A Tragédia: a eleição que nunca acabou.
por Frederico Firmo
A eleição que nunca acabou, Dilma versus Aécio. Do impeachment para cá, nunca mais o país saiu da disputa e dos palanques. Os jornais e instituições giram em torno disto. O interregno de Temer, foi só a preparação e o tempo para a direita buscar um candidato, enquanto tentava diuturnamente eliminar de uma vez por todas o PT e principalmente Lula. Não conseguiram cumprir nenhum dos objetivos. Sem conseguir um candidato, apoiaram Bolsonaro, que pensavam ser um pau mandado com votos. Na sanha de destruir o PT, abraçaram o Lavajatismo e a campanha para destruir a política. O primeiro passo era o assassinato moral. Como outras vezes na história, a bandeira foi a luta contra a corrupção e a defesa conservadora dos costumes e valores. Esta pauta inibe qualquer debate pois se trata apenas de posições, crenças e fantasias, mas foi abraçada pela grande imprensa e mídia. Era o primeiro passo para acordar os mais baixos instintos jogando com os ressentimentos tão característicos em sociedades que se pretendem competitivas, porém vivem de manipular as regras do jogo.
A velha oligarquia política não se apercebeu que o discurso era contra ela mesmo e se jogaram no abismo como não tivessem amanhã. E não tinham mesmo. Os grupos financeiros e empresariais logo calcularam suas chances e logo tomaram consciência da incapacidade da velha oligarquia defender seus interesses no campo eleitoral. A velha casta perdeu apoio destes grupos e de há muito não tinham apoio popular. Eles já não eram mais capazes eleitoralmente, e quando perderam o poder do aparato de estado não tinham mais garras para defender seus representados. A falta de donos da velha casta no aparato do estado havia dado o sinal de alarme, já nos primeiros governos do PT. Para salvar os velhos ideais neoliberais precisavam urgentemente reavivar o discurso de privatização, estado mínimo urgente, austeridade fiscal e menos impostos. Na campanha usaram todos os estereótipos populares e todas as ideias conservadoras inclusive a religião. A completamente laica Faria Lima iria sutilmente se transformar em ideal religioso. Do evangelho de Deus restou pouco, mas alimentaram crença de que a riqueza é divina. De um lado a bíblia e do outro o credo: privatizar,austeridade fiscal, livre mercado, e cada um por si. Aliás o caminho da sagrada riqueza foi transformado por pastores, em algo mais do que apenas dízimos. O objetivo era pautar o debate no plano moral jogando o país numa narrativa conservadora e evitando a discussão sobre a realidade econômica e social. Poucos perceberam que o pastor carregava uma arma oculta em suas mãos. O antigo baixo clero já não queria mais ser mero coadjuvante. Iniciavam ali uma nova corrente na corrida pelo poder político escanteando de vez a velha casta.
Neste período uma forte onda fascista cresceu e mesmo depois da eleição, membros do legislativo, pastores e militares de pijama de várias matizes se aboletaram no poder. Incompetentes e mal intencionados fracassaram na pandemia e já temiam o retorno de Lula. Tomaram os partidos que não tinham proposta de poder, foram dos templos aos palanques passando pelas redes digitais. A bíblia de um lado e a caça aos votos no outro. Uma vez no poder, tentam usar o legislativo para aumentar suas riquezas e quem sabe se eternizar no poder, alguns sonham em acabar com o estado laico.
Se aproveitaram dos restos da luta contra a corrupção e difundiram a imagem de um caos moral e com a pauta de costumes elegeram o campo progressista como alvo. Universidades, Saúde e até à escola publica foram atacadas. Os políticos tradicionais e os defensores do liberalismo, abraçaram este grupo e foram alimentando a extrema direita candidatável e quebraram de vez a casca do ovo da serpente. Elegeram Bolsonaro, na expectativa de manter os interesses através de um neoliberal radical como Guedes, e sonhavam com uma eternização do lavajatismo, com Moro. Os interesses dos bancos e mercado pareciam garantidos com a autonomização do Banco Central e presidência de Roberto Campos. Na Petrobrás, tivemos o único presidente de companhia que pregava sua destruição publicamente e que dizia em alto e bom som, que iria quebrar e particionar a companhia. Segundo ele, era necessário quebrar o monopólio da Petrobrás em nome do livre mercado.
Para impor o sonho neoliberal teriam que passar a boiada, e para isto o ex-presidente tinha que criar a diversão, permanecendo no palanque ou nos templos ou nas redes virtuais. No interior do planalto, os novos poderosos sem nenhuma inteligência, apesar da Abin, se lambuzaram pensando que o poder duraria pelo menos vinte anos. Nem a pandemia foi capaz de causar mudanças na trajetória. A cortina de fumaça era o discurso de palanque e de boteco do presidente enquanto que a grande imprensa e mídia se responsabilizaram pelo discurso econômico neoliberal,altamente ideológico. O terra planismo econômico dos cabeças de planilha passava no meio da boiada, privatizando, terceirizando, e falando sempre nos índices de inflação e austeridade fiscal. O discurso teto dos gastos parecia ser para eles a garantia eterna de controle fiscal e fim das políticas públicas e sociais. Mas eles mesmos romperam com o teto principalmente por questões eleitorais ainda que usando a pandemia como álibi. As quebras da tal regra de ouro, tiveram o beneplácito desconfiado do mercado e da imprensa. Enquanto o mercado prosperava os amigos do palácio só pensavam em encher as burras, até com roubo de joias, e se eternizar no poder.
As bancadas de interesses escusos governavam, mas a paranoia do mandatário aumentava com o passar dos anos. A preocupação com a perda de poder, os levaram a descartar figuras como Moro e condenar Guedes ao silencio mas não à inação. Ele gostou dos bastidores pois continuava com seus negócios de mercado e se esquivava das lutas intestinas sob as ordens do capitão e de alguns ex-generais. Depois de destroçarem as instituições e transformarem o legislativo em uma assembleia de lobbies, os interessantes conflitantes criaram o caos econômico, mas a mídia começava a dizer que os erros eram porque Bolsonaro não era suficientemente neoliberal e alertavam para os perigos do retorno da visão retrógrada de Lula.
Para conseguir o apelo da nova classe média, contraditoriamente criada pelo PT, criaram ameaças, como por exemplo política de cotas e os discursos de costumes alimentaram os perigos morais. Estimularam a ideia de que cada indivíduo da classe média pertenceria a classe dos empreendedores, assim capitalizaram todas as vitórias individuais. Se acreditar empreendedor foi fácil para aqueles que sempre lutaram pela vida no cotidiano do vale tudo. Com um pouco de dinheiro alguns fizeram milagres. Assim como também foi fácil criar um verdadeiro pânico na recem formada classe média, alertando sobre a ameaça de tudo perder. Na narrativa a esquerda iria expropriar, e corromper moral e religiosamente. Todas as políticas sociais e reformas civilizatórias se tornaram ameaças. Ironicamente muitos chegaram à classe média exatamente por políticas sociais. Não foi incomum egressos de Institutos Federais e universidades públicas e ou principalmente os bolsistas dos FIES, se voltarem contra qualquer gasto publico na educação. Aprenderam a construir planilhas com coluna de entrada, gastos, deficit e superavit. Mas não viam seu trabalho escoar na coluna escondida de juros do cartão de crédito. Na televisão e mídia aprenderam a culpar o tal do deficit público, mas jamais os juros do BC. De planilha em planilha muitos foram acumulando perdas e mergulhando no abismo do desemprego. Mas agora já era tarde, pois haviam colocado no poder a ideia de cada um por si, e deixa de mimi mimi. O erro ja havia sido enorme: escolheram para a presidência um capitão sem exército ao invés de um ex-ministro da educação responsável por várias políticas sociais, que haviam contribuído para vários que o rejeitaram. As sofisticadas fake news da grande imprensa além de desinformar reforçava a narrativa. alguns expiavam a culpa, afinal deveria ter sido culpa de algum pecado. Para completar veio a pandemia, uma tragédia social que não pode ser escondida pelo discurso, mas que pode ser piorada por ele. De repente a Terraplana é uma questão, e as vacinas se tornam suspeitas. Enquanto faziam campanha pelo tal tratamento precoce, o país teve sorte, pois a mutreta monstruosa da compra das vacinas por companhias de amigos foi precocemente brecada. Os antes confiantes, no que deveria ser um fantoche de divisas, depositaram a esperança no guardião do cofre, Guedes, ele mesmo um extremista de direita, apesar de trabalhar num governo negacionista se dizia científico. O poder dele continua grande, pois jamais foram atrás do dinheiro de suas negociatas. Com certeza porque envolve o tal mercado.
O desvario da extrema direita e os arroubos ditatoriais, do grupo colocado no poder, mostraram que o discurso ideológico tanto na economia quanto nos costumes não era suficiente para governar um país. Mas a velhas casta já não tinham candidatos para se contrapor. Uma parcela de arrependidos abraçaram a contragosto o retorno de Lula desde que pudessem controlá-lo até conseguir um candidato a altura. Segundo eles, apenas um recuo estratégico. Contavam com um legislativo que ficou dividido entre vários grupelhos de interesse e muitos pastores.
Recentemente a extrema direita lançou um filme tentando fixar em Guedes a imagem de um homem incompreendido porém defensor das ideias corretas, assim como Milei. Sempre vão dizer que a queda do muro de Berlim se deveu ao fracasso econômico do socialismo. Mas um olhar de pássaro nas economias capitalistas mostra um retrato sombrio. No presente até mesmo as potências que se fizeram com a miséria colonial de outros continentes estão preocupadas com a China. Na Sul América a Argentina que já foi considerada, merecidamente primeiro mundo, mergulha em abismo desde que sucumbiu a velha oligarquia gañadera, unida aos amantes dos gaños. Quando estes, com Menen, abraçaram o neoliberalismo, nem os fantasmas de Peron conseguiram segurar o mergulho. O antigo país de classe média foi adquirindo cada vez mais a feição de um país sul-americano, com uma imensa pobreza convivendo com uma diminuta classe média. Em épocas de renascimento do fascismo e da extrema direita a monstruosa política econômica de Milei é tratada pela mídia como algo sério, afinal a mídia neoliberal brasileira está em campanha eleitoral contra Lula e PT. Estão a busca por algum “extremista de direita moderado” elegível. Nesta campanha é fundamental falar que a política de Milei zerou a coluna de deficit, independente das casualidades. Afinal Gaza também tem deficit zero e os civis mortos são apenas casualidades. Na Argentina uma parcela majoritária se tornou causalidade e a Argentina mergulha no desespero sem fim.
Mas nada mudou para a casta e a imprensa que continuam em campanha objetivando a eleição de 2026. Só se vê manchetes negativas para o governo, Com ou sem tragédia, tudo é motivo para criar armadilhas ou divulgar o que provavelmente será uma armadilha ou uma briga interna no governo ou com o legislativo. Escolhas do governo são criticadas, e abre-se, mais uma vez, voz para a oposição. Partidos, políticos, grupos de interesse todos visam tutelar o governo. Mantendo a ameaça, o inelegível continua viajando pelo país. Fala-se de fake-news, mas logo se dá espaço para o discurso de que combater mentiras é autoritário e vingativo, e que isto só aumenta a polarização. Qualquer proposta positiva do governo é descaracterizada enquanto política pública e é apresentada como tendo apenas o objetivo eleitoral. A mídia carrega o fantasma de Bolsonaro na esperança de encontrar um bolsonarista moderado com votos. Agora andam preocupados e dizem explicitamente que o bom desempenho da economia atrapalha. Todos os índices positivos são apresentados com um senão. Apesar do indíce da inflação, do PIB, e do desemprego, segundo eles o país está a beira do abismo. Qualquer melhora nos índices é relativizada. Estão desesperados com a possibilidade da economia melhorar e minar todo o trabalho de desconstrução do governo. Estamos em período pré-eleitoral continuo. Toda semana a Quaest faz uma pesquisa para a presidência em 2026. E o que mais é usado é o que dizem ser mais combatido, a mentira e as narrativas. Até tirar das catacumbas os economistas de FHC está sendo tentado. Depois de quase quatro décadas eles chamam o plano real de moderno e as propostas de governo Lula de atraso. Armínio Fraga e os grupos de interesse associados nunca deixaram de visar as riquezas do país, mas agora mais do que nunca querem tentar uma vez mais. Terão apoio externo afinal a representante americana está preocupada com os chineses e visa estabelecer um compromisso de compartilhamento de minerais estratégicos. De fato este interesse explica as intervenções brancas em vários de nossos vizinhos. Outros golpes estão em gestação. O imediatismo os fez eleger Milei como a esperança branca. A aposta em Bolsonaro e Moro não funcionou, mas ainda está na perspectiva. Os dois ainda perambulam pelos corredores do poder. Para alguns walking-deads e para outros cachorro morto. Mas tudo bem para os que acreditam num Milei que é governado pelo espirito de um cachorro morto. Os que tentam ser o herdeiro escolhido mordem e assopram e esperam uma definição dos ventos da mídia. Como na CPI das vacinas, a justiça desacelera aumentando cada vez mais os arquivos de provas e evidências, que podem jamais serem usadas. Afinal neste país nada é julgado no mérito. A imprensa que estimulava a prisão de um presidente sem provas, nem devido processo legal, agora se tornou cautelosa e pseudo legalista, pregando prudência. Querem provas robustas apesar de tantas confissões, joias e caminho do dinheiro. Provavelmente estão esperando por um triplex, com titularidade em cartório ou pedalinhos.
A tragédia gaúcha,não diminuiu a gana da direita, embora estejam preocupados com os exemplos de solidariedade. A solidariedade pode destruir todo o trabalho que tiveram para difundir que liberdade, é cada um por si e chega de mimi. Seguindo a cartilha, a prefeitura de Porto Alegre terceirizou a si mesma e contratou a mesma firma que explorou a tragédia do Katrina e que na bacia das almas contratou Moro, Alvarez & Marsal. Mais uma privatização, sem licitação, sem avaliação apenas na amizade, pobres porto alegrenses. Mas não se enganem a direita costuma interpretar o caos e a tragédia como oportunidades.
Na mídia e imprensa, as fake news crescem com a realidade dramática da tragédia. Esta realidade não impede que a mídia continue criando palco para o ringue e anunciam todo dia mais um golpe de Lira e Pacheco criando empecilhos para o governo, mas sobretudo pensando na sucessão.
E da sucessão na câmara e senado vem o incentivo para a barbárie. Afinal já aprovaram o fim da saidinha para o presos, e agora querem voltar definitivamente à idade média e fazer a castração química de acusados de assédio sexual ou estupro. Nem a notícia de que acabaram de soltar um ser humano que passou 12 anos preso, acusado de estupros que não cometeu, os demoveu. Se fosse hoje estaria castrado. Alguns deputados fizeram campanha na mídia para castração física.
A mídia perdida entre o discurso eleitoral, o cotidiano do legislativo, e a tragédia do Rio Grande do Sul não se esquece de lutar para salvar o discurso neoliberal. Depois de anos criando vendendo a narrativa do empreendedor e tentando convencer os mais vulneráveis que você é um de nós, agora são obrigados a mostrar a necessidade do estado, mas sem abdicar do terra planismo econômico. Nas telas continua o desfilar dos mesmos, falando sempre a mesma coisa que jamais deu certo. Privatização, estado mínimo, terceirização “flexibilização”, das leis trabalhistas. Saúde privada, educação privada e ou cívico militar. Esta última viola a legislação educacional que define a formação de professores e educadores. Mas na imprensa isto é apenas uma notícia. Mais uma vez sem críticas passam o pano em Tarciso e dizem que esta era uma promessa de campanha. Um conceito muito estranho. Nunca se ouviu tanta besteira propagada por exemplo por um Faria Limer como Feder, que sonha em transformar o país em clientes para os seus produtos digitais. Mas como diz a imprensa é promessa de campanha.
A eleição que nunca terminou continua. Todos os dias somos invadidos por pesquisas que se pretendem isentas e científicas, certificando que nomes como Tarciso, Michelle e o próprio Bolsonaro são quase hegemônicos nos corações e mentes. O objetivo último e primeiro é sempre retirar Lula e PT do poder. No momento além dos walking deads da política, outros sonham em se eleger, e mesmo se mostrando incapazes em seus estados, diante das tragédias, das chacinas e da destruição da civilidade e da educação parecem manter seus votos. Mesmo depois da aventura fascista, do golpe, da pandemia, e agora das enchentes a narrativa política continua firme e forte na fabricação do candidato. A imprensa continuará querendo transformar a realidade em narrativa e vice-versa.
Frederico Firmo – Possui graduação em Bacharelado Em Física pela Universidade de São Paulo (1976), mestrado e Pos Graduação Em Física pela Universidade de São Paulo (1979) e doutorado em Física pela Universidade de São Paulo (1987). Atualmente é professor associado I da Universidade Federal de Santa Catarina.
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