5 de junho de 2026

Chiyoko, atriz do milênio (“Sennen joyu”, 2001 – Direção de Satoshi Kon)

Filmes que exploram a (in)distinção entre a ficção e a realidade são relativamente comuns – pode-se mesmo dizer que esse é um tema recorrente entre os cineastas. A rosa púrpura do Cairo, O vingador do futuro, Matrix, Solaris e Mais estranho que a ficção – sem contar os diversos filmes de David Lynch – são obras em que o limite do real é levado a extremos, a ponto de – em alguns momentos – o espectador não saber onde termina o mundo real e onde começa o mundo da ficção, dentro do universo do filme.

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No Japão, essa ideia foi explorada por dois cineastas diferentes em dois filmes que foram lançados no mesmo ano, em 2001. Mas enquanto que A viagem de Chihiro se tornou o estrondoso sucesso que colocou Hayao Miyazaki em evidência no mundo inteiro, Chiyoko, atriz do milênio (Sennen joyuu), do diretor e animador Satoshi Kon, ficou praticamente desconhecido fora do Japão, exceto pelos apreciadores de animação japonesa. A divulgação do filme foi praticamente zero no ocidente, e a despeito de críticas entusiásticas, foi exibido por duas semanas em exatamente seis (!) cinemas dos Estados Unidos, por conta da inapetência da DreamWorks em promovê-lo. O que foi uma pena, pois a história certamente tem um caráter universal: o que faríamos e até onde iríamos, no tempo e no espaço, para reencontrar nossa alma gêmea?

O filme começa com uma cena insólita para um filme com essa premissa: estamos no espaço sideral, e numa tomada inspirada certamente por 2001: Uma odisseia no espaço, vemos as portas de uma base lunar se abrindo para lançar uma nave espacial. Um homem e uma mulher discutem: o homem alega que se trata de uma viagem sem volta, e a mulher se justifica, dizendo que “havia prometido ir procurá-lo”. E agradece, e se despede dele. O que parece ser um filme de ficção científica logo se revela um filme dentro do filme, pois logo após os créditos é revelado que um homem – o diretor de documentários Genya Tachibana – está revendo um filme de Chiyoko Fujiwara, a atriz do título, pois pretende fazer um documentário sobre ela. Isto porque as instalações do estúdio onde ela trabalhou por 30 anos estão sendo demolidas; coincidentemente, faz também 30 anos que Chiyoko retirou-se misteriosamente de cena, no auge do estrelato. E também após 30 anos de reclusão voluntária, ela enfim concorda em receber o diretor para dar um depoimento sobre sua vida.

Tachibana (dir.) é acompanhado pelo seu cinegrafista Kyoji Ida (esq.), que não se mostra nem um pouco entusiasmado em fazer as tomadas do documentário. Ao referir-se com um certo desprezo (ou um desprezo certo) a Chiyoko (“aquela velha maluca, vivendo como uma eremita”) é inclusive agredido por Tachibana, que nutre um respeito absoluto pela atriz. Nada a temer: essa agressão se dá muito mais no sentido humorístico, e ao longo do filme a dupla provê vários momentos de alívio cômico à trama (mais sobre isso logo abaixo).

Após serem recebidos pela governanta, Chiyoko aparece e é respeitosamente saudada por Tachibana. Ela dispensa maiores cerimônias e pergunta o que ele havia trazido lhe trazido de presente. Neste momento, Tachibana dá uma chave a Chiyoko, que então começa a recontar sua vida e os motivos que a levaram a seguir a carreira de atriz.

 

Neste momento, a magia realmente começa: tal como na cena antes dos créditos – quando um terremoto irrompe no exato momento em que o foguete decola – o diretor e o cinegrafista aparecem numa cena da vida de Chiyoko quando ela adolescente, como se estivessem lá, observando a cena sem serem notados. Vemos que estamos no Japão, no final da década de 1930, quando a mãe de Chiyoko recebe uma proposta de trabalho de um produtor de cinema que deseja fazer um filme na Manchúria ocupada. A mãe se recusa, dizendo que a profissão de atriz “não é uma profissão honrada” e que “seu destino é continuar a gerir a confeitaria que herdaram de seu pai”. Chiyoko sai de casa, e para dissipar sua raiva e sua frustração com a mãe, começa a atirar bolas de neve contra uma parede.

Nisso, um estranho ferido vai a seu encontro e lhe pede ajuda, pois está fugindo da polícia secreta. Ela despista os guardas e depois se encontra novamente com o homem misterioso, que então lhe entrega a chave – “a chave para a coisa mais importante do mundo”. Ele carrega também um quadro, que se recusa a mostrar para Chiyoko pois, segundo ele, “ainda não está pronto”. No dia seguinte, ao voltar para sua casa, Chiyoko vê uma grande aglomeração próxima à sua casa. Ela então descobre que o homem misterioso tinha conseguido escapar e se dirigia à Manchúria. Com isso, lembrando-se do convite do produtor, ela  finalmente consegue convencer a mãe a deixá-la partir, e inicia sua carreira cinematográfica.

A partir daí, o filme vai e volta no tempo – sempre usando do recurso de colocar Tachibana e o cinegrafista não só como espectadores da ação, mas também tomando parte dela. São essas intervenções que provêem os momentos de humor do filme, mas que também estabelecem Tachibana como o “protetor” de Chiyoko. Enquanto isso, as diversas eras da história do Japão nos são apresentadas conforme a vida de Chiyoko vai passando.

Não saberemos até o final do filme se o que vemos é a representação dos vários papeis nos filmes em que ela atuou, se se são suas memórias rpresentadas de uma maneira extremamente vívida ou se ainda ela expressa seus próprios sentimentos e sua esperança de reencontrar seu grande amor da juventude. Com isso, Satoshi Kon não faz um filme dentro do filme mas vários, colocando-os às vezes numa sequência vertiginosa, ao mesmo tempo que os entrelaça com a vida de Chiyoko de maneira magistral.

Outra coisa que chama a atenção é a música, composta por Susumu Hirasawa. A trilha sonora do filme é toda de música eletrônica, com temas que poderiam inclusive ser tocados em qualquer rave ou pista de dança. Isso provê um contraste interessantíssimo com o que se mostra na tela e ajuda a dar um grande dinamismo ao filme, pois sugere que a História (enquanto relato de eventos do passado) é uma coisa dinâmica que é modificada a todo momento pela ação dos indivíduos que são parte dela – ou seja, no limite, todos nós. A letra do tema final, cantada pelo compositor, é uma celebração da vida que casa muitíssimo bem com o encerramento da história – além de ser irresistível para dançar.

Em resumo, o filme é interessantíssimo em vários níveis. Primeiro, porque conta uma história que seria dificílima de ser produzida com meios tradicionais; hoje em dia, talvez fosse possível criar os cenários – tão diversos que vão desde o século XV até bem além do século XXI – com recursos digitais. Porém, isso deixaria os atores na frente de telas verdes ou azuis, o que decerto reduziria sua naturalidade. Já com o recurso da animação, o diretor e os animadores têm total controle do que querem mostrar e podem deixar a imaginação correr solta, ao mesmo tempo que deixam seus personagens completamente à vontade num contexto de tantas mudanças.

Além disso, mesmo que conte com referenciais japoneses, ele conta uma história universal – a do amor que insiste em ser mais forte do que as circunstâncias adversas que podem cercá-lo. E, finalmente, o filme é uma homenagem ao poder e à magia do cinema com a reapresentação de diversos temas recorrentes que os espectadores assíduos das salas certamente reconhecerão – tudo isso em estonteantes 86 minutos.

Infelizmente, não existe uma versão em DVD ou Blu-Ray do filme no Brasil. Por outro lado, ele pode ser assistido online em em http://anitube.xpg.uol.com.br/video/42986/Millennium-Actress-Filme, com legendas em português.

Da Wikipedia: Satoshi Kon (今敏), Kushiro, 12 de outubro de 196324 de agosto de 2010). Foi diretor e roteirista dos filmes de animação Perfect Blue (1997), Millenium Actress (2001), Tokyo Godfathers (2003), e Paprika (2006). A maioria de suas obras era animada pelo estúdio Madhouse, no qual ele fazia oficialmente parte da equipe como diretor, junto de Rintaro e Yoshiaki Kawajiri. Mas diferente dos outros diretores, ele apenas dirigia filmes dos quais ele mesmo criou. Seus filmes se destacam pela complexidade psicológica, personagens e planos de fundo realísticos, e a distorção do sonho e da realidade.

Deixou uma belíssima carta de despedida pouco antes de sua morte, vítima de um câncer pancreático.

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