia de que a cesárea é a saída para fugir das experiências traumáticas que as parturientes vivenciam durante o parto natural em determinados hospitais do SUS, quando desassistidas.

Em 2019, o Projeto de Lei (PL 435/2019) da então deputada estadual Janaína Paschoal (PSL) permitiu que mulheres acima de 39 semanas de gestação pudessem optar pelo procedimento cirúrgico eletivo, ou seja, sem indicação médica. A justificativa da parlamentar para seguir com o projeto na Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp) foi que existe uma “ditadura do parto normal” no Sistema Público de Saúde.

De acordo com a obstetra Melania Amorim, a declaração não condiz com a realidade. “Apesar de algumas pacientes terem essa impressão, NÃO HÁ PRESSÃO [pelo parto natural]. A taxa de cesárea no setor público do Brasil é altíssima, chega a 40% (ou mais ainda nos hospitais universitários)”.

“Deve-se informar tudo isso, porque não há nenhuma dúvida de que tanto em curto como em longo prazo há efeitos deletérios da cesárea para o binômio mãe-bebê. Existe a falsa impressão de que cesárea é mais segura e muitos médicos vendem essa ideia para fazerem mais cesáreas”, informa a obstetra Melania.

A Organização Mundial da Saúde preconiza até 15% de partos não naturais, e o Brasil tem se distanciado cada vez mais dessa meta, sendo o 2º país com a maior taxa de cesariana no mundo. Em 2022, 59,7% foi a taxa de cesariana no sistema público. No sistema privado, o número chegou a 86%.

O X da questão está na forma como a assistência chega à mãe, e isso exige um fluxo de atualização da equipe médica e atendimento humanizado, em diversos aspectos, a fim de oferecer um parto com mais respeito e menos intervencionismo – que acontece com muito mais frequência no SUS.

No caso de Tutti, por exemplo, “estratégias de apoio ao luto como carimbar pezinho, oferecer psicóloga, enfermaria especial e NÃO FAZER CURETAGEM UTERINA” seria o recomendado, diz Melania.

“É preciso lidar com o fenômeno do exercício do poder médico sobre os corpos das mulheres. Criam leis, protocolos, situações que não existem, e ninguém está lá vigilante para impedir esses médicos de fazer o que eles fazem. Esse é o nosso grande problema, não é uma profissão exata, é uma profissão humana que exige ter esse fluxo de atualização”, ressalta a doula Mariana Clara.

Políticas públicas que fazem a diferença

Para entender o cenário em SBC e como a prefeitura tem atuado para proporcionar uma experiência humanizada para a gestante, o GGN conversou com a Coletiva Raízes do Parto, um movimento político e social que busca dialogar com diversos setores para combater a violência obstétrica na região do ABCDMRR (São Bernardo do Campo, Santo André, São Caetano do Sul, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra).

De acordo com a doula e porta-voz Mariana Clara, apesar de haver discussão e ideias projetadas nas conferências municipais regionais de saúde sobre possíveis melhorias às gestantes e parturientes, o município permanece inerte na implementação de ações que já poderiam estar encaminhadas.

“A secretaria de Saúde de São Bernardo é muito ausente, pouco atuante. A gente está lidando com um cenário que compõe a Câmara extremamente conservadora. No geral, na saúde de SBC, está tudo precarizado, e não existe regulamentação e leis dentro do município que possam estar vigilantes a essas situações, e isso tanto no público quanto no privado”, diz Mariana.

Um exemplo da falta de implementação de estratégias e projetos para as gestantes, segundo Mariana Clara, pode ser visto na construção da Casa de Parto, proposta na Conferência Municipal Regional de 2021, mas que segue parada até hoje. “Nas conferências municipais regionais de saúde a gente conseguiu se articular muito bem com outros movimentos e conseguiu a aprovação de uma construção de uma Casa de Parto, mas virou um plano de governo de SBC que não é executado.”

A Casa, além de promover parto humanizado, garantiria educação continuada para os profissionais seguirem com as boas práticas. De acordo com o secretário de saúde Geraldo Reple Sobrinho, o investimento em treinamento humanizado corresponde a apenas 1% do orçamento da pasta, segundo declarou em audiência na Câmara.

O “Fórum Perinatal do Grande ABC” também é um exemplo de ações descontinuadas. Com parceria do Ministério da Saúde, o Fórum foi realizado uma única vez, em 2016. “E isso era aberto ao público, à sociedade civil, cada maternidade do ABC trazia as suas estatísticas, o que estava bom, o que precisava melhorar. Era um momento interessante e não sei se acontece de forma que não seja mais aberto”.

Leia também: Confira os questionamentos respondidos pelo conselheiro, como a terceirização dos serviços dos hospitais.

Um outro gargalo que abarca o Hospital da Mulher é a suposta falta de atualização da equipe médica em relação aos avanços da medicina, que propõe medidas cada vez menos invasivas à mulher, conforme diálogos trocados nos conselhos locais de saúde.

Trata-se da mesma galera branca e conservadora na prática. Já acompanhei partos no Hospital da Mulher em que a professora gritava com a residente dentro da sala, porque ela estava querendo que a residente fizesse episotomia – uma das maiores violências obstétricas de mutilação genital – e a residente não quis”, comentou a doula.

A “precarização da profissão”, denunciada pelo Conselho Regional de Medicina (CRM), também aponta para uma série de demissões em massa realizadas desde o início de 2024, para substituir ao menos 20 profissionais por bolsistas do Programa Mais Médicos, sem registro no CRM.

“Eles demitiram as médicas que estavam atendendo a comunidade nas UBS’s. O programa [Mais Médicos] tem o objetivo de levar médicos a regiões em que não há atendimento para a população, e não substituir os médicos que já estão ali e que conhecem os problemas da localidade. É importante ser um hospital escola, mas desde que tenha supervisão”, disse a vereadora Ana Nice ao GGN, que tem atuado junto às vítimas para apurar os casos.

Já a terceirização de empresas, justificada pelo secretário pela “escassez de médicos”, é um outro ponto a ser destrinchado no imbróglio que envolve o Hospital da Mulher, centro das denúncias de violência obstétrica e negligência. Leia mais >>> Um dos profissionais contratados pela empresa Sigma – terceirizada da Fundação ABC, que gere o hospital junto com o Complexo – possui histórico de importunação sexual.

A gestão do Hospital da Mulher

Antes gerenciado apenas pela Fundação ABC, a organização unificou a administração de hospitais do município no Complexo de Saúde de São Bernardo do Campo, que agora gere, além do Hospital da Mulher, o Hospital de Clínicas Municipal José Alencar, o Hospital de Urgência Maurício Soares de Almeida e o Hospital Anchieta.

A administração é feita em parceria com a Organização Social de Saúde Fundação do ABC, uma instituição privada que atua na gestão de outros complexos de saúde da região, como na cidade de Santo André e Mauá, e gere também unidades em cidades do interior do estado, como Mogi das Cruzes e Sorocaba.

O GGN apurou o orçamento de saúde de cinco meses de 2023, período posterior à inauguração do Hospital da Mulher, em julho, no Portal da Transparência do município. Os valores empenhados ao Complexo de Saúde tiveram uma curva acentuada após julho, mês em que o governador do Estado de São Paulo, Tarcisio de Freitas, destinou R$ 150 milhões para a inauguração do Hospital da Mulher.

O novo projeto, que abarcou os serviços do Hospital Municipal Universitário (HMU) e do Centro de Atenção Integrada de Saúde da Mulher (CAISM) em um único equipamento, foi lançado com o objetivo de proporcionar uma melhor estrutura e um atendimento mais humanizado às gestantes. No entanto, as críticas das vítimas dizem respeito a “um ambiente que foi ampliado mas continua com problemas graves, é preciso ver onde está o erro”.

“A gente vê muito dado de violência obstétrica com mulheres negras, lê muita coisa. E coincidência ou não, a esposa do Adriano que faleceu no parto e perdeu o bebê também é negra. Claro, não podemos dizer que tem relação ou não, mas acabou vindo na minha mente essa questão, essa reflexão de que tem alguns dados, que tem um entendimento de que as mulheres negras são mais fortes”, diz a vereadora Ana Nice.

O outro lado

Após denúncias publicadas pelo G1 e pelo Diário do Grande ABC, a prefeitura designou uma comissão para apurar os casos e uma das primeiras medidas foi a demissão do diretor técnico do Hospital da Mulher em São Bernardo do Campo, Rodolfo Strufaldi.

O secretário de saúde Geraldo Reple Sobrinho, convocado para prestar esclarecimentos à Câmara dos Vereadores, informou durante a oitiva na semana passada que os casos estão sendo apurados e o que for determinado pela Justiça será cumprido.

“O Hospital da Mulher não deixa nada a desejar a nenhum privado. As melhores equipes estão naquele hospital. Temos casos de crianças que vieram ao mundo com 700 gramas e que estão aqui, sem nenhuma sequela”.

O secretário também apontou a taxa de mortalidade do Hospital da Mulher, que está entre as seis menores do estado de São Paulo, de 116 hospitais, segundo informações do Tribunal de Contas do Estado de São Paulo.

Questionado sobre o serviço de terceirização, ele disse que ocorre pela “escassez de médicos”. E sobre as demissões, ocorreram por casos específicos, nada a ver com o Mais Médicos.

A reportagem entrou em contato com a prefeitura de São Bernardo do Campo para ouvir o outro lado sobre cada um dos relatos inéditos de violência obstétrica citados e entender as ações descontinuadas, mas até o fechamento desta publicação, não houve retorno. O espaço segue aberto.

Carla Castanho

Carla Castanho é repórter no Jornal GGN e produtora no canal TVGGN

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  1. APFripp

    31 de maio de 2024 5:45 pm

    Isso acontece desde sempre. Esse é o atendimento padrão de todo funcionalismo publico no Brasil. E não adianta falar que eu estou generalizando, pois é péssimo em qualquer setor. Lema numero 1 do funcionário publico : só prá me dar trabalho.

    1. Anônimo

      1 de junho de 2024 7:15 pm

      Deixa de ser preguicoso e leia a materia . A gestao dos hopspitais esta sendo feita por empresas privadas, ta tudo terceirizado o que precariza tudo.

      1. Moacir Rodrigues de Pontes

        2 de junho de 2024 8:12 pm

        Preguiçoso e preconceituoso!… Trabalhei em empresas privadas por mais de dezoito anos e como funcionário público por mais de vinte e oito anos (sendo por nove anos simultaneamente). No total trabalhei por mais de trinta e nove anos. Testemunhei muito mais preconceitos e discriminação nas empresas privadas do que nos serviços públicos!

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