4 de junho de 2026

A perseguição aos bons e o caso Glauber Braga, por Dora Incontri

Sacrificamos e cancelamos os melhores, por suas fraquezas, e mantemos os piores, com seus crimes, na liderança hipocritamente moralista.

A perseguição aos bons e o caso Glauber Braga

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por Dora Incontri

A recente e injusta perseguição ao deputado Glauber Braga, com a ameaça de sua cassação política me leva a propor uma questão crucial, filosófica, política, social… Por que um certo deputado, numa cena dantesca no Congresso Nacional, num golpe contra uma mulher honesta, citou e elogiou o torturador desta mulher, e não foi cassado – como deveria por lei por fazer apologia à tortura – e recebeu uma cusparada indignada de um Jean Wyllys, que teve depois que se exilar? Esse dito deputado, de quem nunca cito nome, tornou-se depois presidente do Brasil, responsável por milhares de mortes durante a pandemia, por sua negação da vacina, envolvido com roubo de joias e tentativa de golpe de Estado e continua livre e solto por aí… enquanto Glauber, um deputado que luta por boas causas populares, de peito aberto, ao lado de sua companheira, a também deputada Sâmia Bomfim, está para ser expulso desse mesmo Congresso?

Por que um Sócrates foi condenado a beber cicuta, Jesus foi crucificado, Gandhi, Martin Luther King e Malcolm X foram baleados e tantos trastes continuaram semeando suas injustiças mundo afora?

Seria esse mundo sempre palco da vitória dos injustos, dos violentos, dos que exercem um poder corrupto e opressor? E a perseguição, o martírio mesmo, seria apenas o prêmio dos que lutam por um mundo melhor?

Não significa isso que possamos dividir a humanidade de forma maniqueísta entre bons e maus. Todos somos humanos e temos nossas luzes e nossas sombras – embora em alguns precisemos procurar com lupa alguma réstia de luz escondida. Mas há sim um lado certo da história, o lado dos que se empenham em transformar a sociedade num lugar melhor de se viver, o lado dos que trabalham por causas justas, fraternas, libertárias… e há os que se colocam como parasitas, dominadores, opressores. Não significa que os que estão do lado certo sejam isentos de enganos e sombras. Não há pureza neste mundo, no sentido absoluto do termo. E, às vezes, sacrificamos e cancelamos os melhores, por suas fraquezas humanas, e mantemos os piores, com todos os seus crimes, na liderança hipocritamente moralista.

Há um trecho do Livro dos Espíritos, de Allan Kardec, que trata justamente deste tema, na questão 932:

 “Por que, neste mundo, os maus exercem geralmente maior influência sobre os bons?

– Pela fraqueza dos bons. Os maus são intrigantes e audaciosos; os bons são tímidos. Estes, quando quiserem, assumirão a preponderância.”

Há uma apatia dos que são levados pelos intrigantes e audaciosos e às vezes até uma admiração pelo poder que oprime, uma submissão servil da maioria aos piores. Ao mesmo tempo, há uma inveja dos bons. Melanie Klein, a grande psicanalista que inspirou outro grande psicanalista, Winnicott, dava uma definição perfeita sobre a inveja – como o ódio do que é bom. Por isso, o povo escolheu Barrabás e não Jesus, a democracia grega condenou Sócrates e os próprios hindus mataram Gandhi.

Assim, é preciso trabalhar na base da sociedade, através de uma educação emancipadora e não modeladora para o mercado e através do acesso democrático à possibilidade de análise e terapia. E que se desperte com isso nas pessoas desde cedo a coragem, a autoestima, a consciência e, portanto, a capacidade de tomar a história nas mãos, para construirmos outros cenários para o mundo.

Entretanto, é preciso acrescentar a estas reflexões um dado muito objetivo desta apatia dos bons. Estamos mergulhados num cotidiano que nos massacra, neste sistema do capital, a que somos obrigados servir, para sobreviver. Não nos sobra tempo para pensar, criticar, analisar, agir, nos revoltarmos. Não sobra energia para vivermos. Então, os mais conscientes limitam-se a compartilhar em seus stories do Instagram um meme de “Glauber fica”, porque não há tempo e espaço para mobilização. Pelo menos vimos a presença maciça no Rio de apoiadores do deputado em questão, com a fala guerreira, límpida e forte da querida Erundina. Mas tudo é muito fragmentado e impotente, num mundo em que vivemos mais no virtual do que no real e em que as massas são cooptadas pela mídia corporativa, pelas Fake News, pelas religiões fundamentalistas…

Veja-se a catástrofe do clima, das queimadas, do calor insuportável, da secura asfixiante e da apatia dos povos em relação a essa crise trágica que nos impede de respirar. O quanto de luta e mobilização vemos no mundo? Estamos adormecidos, escravizados ao sistema, hipnotizados pelas big techs

Acordemos! Rápido! Antes que seja tarde!

Dora Incontri – Graduada em Jornalismo pela Faculdade de Comunicação Social Cásper Líbero. Mestre e doutora em História e Filosofia da Educação pela USP (Universidade de São Paulo). Pós-doutora em Filosofia da Educação pela USP. Coordenadora geral da Associação Brasileira de Pedagogia Espírita e do Pampédia Educação. Diretora da Editora Comenius. Coordena a Universidade Livre Pamédia. Mais de trinta livros publicados com o tema de educação, espiritualidade, filosofia e espiritismo, pela Editora Comenius, Ática, Scipione, entre outros.

Conexões – espiritualidade, política e educação - Dora Incontri

Dora Incontri é paulistana, nascida em 1962. Jornalista, educadora e escritora

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