As invisíveis (5)
por Walnice Nogueira Galvão
Quem viu Julia Roberts e Kristen Stewart descalças no tapete vermelho em Cannes, esfregou os olhos, sem acreditar na visão insólita. Era protesto contra o requisito, logo revogado, que vedava a entrada a mulheres que dispensassem o salto alto. Ou seja, apenas mais um ato impensado de misoginia, no exercício do patriarcalismo…
Entretanto, o Festival de Cannes, o maior e mais prestigioso de todos, tem sido nos últimos anos um baluarte da causa das mulheres. Em 2018, Cate Blanchet foi presidente do júri, liderando com Agnès Varda uma marcha de 82 mulheres do cinema, para mostrar concretamente o número de diretoras que já subiram a escadaria, quando comparadas aos 1.688 diretores homens que o fizeram.
Quanto ao galardão máximo, a Palma de Ouro, vejam-se as estatísticas, que confirmam esses dados: 71 diretores homens já a receberam, enquanto até hoje só 4 mulheres diretoras foram agraciadas, desde que a neozelandesa Jane Campion quebrou o tabu com O piano, O ano passado foi a vez de Justine Triet por Anatomia de uma queda (2023), apenas a terceira mulher a receber a Palma de Ouro.
O festival de Cannes deste ano de 2024 continua na trilha feminista. Os dois prêmios honorários foram para uma mulher e um homem – e, motivo de regozijo, não para dois homens. George Lucas levou um mas, felizmente, Meryl Streep, de longe a maior estrela de Hollywood e grande atriz por qualquer padrão, levou o outro. Ela sempre daquele jeitão simples, cabelo branco recolhido num coque sem artifícios, brincos pendentes, levemente maquiada, num elegante vestido liso de mangas compridas e sem decote, recolhido num ligeiro drapeado à cintura… E seu ar saudável de profissional séria, avessa a exibicionismo e badalações..
Deu-se realce a um punhado de diretoras mulheres, que concorreram à Palma de Ouro, sendo uma indiana (que acabaria levando o Grande Prêmio), uma inglesa e duas francesas.
Uma das francesas dirigiu The substance que, anunciado como de “terror satírico”, desperta curiosidade. Traz de volta Demi Moore, que não tem tido muita sorte desde que regressou às telas. Cumprindo um destino típico de mulher, ela, no auge da fama e da fase mais produtiva de sua vida, casou-se e teve 3 filhas em seguida, dedicando-se a criá-las e detonando sua carreira. Ficou anos desaparecida e quando reapareceu, foi em nível rebaixado. Ela merece o retorno e, ao surgir pessoalmente, o público em Cannes prorrompeu numa ovação que durou 12 minutos.
Afinal, a Palma de Ouro iria mesmo para um americano, Sean Baker, com Anora. Ao menos pôs uma stripper como protagonista, tema caro a este diretor independente, que em seu agradecimento dedicou o filme às trabalhadoras do sexo do mundo inteiro,
Este ano o júri foi presidido por Greta Gerwig, de distinta carreira no cinema nova-iorquino. Quando se decidiu a assumir a direção, logo obteve êxito, tendo-se destacado com Ladybird, Adoráveis mulheres (refilmagem do livro Little women, de Louisa May Alcott) e sobretudo o aclamado Barbie. Hoje é reconhecida como autora de filmes que contestam os padrões de feminilidade impostos pelo patriarcado.
O prêmio de melhor atriz trouxe uma peculiaridade: foi partilhado pelo elenco feminino. Todas as protagonistas de Emília Pérez, musical filmado no México pelo francês Jacques Audiard, receberam conjuntamente o primeiro lugar: Adriana Paz, Zoé Saldaña, Selena Gomez e Karla Sofía Gascón. Esta última é uma mulher transgênero, a primeira a receber um prêmio em Cannes.
Em geral, na temática de vários dos 22 filmes que concorriam ao principal prêmio da mostra, sobressaemas trabalhadoras do sexo, as refugiadas e as mulheres transgênero,
Ultimamente, a L`Oréal passou a bancar um prêmio para curta-metragens feitos por mulheres, que contou com duas brasileiras no júri especial, Taís Araújo e Gabriela Carneiro da Cunha. Taís Araújo belíssima no tapete vermelho, num tomara-que-caia amarelo ouro, que contrastava com seu tom de pele, e o cabelão imenso ao natural, eriçado. Para que não se pense que é um júri menor, com juradas menores, constate-se que elas desempenharam sua tarefa ombro a ombro com ninguém menos que Viola Davis e Helen Mirren.
E vamos ao Oscar.
Walnice Nogueira Galvão é Professora Emérita da FFLCH-USP
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