4 de junho de 2026

Histórias da engenharia militar brasileira, por Luís Nassif

E quando leio que as Forças Armadas brasileiras transitam suas informações pelos satélites de Elon Musk, dá um desânimo danado.
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Tive meu primeiro contato com o tema nuclear já trabalhando no Jornal da Tarde, no início dos anos 80. A revista Nova, da Editora Abril, me encomendou um trabalho sobre o acordo nuclear. Pesquisei no ótimo Departamento de Documentação do Estadão e levantei quase cem artigos sobre o tema. Estudei durante uma semana para o artigo. 

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Pouco depois, o então repórter Paulo Andreoli, do Estadão, publicou artigo sobre a venda de plutônio brasileiro para o Iraque. Dava detalhes, inclusive, do vôo que transportou a mercadoria, saindo de São José dos Campos. 

Por aqueles tempos, o Estadão atravessava sua pior fase. Com a construção da sede, o jornal entrou em crise financeira. A direção foi assumida por Miguel Jorge, antigo jornalista da casa, e Júlio Cesar Mesquita, filho de Júlio Mesquita Neto, e o menos preparado da sua geração. 

A reportagem provocou uma série de matérias ironizando o Estadão. Lembro-me especialmente da revista Veja que, pouco antes, fizera nota sobre o necrológio de um cavalo, que saiu na seção de mortes do Estadão, cujo titular era o insigne editor Toninho Boa Morte – como era tratado.. Na Folha, a pancadaria veio de José Nêumane, repórter talentoso, que havia começado quase na mesma época que eu no jornalismo. 

No Estadão, o clima ficou horroroso. Era toda a imprensa caçoando de um jornal centenário, sem estrutura sequer para se defender. Eu tinha bom contato com a fonte original da notícia, Bernardo Kucinski, correspondente do The Guardian, e repórter de alta credibilidade, que me confirmou a operação. 

De manhã, tínhamos reunião de pauta com Ruizito Mesquita, herdeiro de Rui que representava a família na redação do JT. Terminada a reunião disse-lhe para conversar com seu tio, Júlio Neto. Se quisesse, poderia calar as críticas com um artigo apenas. 

Fui autorizado, escrevi o artigo, devolvendo todas as ironias que os demais veículos tinham despejado sobre o Estadão, ao apontar as inconsistências técnicas das suas críticas. O Estadão chamou o físico José Goldenberg para analisar. Ele perguntou se o artigo tinha sido escrito por algum físico, o que me deixou realizado. 

O trabalho que fiz, me ajudou a identificar as melhores fontes do setor. Na época, o acordo nuclear com a Alemanha fizera água, quando o governo Geisel constatou que o Brasil teria que financiar totalmente um novo método de enriquecimento de urânio, o chamado jett nozzle. 

Seguiu-se uma enorme discussão sobre os caminhos que o país deveria trilhar. Goldenberg, através da SBPC (Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência) defendia o sistema de água pesada, adotado pela Argentina. 

A Marinha já tinha começado a estudar o sistema de ultracentrífugas, desenvolvido pelo gênio do Almirante Othon. Havia entrevistas a granel com Goldenberg, com Luiz Pingueli Rosa, do COPPE. Mas a mais completa era de Rex Nazareth, dada para a Folha. Formado na Sorbonne, atuou na  Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN), como presidente e diretor-executivo. Era apenas uma entrevista, mas com mais conteúdo que a soma das demais. 

Nos anos seguintes, constatou-se cabalmente o acerto da escolha da Marinha.  

Nos anos 90, decidi conhecer Rex Nazareth. Ele estava dirigindo o Instituto Militar de Engenharia, na Praia Vermelha. Foi uma viagem duplamente reconfortante. Primeiro, por conhecer o campus onde meu pai tinha registrado seu diploma de farmacêutico, nos anos 30. Depois, conhecer pessoalmente o grande Rex Nazareth. 

Lá, fui apresentado a um mundo fantástico de inovações tecnológicas. O IME já trabalhava no desenvolvimento de drones, em equipamentos que permitiam captar movimentos em rios e escavações de terras – ótimo para presídios ou rios do Amazonas. 

Mas, para minha absoluta surpresa, Nazareth veio me indagar como poderia sensibilizar alguém do governo para os produtos que estavam sendo desenvolvidos. Era inacreditável a incapacidade do Estado brasileiro de fazer circular as informações internamente. 

Nos anos seguintes, tornei-me um apaixonado pela tecnologia militar. Montei seminários sobre o tema. Com o Almirante Allan Arhur chegamos a planejar uma maneira de convencer o governo FHC a unificar os institutos militares, de maneira a permitir uma interação e aproveitamento maior das pesquisas. 

Guardo com carinho condecorações que recebi da Marinha, da engenharia do Exército. E a decepção com o pouco espaço que os técnicos militares tinham nas respectivas forças.  E quando leio que as Forças Armadas brasileiras transitam suas informações pelos satélites de Elon Musk, dá um desânimo danado.

Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

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13 Comentários
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  1. fabricio coyote

    1 de setembro de 2024 7:51 am

    Iraque faz parte da Ásia? Ou Arábia Saudita?

    1. Emerson

      1 de setembro de 2024 11:01 am

      Faz, sim, Fabrício, Oriente Médio faz parte da Ásia, até Israel.

      1. fabricio coyote

        1 de setembro de 2024 10:09 pm

        De fato. Dali em diante é o Extremo Oriente.

        1. Benedito

          2 de setembro de 2024 6:00 pm

          Hoje se prefere a denominação Ásia Oriental, Ásia Central e Ásia Ocidental (que seria o antigo Oriente médio). As denominações Oriente Médio e Extremo Oriente são por demasiado eurocêntricas e orientalistas.

      2. Kairuz

        5 de setembro de 2024 11:14 am

        não, ‘israel’ já foi parte da Europa Oriental e atualmente é um estado dos EUA.

  2. Marcus

    1 de setembro de 2024 7:57 am

    Senhor Nassif, bom domingo.
    O nosso país está coalhado de traidores. Estão em muitos lugares,em todos os órgãos e poderes. Há também os que não são servidores públicos, na classe média, enfim perpassando todo o tecido social da nação. Ocorre que não possuímos legislação sobre o tema, fato que permite aos traidores permanecerem em traição contínua e confere aos mesmos a aura de inocência,pois não há tipificação. Muito do que tem acontecido por aqui, seria considerado traição diante das leis e práticas dos EUA, só para exemplificar. É só lembrar de Snowden,o soldado que foi preso , e o Assange que sem ser cidadão do EUA, é tratado como traidor. A prisão do almirante Othon , também parece traição. E o que mais dói é vermos que é por dinheiro.

  3. evandro condé

    1 de setembro de 2024 8:39 am

    1) Não é desenvolvimento tecnológico, mas na ditadura o reitor da UNB era um militar com doutorado em física.
    2) Quanto de urânio enriquecido as centrífugas já produziram? Por enquanto 60% das necessidades de Angra 1. Não já era tempo de termos, ao menos, já atendermos nossa demanda?

  4. Pedro

    1 de setembro de 2024 12:31 pm

    O gigante covarde que se sujeita a viver de gorgeta e vive escondido. Gosraria de governar o Brasil por 10 anos para mudar a essa imensa nação

  5. José de Almeida Bispo

    1 de setembro de 2024 5:59 pm

    Rsrsrsrsrs. Deveras desanimador que as forças pagas com nosso suor para nos defender e colocar o país na dianteira não tenham qualquer remorso em serem supervisionadas pelo adversário, que pode virar inimigo a qualquer instante.

  6. ed.

    1 de setembro de 2024 9:03 pm

    Apenas para falar entre os mais recentes, os Fernandos Collor e Cardoso, Temer e Bolsonaro (sem falar da ditadura e da míRdia), não é difícil entender o braZil apenas como um “cool de mother Joanne”. Não é culpa dos estrangeiros mas nossa, de não conseguirmos nos desvencilhar de nossos capatazes e corretores pátrios. Em breve as top 3 economias do pódio mundial serão China, EUA e India. Nós que poderíamos estar lá ou pelo menos em quarto, continuamos presos em discussões cloroquínicas e intensas discussão bo-çais…

  7. ed.

    1 de setembro de 2024 9:27 pm

    Sim, precisamos ter uma legislação de soberania nacional (e não a ridícula LSN da ditadura que não deixava falar mal do “presidente” ou a Abin: “Arapongagem BraZileira Interna”). O conceito de “traição da pátria” inexiste na prática em terras pindorâmicas. Aqui até procuradores sem procuração se submetem a instituições estrangeiras para sabotar e destruir o país, suas empresas e instituições. No Reino Unido, um ministro da DEFESA (Profumo) caiu e foi limpar banheiros por ter uma amante que também o era de um estrangeiro. Ou o casal Rosemberg executados nos EUA. Aqui prendem um Almirante herói da pátria e deixam outro, contrabandista de jóias solto, junto com oficiais generais golpistas e incompetentes até em suas “especialidades” como logística que contribuiu para dezenas ou centenas de milhares de mortes. E nós até os elegemos!

  8. grevista

    2 de setembro de 2024 11:42 am

    Luiz Alberto Muniz Bandeira explica nossas relações militares em seus livros enfocando a relação dos Estados Unidos com o Brasil (na Inconfidência Mineira já estavam; em 1817 em Pernambuco; em 1932, idem) e da Alemanha com o Brasil. Talvez, pelo menos de meu conhecimento, são as melhores descrições. Mas a biografia de Lott (um excelente texto) também auxilia bastante nessa compreensão. De outro lado, você não falou dos tanques brasileiros que lutaram na guerra Irã-Iraque, pelo lado do Iraque, das relações Brasil-Iraque e o envolvimento da ditadura de João Batista e os Mendes Júnior com o Iraque de Saddan. Mas, por fim, vale dizer que a Engenharia brasileira é a principal vítima dos (profissionalmente) dos tempos neoliberais. As empresas privatizadas na siderurgia, na geração, transmissão e distribuição de energia elétrica, e nas telecomunicações eram empresas de engenharia. Ao lado dessas empresas, havia um sem número de consultorias de engenharia. Tudo foi-se. Tornamo-nos o país de advogados, administradores e economistas. Foi eleito um novo preidente do Clube de Engenharia. Vale a pensa entrevistá-lo. O contraponto é o CONFEA e sua absoluta inutilidade.

  9. John Gaunt

    2 de setembro de 2024 1:57 pm

    Por razões óbvias, com todo o respeito que devo ao ilustríssimo Nassif, serei obrigado a satirizar a matéria: É a primeira vez que vejo aqui no GGN uma matéria cujo conteúdo inteiro seria classificável como OXÍMORO…
    Como é possível contar histórias sobre algo que – sequer como objeto de realismo-fantástico – jamais pode existir?
    Me sinto como um personagem de Grant Morrison em ‘Os Invisíveis’ ou ‘Patrulha-do-Destino’: – O título da matéria é tão absurdo que a mesma não pode existir!
    (O que vem agora? ‘A Inteligência Militar’? ‘O Patriotismo das FFAA’? Parem o mundo, eu preciso descer…)

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