A dissonância das pesquisas de opinião e a financeirização da economia brasileira
por Guilherme Leite Gonçalves, Norberto Martins e Lena Lavinas
A divergência entre os números da economia e os resultados das pesquisas de opinião ou de confiança do consumidor é um fenômeno que vem intrigando a opinião pública. A discussão ganhou força nos Estados Unidos e encontra eco também na Europa. No Brasil, o fenômeno ganhou relevância após a divulgação, em março de 2024, de um conjunto de pesquisas que apontava para uma piora na avaliação do governo.
A economia brasileira cresceu quase três vezes o que era previsto para o ano de 2023, a inflação desacelerou e o mercado de trabalho trouxe bons resultados. Por que, então, esses dados não se traduziram numa melhora sustentada da avaliação do governo?
As tentativas de explicar o fenômeno percorrem caminhos diversos. Cientistas políticos apontam tanto para a importância de fatores conjunturais no momento de captação das opiniões do eleitorado como para fatores estruturais, por exemplo, ligados à ideia de calcificação dos grupos que apoiam Lula e Bolsonaro, conforme o argumento de Thomas Traumann e Felipe Nunes – a ideia, em termos simplificados, sintetiza a cristalização do eleitorado fiel e polarizado dos dois últimos presidentes em grupos antagônicos.
No caso dos economistas, os fatores conjunturais parecem ter tido maior ressonância. A desaceleração relativa da economia no segundo semestre de 2023 e a alta de preços específicos, como do arroz e do feijão, surgem como candidatas a explicar o fenômeno. Outras questões estruturais, como a uberização e precarização do mercado de trabalho, não encontram respaldo nos dados convencionalmente divulgados – o que leva, inclusive, a questionamentos acerca dos indicadores selecionados.
Há, contudo, um fator estrutural que vem sendo negligenciado no debate: o avanço da financeirização. A financeirização é um processo marcado por mudanças institucionais associadas à forma de produzir, valorizar e redistribuir a riqueza no capitalismo. Ela ganha contornos distintos em diferentes jurisdições, mas tem em comum a primazia da acumulação de ativos e valorização da riqueza financeira, que passa a submeter o processo econômico à uma lógica própria. No recém-editado livro Financeirização: crise, estagnação e desigualdade*, reunimos contribuições de um número expressivo de autores e autoras que lançam mão do conceito para tentar compreender e explicar a contemporaneidade.
A financeirização pode ser observada, por exemplo, na desestruturação dos sistemas de proteção social e na responsabilização do indivíduo para lidar com as incertezas e eventualidades da vida cotidiana. A restrição ao financiamento da provisão do Estado se articula com o avanço do setor financeiro sobre serviços com caráter eminentemente público, como, por exemplo, saúde e educação.
A financeirização também se traduz na disseminação do endividamento como um meio de acesso ao consumo e a serviços por grande parte da população. O crédito deixa de ser um meio de suavizar a trajetória do consumo ou de viabilizar a aquisição de bens de elevado valor agregado e passa a condicionar a renda disponível no dia a dia. Em outras palavras, as possibilidades de bem-estar ao alcance de cada indivíduo ou família passam a depender de sua capacidade de tomar empréstimos.
Por fim, a financeirização molda também o próprio cardápio de políticas econômicas e, de modo mais geral, de políticas públicas à disposição dos governos. A relevância diferenciada concedida à política monetária e a subjugação da política fiscal à primeira, com orientação de ambas à perseguição da estabilidade econômica – e não do crescimento ou desenvolvimento econômico – também compõem esse quadro.
Na prática, com a financeirização, o maior crescimento econômico não se traduz numa melhora na vida das pessoas que seja significativa. Quando há aumento da renda, ele se concentra nas mãos de poucos e alimenta desigualdades profundas. De acordo com dados do IBGE, em 2023, aqueles que integravam o grupo do 1% da população do país com maior rendimento domiciliar auferiam um rendimento médio per capita que representava 39 vezes aquele dos 40% da população mais pobre. Em números absolutos: são R$ 20.664 contra R$ 527.
Importante pontuar que esse resultado já incorpora a retomada de políticas compensatórias, como o redesenho do Programa Bolsa Família, que, segundo dados do IBGE, registrou em 2023 o pico da série histórica de proporção de domicílios com ao menos um beneficiário do programa: 19,0% – logo antes da pandemia, em 2019, esse número era de 14,3%. Essas políticas permitiram uma redução dos níveis de pobreza e pobreza extrema, mas a mobilidade social continua enfrentando barreiras de difícil transposição.
A melhora conjuntural no mercado de trabalho contrasta com um pano de fundo nada animador, haja vista o longo período de precarização e deterioração das condições dos trabalhadores. A pandemia de covid-19 também trouxe novas tendências, como a diminuição da participação de jovens na força de trabalho potencial. A formalização melhorou marginalmente, mas não foi acompanhada de uma melhora dos rendimentos de trabalhadores nesse grupo. O aumento relativo dos rendimentos do trabalho ocorreu majoritariamente no segmento informal do mercado, partindo de bases muito baixas.
Já a melhora marginal na renda encontra um contraponto na necessidade de gastar mais para acessar serviços tipicamente públicos, cuja provisão se deteriorou nos últimos anos. Soma-se a isso o fato de que o aumento dos rendimentos alimenta um orçamento altamente comprometido com o pagamento dos juros e amortizações das dívidas contraídas no passado. Ambas as pressões são especialmente expressivas no caso das famílias mais pobres.
Pondo todos esses elementos numa balança, verifica-se que a “areia” nos canais de transmissão dos relativos sucessos econômicos do atual governo à opinião da sociedade brasileira pode ser explicada pela ideia de que a financeirização avançou de forma estrutural. É ela que explica a dissociação entre indicadores frios e a realidade vivenciada pela população e sua percepção dessa realidade. Sem fazer frente aos seus avanços, dificilmente será possível melhorar a vida das pessoas de forma permanente.
* Lavinas, L.; Martins, N. M.; Gonçalves, G. L.; Waeyenberg, E. (Orgs.) Financeirização: crise, estagnação e desigualdade. São Paulo: Editora Contracorrente; Centro Internacional Celso Furtado, 2024.
Guilherme Leite Gonçalves – professor do Instituto de Estudos Sociais e Políticos (IESP) e da Faculdade de Direito, ambos da UERJ.
Norberto Martins – professor do Instituto de Economia da UFRJ.
Lena Lavinas – professora titular do Instituto de Economia da UFRJ.
Blog Democracia e Economia
O Grupo de Pesquisa em Financeirização e Desenvolvimento (FINDE) congrega pesquisadores de universidades e de outras instituições de pesquisa e ensino, interessados em discutir questões acadêmicas relacionadas ao avanço do processo de financeirização e seus impactos sobre o desenvolvimento socioeconômico das economias modernas. Twitter: @Finde_UFF
O Grupo de Estudos de Economia e Política (GEEP) do IESP/UERJ é formado por cientistas políticos e economistas. O grupo objetiva estimular o diálogo e interação entre Economia e Política, tanto na formulação teórica quanto na análise da realidade do Brasil e de outros países. Twitter: @Geep_iesp
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