10 de junho de 2026

Quem silencia o espiritismo?, por Dora Incontri

Jornalistas espíritas quase nunca abrem espaço para debater qualquer tema relacionado. E olhem que o Brasil é o país mais espírita do mundo!
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Quem silencia o espiritismo?

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por Dora Incontri

Começo este artigo, avisando que tem um tom de desabafo, porque vou citar minhas experiências pessoais, mas elas são apenas o ponto de partida de uma análise mais ampla. E já digo também de antemão que o Jornal GGN se constitui para mim uma exceção ante as queixas que vou anunciar, pois jamais tive aqui qualquer censura e sempre fui acolhida em todas as minhas manifestações e expressões.

Só não vou citar nomes nem de instituições, nem de pessoas, para não dar espaço para processos ou desencadear melindres e ódios.

Lancei em março desse ano o livro Kardec para o século 21 – fruto de anos de trabalho e que representa um marco para o espiritismo progressista, revisionista mesmo. Agora em julho, já estamos lançando a 3ª edição – o que é uma boa notícia. Mas não conseguimos furar a bolha da comunidade espírita e, mais, da comunidade espírita mais progressista. Enviei o livro para diversos jornalistas e… nada. A maioria sequer respondeu. Fiz lançamento em livrarias famosas (que não publicaram uma única foto do evento, enquanto todos os outros escritores têm sua presença fartamente documentada). Mandei para alguns intelectuais não espíritas, amigos. Silêncio sepulcral.

Tenho experiências mais antigas nesse sentido. Num concurso que fiz numa grande universidade pública do Estado de São Paulo, a banca discutiu na minha frente: “Como vamos deixar entrar uma espírita?” Outras bancas não foram tão explícitas, mas houve certamente cancelamento por causa do meu envolvimento com o espiritismo.

Quando fiz meu doutorado na USP sobre Pedagogia Espírita, consegui romper uma barreira, graças à Profª. Roseli Fischmann, que fazia então um trabalho de dar voz às minorias. Mas parou por aí. Outras mulheres intelectuais a que ela também abriu caminhos hoje estão diariamente na mídia, com outras causas mais populares que a fincada em solo espírita kardecista.

O preconceito se estende ao mundo acadêmico, à mídia (de esquerda à direita), e mesmo ao diálogo inter-religioso. Intelectuais e acadêmicos retiram de seus currículos lattes, menções a trabalhos que tenham escrito sobre espiritismo. Jornalistas espíritas quase nunca abrem espaço para debater qualquer tema relacionado. E olhem que o Brasil é o país mais espírita do mundo!

Trabalho há décadas com o diálogo inter-religioso e tenho inúmeros contatos com católicos, protestantes, judeus, candomblecistas, budistas, islâmicos… e depois de anos, tenho amigos queridos em todos esses campos. Mas já cheguei a indagar diretamente a um grande nome da Teologia da Libertação por que ele citava todas as tradições do mundo, mas jamais uma única palavra sobre Kardec. Saiu pela tangente e não me respondeu. Outro teólogo, muito amigo, um frade franciscano, reconheceu esse fechamento e me deu a seguinte explicação: temos a tendência a dialogar com o “outro”, as diversas tradições são “outras” em relação à Igreja católica, o espiritismo talvez nos pareça uma heresia! 

Recentemente um colunista famoso de um grande órgão de imprensa mainstream publicou um artigo com grosserias a respeito do espiritismo, dizendo que se trata da “religião mais tosca” que existe. Escrevi um artigo para responder, sendo eu jornalista profissional e pesquisadora reconhecida no tema. Nem uma linha na coluna dos leitores apareceu.

Outro jornal, esse à esquerda, publicou um artigo de um ativista comparando Kardec à Ku Klux Klan. Respondi e mandei o artigo diretamente ao editor, que me conhece. Nenhuma resposta. Esse é o mantra da hora: acusar Kardec de racista e com isso invalidar toda a sua contribuição. Primeiro, esquecendo-se da análise do contexto eurocentrista em que vivia, silenciando sua proposição de fraternidade universal e de abolição, segundo suas próprias palavras, “de todo preconceito de classe e de cor” e, sobretudo, omitindo o imenso trabalho que nós, espíritas progressistas, temos feito para reler Kardec dentro de uma perspectiva do avanço das ciências e da filosofia (coisa que ele mesmo propôs que fizéssemos). E, com isso, exercitando inclusive uma crítica em relação a alguns traços superados do seu pensamento.

Mas todo esse cancelamento não é de hoje. E não é só do Brasil, aliás é até menor entre nós. Grandes cientistas e intelectuais desde o século XIX até o século XX, que realizaram pesquisas interessantes, com resultados favoráveis às teses espíritas, da sobrevivência da morte, da comunicação dos espíritos e da reencarnação, são silenciados, ou olhados com desprezo, por terem se rendido em algum momento a essa “excentricidade”. William Crookes, Russel Wallace, Conan Doyle, Ian Stevenson (este com uma pesquisa robusta de 2500 casos de recordações espontâneas de crianças de “supostas” vidas passadas…) e inúmeros outros.

Que hipóteses temos para explicar tal má vontade, tal silenciamento?

Tenho algumas: Kardec é demais racionalista para as religiões, que gostam de guardar o mistério, que é um campo difuso, de onde se estabelecem dogmas e muitas vezes estruturas de poder! Kardec é demais espiritualista para uma ciência que pretende que o materialismo não seja (como o espiritualismo) um pressuposto filosófico, sem necessária evidência científica. Kardec foi um educador e por isso até entre os próprios espíritas, às vezes, é menosprezado – afinal a educação é o lugar de maior desprezo do conhecimento (sobretudo no Brasil). E por fim, o espiritismo se tornou sim no Brasil, uma religião no sentido negativo da palavra, com lideranças mediúnicas problemáticas, algumas de extrema direita, falando absurdos a torto e a direito. Hipóteses…

De qualquer maneira, fico aliviada por poder escrever esse texto e publicá-lo sem cortes!

Dora Incontri – Graduada em Jornalismo pela Faculdade de Comunicação Social Cásper Líbero. Mestre e doutora em História e Filosofia da Educação pela USP (Universidade de São Paulo). Pós-doutora em Filosofia da Educação pela USP. Coordenadora geral da Associação Brasileira de Pedagogia Espírita e do Pampédia Educação. Diretora da Editora Comenius. Coordena a Universidade Livre Pamédia. Mais de trinta livros publicados com o tema de educação, espiritualidade, filosofia e espiritismo, pela Editora Comenius, Ática, Scipione, entre outros.

Conexões – espiritualidade, política e educação - Dora Incontri

Dora Incontri é paulistana, nascida em 1962. Jornalista, educadora e escritora

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10 Comentários
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  1. Hilton Dominczak

    26 de junho de 2024 3:45 pm

    Dora, isso lembra aquela famosa frase “não li e não gostei”, ou seja, a maioria dessas pessoas citadas por você, nada conhece do Espiritismo e não deseja conhecer, não quer “perder tempo com essa coisa de falar com os mortos”. A nossa imprensa dá espaço sim para críticos do Espiritismo, mesmo quando a crítica não tem fundamento algum. Pessoas como Divaldo Franco e outros só complicam ainda mais a situação. Enfim, vida que segue, pois existem muitos espíritas sérios e comprometidos com a Doutrina Espírita e, apesar de tudo, o Brasil é o país com o maior número de espírita no mundo. Continue com seu importante trabalho, pois tem muita gente que lê e admira sua luta.

    1. Maria Augusta Maia Melilo

      26 de junho de 2024 4:31 pm

      Infelizmente as pessoas não querem ter trabalho e estudar o que a doutrina e Kardec trouxeram para o mundo. O mundo capitalista grita mais forte. Triste mas estamos firmes aqui.

      1. Amélia Pereira de Barros

        27 de junho de 2024 8:12 am

        Parabéns,Dora! Excelente matéria. Disse tudo . É como me sinto.O espiritismo está arrotando ideologias extremistas.

  2. WILLIAN ADEODATO

    27 de junho de 2024 7:42 am

    Concordo com os comentadores e acrescento que mais uma vez Dora faz uma análise de conjuntura precisa. Fico pensando nas profecias sobre o futuro do Espiritismo feitas por Léon Denis e pelo próprio Kardec. Como nos ensina o Evangelho depende de nós. (Perguntou-lhe Jesus: Que queres que eu te faça? Respondeu o cego: Mestre, que eu torne a ver. Então, Jesus lhe disse: Vai, a tua fé te salvou.) A questão do livro dos Espíritos 459. Influem os Espíritos em nossos pensamentos e em nossos atos? “Muito mais do que imaginais. Influem a tal ponto, que, de ordinário, são eles que vos dirigem.” nos deixa questões, estamos fazendo mesmo a nossa parte? Qual tem sido a nossa contribuição para edificação do edifício do Espiritosmo? Não nos esqueçamos, “Aquele, porém, que não a conhece e faz coisas merecedoras de castigo receberá poucos açoites. A quem muito foi dado, muito será exigido; a quem muito foi confiado, muito mais será pedido. Dora segui sendo um exemplo.” Aproveito para informar que me tornei membro do canal GGN. O Luiz Nassif é um velho conhecido desde os tempos da mídia corporativo, além de ser mineiro, como eu. Tomará que o meu exemplo seja seguido, afinal sem a nossa colaboração o jornal não continua e o mundo de regeneração vai demorar.

  3. Virgilio Tattini Jr

    27 de junho de 2024 8:32 am

    Prezada Dora, parabéns pela matéria. Está fazendo um trabalho edificante para seu crescimento espiritual e dos outros tambem. “A semeadura é opcional, a colheita será obrigatória”
    Parabéns

  4. rogerfer....

    27 de junho de 2024 8:56 am

    Todos perceberão em algum momento, mesmo que leve milênios de existência. Afortunados são aqueles que já percebem quem somos em essência. É muito difícil deixar nossos paradigmas de lado, silenciar a vaidade e escutar o EU que deve dominar os próprios pensamentos.

  5. José Freitas

    27 de junho de 2024 11:56 am

    Professora, adorei o artigo! Muitas vezes nos calamos, muitas vezes engolimos a seco…muitas vezes permitimos que analfabetos “em pensar religião” não nos respeitem…..um desabafo como o seu, educado, embassado e sem deixar de ser contundente é sempre bem vindo! Parabéns!

    P.S.: Não consigo entender um espírita que não seja progressista…….

  6. roberto.de carvalho

    28 de junho de 2024 9:39 pm

    Dora Incontri!! Que prazer em relê-la…rsssss…procurava avidamente por suas palavras claras e educativas. Meu Deus!! Como tenho me entristecido com alguns “espíritas”. Tantos nomes caíram em meu descrédito. Divaldo é um deles. Quanta decepção! Ainda encontro pessoas que frequentam Casas Espíritas e que politizam tanto nosso Movimento. Colocam políticos acima de sua fé. Está tudo muito confuso pra mim. Como vc disse, dos dois lados… E nessa selva sobram pessoas cultas, no maior sentido da palavra KARDECISTA como você.
    Adorei suas colocações e continuarei seguindo suas Letras.
    Grande abraço.

  7. Taise Neves Possani

    21 de março de 2025 12:25 am

    Dora, seu texto traduziu muito de minhas inquietações. Não consigo compreender como Kardec não é mencionado, reconhecido, nem como pedagogo, cientista que era. Me incomoda muito o fato de que hoje muito do que se avançou deve-se ao seu trabalho e ele nunca é referenciado. De fato penso que há um silenciamento do Espiritismo. Eu mesma tentei fazer um doutorado sobre educação e espiritualialidade para tentar entrar, mesmo assim não deu certo. Quero te dizer que você não está só em tua luta, estou nela também. Abraço.

  8. Roberto Dantas Carvalho

    12 de março de 2026 4:38 pm

    O Espiritismo romantizado que muitos não espíritas dizem ter simpatia, não se iguala ao verdadeiro Espiritismo lógico e a técnico de Kardec. Quando convido alguém a ler os livros básicos de Hipolity Leon, todos declinam por pura ignorância. A de não entenderem que todos os fenômenos espirituais que eles espetacularizam , se explicam primeiramente em obras de Kardec.
    É a base de tudo…
    Temos aqui no Rio de Janeiro uma experiência bastante oposta a todo o sentido do Movimento Espírita…sem politizar, não é o meu intuito…mas a quantidade de espíritas da Direita Fascista entranhada nesses movimentos, sinceramente me assustam muito…
    Como pode um espírita ser homofóbico??
    Como pode um espíritas ser a favor de pena de morte?
    Como pode um espíritas criticar ações sociais de um governo??
    Isso me enoja!!!
    Isso não é Jesus!!!
    Isso não é Kardec!!
    Isso não é Espiritismo!!!
    Falta leitura!! Interpretação de texto.

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