10 de junho de 2026

Um Debate Acerca do Machado Crítico, por Jorge Alberto Benitz

“Machado como Crítico” era o tema do segundo dia de palestras que integrava o ciclo, ocorrido em 2018, em Porto Alegre

Um Debate Acerca do Machado Crítico

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por Jorge Alberto Benitz

“Machado como Crítico” era o tema do segundo dia de palestras que integrava o ciclo, ocorrido em 2008, em Porto Alegre, iniciado com a intitulada “Machado de Assis versus Roberto Schwarz”. O jovem palestrante estava dando conta do recado admiravelmente. Erudição e cultura caminhavam juntas. Textos chaves para entender a crítica machadiana como o instinto da nacionalidade, o culto do dever, o relativo às críticas de Machado de Assis ao realismo de Eça de Queiroz, aliado a comentários sobre os romances, com destaque especial para Memórias Póstumas de Brás Cubas, foram dissecados de um modo que me agradou porque iluminaram a obra defendendo tanto a grandeza de Machado da 2º fase, iniciada em 1988, com “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, como a mediocridade dos versos como Crisálida e Falenas.  Na análise acerca da palavra dada a um narrador morto é, no seu entender, um artifício para libertá-lo de qualquer amarra e assim poder escrever sobre tudo. Daí a permissividade que ele atribui ao pensamento de Brás Cuba, cruel e contrário a toda a ética e moral de fachada da época pela condição de morto e descompromissado de qualquer laço com o contexto dado que as coisas terrenas vistas sob este ângulo apequenam e até anulam valores tidos como importantes e fundamentais para os vivos. A morte tudo altera.

O narrador morto foi, segundo o palestrante, uma grande sacação que permitia ver tudo sob uma ótica cínica e cruel que defendia não haver saída tanto para o país como para o ser humano. Nada mais adequado e natural para este tipo de narrador que o tom irônico. Uma coisa é você vivenciar os fatos, outra é ver as coisas e pessoas depois de morto. Vendo a vida desta posição a desimportância e o lado ridículo e risível vira a tônica. Tudo se modifica para menos ou para nada.

Depois discorrendo sobre o tema instinto de nacionalidade ele ponderou que realmente a ótica universal adotada por Machado de Assis anulando a questão local tinha problemas. Na sequência, houve toda uma discussão entre ele e os integrantes da mesa coordenadora do debate onde o Palestrante ponderou que estava se esquivando de tratar de Roberto Schwarz para não reeditar o debate da palestra anterior [vide link https://jornalggn.com.br/literatura/machado-de-assis-versus-robert-schwarz-por-jorge-alberto-benitz/]  e, também,  porque sabia que o assunto irritava muito o Coordenador dos debates. Não por acaso, este Coordenador veio a trabalhar depois como colunista para a revista Veja, nos tempos em que ela representava o que de pior havia na oposição antiesquerda e antipetismo. Este ao receber a farpa, sorriu e, em tom gozador e triunfante disse que aquele debate foi uma surra no seu contendor, defensor da tese de Roberto Schwarz.

A palestra prosseguiu, com algumas intervenções oportunas do Coordenador, com o Palestrante discorrendo sobre como Machado de Assis teve a perspicácia de escapar das armadilhas do romantismo e do naturalismo para a partir disto criar um realismo liberto daquela impostura que mais cria uma realidade idealizada, desejada, do que embasada no real. Em certo momento ele chama a atenção para a denúncia feita por Machado do caráter doutrinário e messiânico existente tanto no romantismo como no realismo ao não admitirem, aos que acolhiam suas premissas, qualquer desvio justamente como a religião em relação aqueles que ousam questionar os dogmas pétreos. 

Indaguei, quando o debate partiu para o paralelismo com Borges e a questão da cor local face ao universal, se Brás Cubas não tinha aderência ao real, afinal escravismo e ideias liberais são temas cuja contradição é por demais forte para passar como apenas mais um expediente narrativo secundário de um escritor de temas universais com ojeriza a chamada cor local, ao pitoresco. Parece que se criou um impasse ao qual ele foi honesto em dizer que tal impasse era difícil senão impossível de dirimir. Bastaria ele aceitar a tese de Schwarz que coloca o impasse como o desacerto entre as ideias liberais em um país escravista.

Sem querer recriar a polêmica, mas sem fugir de ver como eles viam a questão eu perguntei dando conta de que não queria provocar o Coordenador se neste pormenor, escravidão versus ideias liberais, o achado de Roberto Schwarz não era importante demais para ser desconsiderado? Esqueci de acrescentar a crucial questão do paternalismo, do clientelismo, negação de tudo que constitua a ideologia liberal- capitalista em curso no solo europeu. Eu não desconsidero Schwarz, disse o Coordenador, somente não acho que por trás de toda a tessitura narrativa exista uma intenção igual à defendida por ele. Muito do que ele Schwarz analisa merece crédito. Só esta parte que é crucial na sua crítica me parece forçada, inconsistente e merecedora de crítica, conclui. A parte que ele se refere diz respeito à adoção do narrador canalha por Machado de Assis como mote para como membro de elite desnudar toda a hipocrisia e insensibilidade desta e, principalmente, por desvelar o desacerto das idéias liberais em solo pátrio escravista e patrimonialista (Ideias fora de lugar).

De minha parte acho que a contrariedade dele tem cunho ideológico. Aceitar a tese de Schwarz significa validar uma tese vinda da ideologia contraria a sua e, portanto, deve ser sempre, sem descanso, combatida e desconstruída e, importante, desqualificar o emissor delas. A propósito, este tipo de crítico ideológico é suficientemente inteligente para não agir inconscientemente. Tudo é pesado e pensado visando achar a brecha, a lacuna na tese adversária ou inimiga para ali centrar fogo. Não seriam eles capazes de enxergar virtudes na crítica de um marxista declarado como Schwarz que praticamente domina a cena crítica machadiana por décadas e décadas. Vou mais longe, mesmo que considerassem válida a tese do Schwarz, iriam se posicionar, public amente, defendendo o contrário, isto é, defender o Machado de Assis ahistórico que foca a dimensão humana e seus dilemas eternos não se detendo em questões menores do contexto histórico e social em que vive. Neste particular, a crítica de esquerda é mais generosa, mais magnânima, olhando com bons olhos mesmo reacionários de carteirinha que a despeito disso são artistas que merecem ter o valor reconhecido.

Não queiram ver nestas anotações uma espécie de ata da palestra. Meu propósito é outro senão registrar aspectos que julguei importantes neste debate e simultaneamente emitir crítica. Sei que ao fim e ao cabo o texto soa cabotino e narcisista. Parece que sou o personagem mais importante do debate. Não foi esta minha intenção. Somente me reservo o direito de apontar o que me tocou nele. Daí o seu caráter subjetivo. Outro olhar para o mesmo debate, com certeza, irá apontar outros pontos relevantes. Alguns podem dizer que me comportei neste segundo debate machadiano, onde a plateia composta, na maioria, de jovens de cursinhos pré-vestibular, no papel de louco da plateia de modo mais intenso que no primeiro debate.  Refletindo agora, penso que passei da conta. Talvez, porque, no meu entender, o professor machadiano progressista e democrático além de estar em desvantagem na mesa – era ele contra o seu Debatedor e o Coordenador, ambos de direita. Direita que, na época (2008), diferente de hoje, não se expunha como tal,  atuava de modo enrustido. Não tinha coragem de se expor como tal – reagia com pouco ímpeto as estocadas desferidas por seus contendores.

Machado de Assis dá uma lição de como escrever fugindo do lugar comum do estilo realista e/ou naturalista de seus predecessores que se perdem ao idealizar a chamada cor local, o pitoresco. Sem falar que este ufanismo acrítico nacionalista sempre pendeu para uma narrativa conservadora, enaltecedora de mitos. No entanto, não significa falta de respeito e até admiração a seus predecessores. Como revela Lucia Miguel Pereira, ele era amigo e admirava José de Alencar “Alencar morreu em dezembro de 1877; Iaiá Garcia, que marca tanto na evolução literária de Machado, saiu em 1878. A proximidade das duas datas torna provável a hipótese da influência de José de Alencar no romantismo expressional dos livros anteriores. Não entrar ia neste mimetismo a menor intenção de imitar; seria apenas um efeito de admiração por um escritor consagrado, por um amigo querido e respeitado”. Retomando, Machado tomou um caminho, talvez, por cautela de funcionário público “sujeito a chuvas e trovoadas” vindas do andar de cima, onde está o Ministro, seu superior, para criticar o sistema dominante de seu tempo, de um modo inusitado, pois, ao “ invés de falar em nome próprio, com lirismo ou reflexões sinceras, você identifica o seu “eu” lírico, com o lado mais abjeto da classe dominante”. Daí que “A construção de Machado de Assis, extremamente crítica, não foi notada enquanto tal nesse período (….) levou muito tempo para aparecer, ficou tanto tempo fermentando até que a certa altura nos anos 60 começou a aparecer com a interpretaçã o da americana Helen Caldwell. Ela não percebeu o lado social, mas percebeu que o narrador de Machado de Assis não era pessoa de boa-fé, que não era para acreditar nele”, como defende Schwarz em Debate com Luiz Felipe de Alencastro, Francisco de Oliveira, José Arthur Giannotti, Davi Arriguci Jr, Rodrigo Naves e José Antonio Pasta Jr, em março de 1991, publicado em Novos Estudos CEBRAP, número 29.  Mesmo assim, fica demonstrado que no centro de sua trama está o Brasil e suas especificidades, acompanhada das imbricações que envolvem seu papel na divisão internacional do trabalho e, principalmente, na sua inserção atrasada nas ideias políticas e filosóficas pós- revolução francesa a qual se integraram de modo enviesado, como mostra Machado de Assis, no entender de Roberto Schwarz.

Mais importante do que tudo, a participação nestes debates permitiu-me entender melhor este embate, esta disputa,  entre a esquerda e a direita pela apropriação ideológica de um autor cuja importância, na literatura brasileira e mundial, é incontestável. Principalmente, como estas motivações não são explicitadas, especialmente, pela direita que procura passar a ideia de que sua abordagem crítica do escritor é puramente de caráter literário.

Jorge Alberto Benitz é engenheiro e escritor.

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