5 de junho de 2026

As invisíveis (3), por Walnice Nogueira Galvão

Menino escreve sobre menino e menina sobre menina? O mundo dos homens só pode ser escrito por homens, porque as mulheres não chegam lá?
Margaret Oliphant

As invisíveis (3)

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por Walnice Nogueira Galvão

Não é verdade que o veredicto da História seja a única instância judicativa, longe disso.  Acontece que o cânone é quem determina quem ficará ou não para a posteridade. E adivinha quem determina o cânone? Alguma mulher jamais fez parte do cenáculo de sábios que determina o cânone?

Da Inglaterra chega a notícia de uma descoberta curiosa, uma escritora chamada Margaret Oliphant, que viveu no séc. XIX (London Review of Books, 16.7.2020). Ela escreveu 96 romances, pois era arrimo de família e de dependia da pena para seu sustento de viúva com filhos pequenos, mais dois irmãos estroinas, um sobrinho e duas sobrinhas. A todos alimentava. O comentário focaliza seu romance Miss Marjoribanks, de 1866. Ao contrário das escritoras famosas da época como Jane Austen e as irmãs Bronte, que escrevem invariavelmente sobre amor e conquista de um casamento, a protagonista é solteira e altamente crítica dos homens, a quem chama de “aquele ramo inferior da espécie humana”. Exceção entre as mulheres romancistas de seu tempo, ela se interessa por tudo que não seja amor e conquista de um casamento. E zomba de Dickens, que opera súbitas, sentimentaloides e inverossímeis reviravoltas masculinas.

É realista, lúcida e sem ilusões. Critica os homens o tempo todo, pela voz da narradora mas também pela voz das personagens. O comentarista afirma que este romance é , sem dúvida, o mais interessante exemplo de uma mulher escrevendo sobre os homens no séc. XIX.

Dá o que pensar. Será que as mulheres só escrevem mesmo sobre amor e conquista do casamento, ou os homens trataram de apagar as mulheres que não escreviam sobre isso? Pelo menos ela não precisou adotar pseudônimos masculinos, como as excelentes escritoras coevas George Sand na França e George Eliot na Inglaterra, ou mesmo femininos, como as irmãs Bronte e Jane Austen. Se ainda assim estas são grandes romancistas, e Margaret Oliphant não sobreviveu, é inevitável pensar: não sobreviveu porque não obedeceu ao cânone? Menino escreve sobre menino e menina escreve sobre menina? O mundo dos homens só pode ser escrito por homens, porque as mulheres não chegam lá? Quem Margaret Oliphant pensava que era, Balzac?

Não estou inventando… Há pelo menos dois milênios e meio a trilogia Oréstia, de Ésquilo, uma sequência de três tragédias intituladas Agamemnon, As coéforas e As Eumênides, trata nada menos que da fundação da democracia e do primeiro tribunal.

Começa pela execução de Agamemnon, conduzida por sua esposa Clitemnestra, acolitada por Egisto, regente de Micenas. Era vingança pelo assassinato da filha de ambos, Ifigência, para propiciar a calmaria  que paralisava a armada invasora.

O filho e herdeiro, Orestes, foge, para não partilhar esse destino, pois é um obstáculo óbvio à entronização da estirpe de Egisto. Ao voltar muito depois, vinga o pai, matando a mãe e Egisto

O matricídio é um crime maior, não é só assassinato: é assassinato com múltiplos agravantes. E as Fúrias do inferno passam a perseguir Orestes. É então que Palas Atena, padroeira de Atenas e criadora da polis, intervem e determina que ele seja julgado por um tribunal, o primeiro da História..Empatado o veredito, ela desempata (“voto de Minerva”) pela absolvição de Orestes.

O matricídio ficará impune, as deusas da vingança da linhagem materna, as Fúrias, serão aplacadas e domadas, transformando-se de Erínias em Eumênides. Os manes de Clitemnestra não receberão justiça nem desagravo.

Então, num só lance, a oligarquia patriarcal cria a democracia e a exclusão de mulheres, estrangeiros e escravos. E isso é legado grego.

Essa é a mais bela justificação do patriarcado e de mais elevada arte,  nada menos que a tragédia ática. Mesmo à custa de deixar impune um matricídio e o espectro da mãe assassinada vagando sem destino.

Imaginem os casos menores aqui examinados…

Mas há motivos de celebração. A França acaba de inscrever na Constituição o direito ao aborto: é o primeiro país a fazê-lo, assim como foi o primeiro a descriminalizar o aborto quando a Ministra da Saúde Simone Weil assumiu a causa e levou até o fim a aprovação da lei, em 1974, Que bom haver países que acreditam na lei.

Walnice Nogueira Galvão é Professora Emérita da FFLCH-USP

Walnice Nogueira Galvão

Professora Emérita da FFLCH-USP

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2 Comentários
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  1. Elisa Maria Costa Costa

    12 de maio de 2024 1:03 pm

    Excelente artigo sobre nós mulheres, as invisíveis.
    Gostaria de ler os textos 1 e 2.

  2. AMBAR

    12 de maio de 2024 3:25 pm

    A existência dos homens é a escolha das mulheres. Escolha livre e consciente ou forçada e premente, elas se encantam com a sua criação. Quando a criação se volta contra a criadora e a destrói, em vez de se vingar ela perdoa, perdoa para escolher de novo o poder de trazer a vida. O perdão aos homens, virtude máxima, tem tão somente a capacidade de torna-los impunes e inimigos eternos da mulher. Perdão para a paz não redime, reune os inimigos e adia a guerra. Minerva absolveu Orestes e o ingrato afundou o Banespa.(rsrs)

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