25 de junho de 2026

Vivian Jenna Wilson no espelho deformado do muskismo, por Fábio de Oliveira Ribeiro

A briga entre Vivian Jenna Wilson e o pai parece ser capaz de ofuscar aspectos muito mais importantes da atuação do controvertido dono da Tesla.

Vivian Jenna Wilson no espelho deformado do muskismo

Siga o Jornal GGN no Google e receba as principais notícias do Brasil e do Mundo

Seguir no Google

por Fábio de Oliveira Ribeiro

Ser ou não ser um bom pai é um assunto privado. Os conflitos familiares, entretanto, podem exigir algum tipo de interferência do poder público. Quando tem que julgar disputas entre pais e filhos, o Poder Judiciário deve aplicar a legislação pertinente preservando as partes envolvidas mediante o segredo de justiça. O sigilo dos atos processuais nesses casos, aliás, é obrigatório (art. 189, II, do CPC).

A espetacularização de um conflito familiar é algo deprimente. Mas isso se tornou uma prática corriqueira. Nesse sentido, a briga entre Elon Musk e sua filha é apenas e tão somente uma versão norte-americana do conflito entre Brizola e Neusinha Brizola.

A política sempre gostou desse tipo de confronto. A história e a literatura também. Júlio César esfaqueado pelo filho adotivo Brutus é uma cena histórica tão comovente e politicamente poderosa quanto o trágico assassinato de Laio por seu filho Édipo. Não por acaso, Freud usou Édipo para tentar entender, descrever e tratar um complexo que afetava seus pacientes masculinos.

Sistema de poder caracterizado por um esvaziamento da política e a consequente submissão do interesse público ao lucro privado, o  neoliberalismo parece ter uma predileção por conflitos como este protagonizado por Elon Musk. Brigas familiares espetacularizadas têm o poder de atrair a atenção da população e mobilizar a nova esquerda. Isso além de reforçar o status de macho terrível cheio de testosterona de um fanfarrão vazio que invadiu a arena pública. A briga entre Vivian Jenna Wilson e o pai parece ser capaz de ofuscar aspectos muito mais importantes da atuação do controvertido dono da Tesla.

Elon Musk fomentou um golpe de estado na Bolívia e se vangloriou publicamente de ter feito isso. A ganância dele por lucro causou dezenas de bolivianos mortos e centenas de vítimas gravemente feridas.

As relações amistosas entre o dono da Space X e os Bolsonaro também produziram uma tragédia no Brasil. Primeiro, Musk forneceu Starlink para os bandos de garimpeiros e jagunços. Depois ele comprou ouro extraído ilegal e criminosamente de territórios indígenas com o emprego de violência extrema contra os índios. As crateras abertas na Amazônia e a poluição dos rios amazônicos com mercúrio são testemunhos eloquentes de que o compromisso da Tesla com a preservação da natureza é apenas retórico.

No Brasil e na Bolívia o papai de Vivian Jenna Wilson tem sangue nas mãos. Mas a imprensa parece muito mais inclinada a condená-lo e ridicularizá-lo porque ele abandonou a filha e atacou a escolha sexual dela. Isso me parece muito inadequado. Não seria melhor os blogues de esquerda deixarem pai e filha de lado se concentrando num assunto mais importante do ponto de vista político?

É impossível, por exemplo, deixar de notar algo importante nesse episódio familiar/midiático. Ao criticar o pai, a filha de Elon Musk não mencionou as peripécias sangrentas dele na Bolívia e no Brasil. A vida sexual ou familiar dela é mais importante do que as vidas dos bolivianos e índios brasileiros que foram sacrificados no altar do deus dinheiro que o dono da Tesla ergueu na América Latina com ajuda da familícia Bolsonaro? Eu suponho que não. E vocês?

A função do jornalismo é espelhar a realidade em toda sua complexidade. Mas nesse caso a imprensa refletiu apenas a imagem de uma filha abandonada e humilhada por alguém cujos crimes seguem sendo tratados como danos colaterais irrelevantes dos negócios neoliberais como de costume. Isso me parece inadmissível… e preocupante também.

Esse jogo de mostrar problemas familiares e esconder tragédias políticas provocadas pelo absolutismo financeiro/econômico apenas beneficia Elon Musk e a estrutura de poder que ele representa e se esforça para preservar. O relacionamento dele com a filha pode até ser cheio de incômodos e decepções, mas nunca será mais dramática e trágica do que as vidas familiares que o muskismo destruiu em dois países para Elon Musk ficar mais rico e poderoso.

Fábio de Oliveira Ribeiro, 22/11/1964, advogado desde 1990. Inimigo do fascismo e do fundamentalismo religioso. Defensor das causas perdidas. Estudioso incansável de tudo aquilo que nos transforma em seres realmente humanos.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

“Democracia é coisa frágil. Defendê-la requer um jornalismo corajoso e contundente. Junte-se a nós: www.catarse.me/jornalggn

Fábio de Oliveira Ribeiro

Fábio de Oliveira Ribeiro, 22/11/1964, advogado desde 1990. Inimigo do fascismo e do fundamentalismo religioso. Defensor das causas perdidas. Estudioso incansável de tudo aquilo que nos transforma em seres realmente humanos.

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Mais lidas

As mais comentadas

Colunistas

Ana Gabriela Sales

Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

Camila Bezerra

Graduada em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela Universidade. com passagem pelo Jornal da Tarde e veículos regionais. É...

Carla Castanho

Carla Castanho é repórter no Jornal GGN e produtora no canal TVGGN

...

Faça login para comentar ou registre-se.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Recomendados para você

Recomendados