Coube a Eduardo Luiz Zen, é doutor em sociologia pela Universidade de Brasília (UnB) e pesquisador do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), o melhor estudo até agora da natureza do governo Lula.
Em vez de perguntar em que momento o PT “traiu” suas origens radicais, o artigo inverte a pergunta — busca nas próprias matrizes fundadoras do partido os elementos que já anunciavam sua futura acomodação neoliberal ou social liberal. Longe de ser uma traição a um passado radical, a adesão petista à ordem liberal é apresentada como resultado direto das matrizes fundadoras do partido, que substituíram a transformação estrutural pela gestão de vulnerabilidades sociais.
Em geral, a literatura costuma apontar três matrizes principais na formação do PT: o novo sindicalismo do ABC; a esquerda católica ligada à Teologia da Libertação e a intelectualidade paulista, às quais ser somaram egressos da luta armada, organizações trotskistas e novos movimentos sociais.
O autor argumenta que, com o esvaziamento da classe operária pela desindustrialização, o partido incorporou os sujeitos das reformas estruturais sem incorporar as próprias reformas — sem-terra sem reforma agrária, moradores de periferia sem reforma urbana, sindicatos sem universalização do trabalho protegido, grupos discriminados sem democratização do poder econômico. O reconhecimento identitário passou a ocupar o lugar das reformas ausentes.
A força e a perenidade do neoliberalismo brasileiro, segundo o autor, explicam-se também por meio do PT. Lula não apenas administrou a ordem recebida, mas ajudou a construí-la e a revesti-la de legitimidade popular. A bandeira vermelha funcionou como parte do próprio mecanismo que permitiu ao neoliberalismo governar pela esquerda sem ser reconhecido como tal. O lulismo não traiu suas raízes, como pretendem os críticos à esquerda, mas foi a síntese delas.
De fato, o sindicalismo do ABC foi montado nas negociações com multinacionais, tendo como modelo a ser perseguido a, hoje extinta, social democracia alemã, com sindicatos participando do capital das empresas, mas sem afrontar os alicerces principais do modelo, nem para acelerar reformas incorporadas ao capitalismo, como a reforma agrária e os grandes temas da reforma urbana. Não ousou sequer confrontar os pilares da política monetária e cambial.
Graças a esse modelo, impediu-se o país de ter sido tomado pela ultradireita selvagem. Mas, por outro lado, emperrou qualquer veleidade de crescimento com inclusão social, de planejamento do crescimento, de política industrial, de modernização das relações trabalhistas.
Mas confirma a sensação atual, de esgotamento do modelo pós-Constituinte. O grande tema em discussão será sobre os novos caminhos a serem percorridos por uma Nação ainda sem rumo. E sobre a relevância de juntar a inteligência nacional em cima de Planos de Metas.
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Eduardo Pereira
3 de agosto de 2026 8:28 amE o movimento sindical e estudantil e a intelectualidade do Rio não ajudou a fundar o PT? Eu tava la e vivi. Não e discutir o estado onde surgiu, mas as forças politicas que ele juntou a sua volta. Na época da fundação do PT, o MDB era quem mandava, um verdadeiro abrigo prum monte de organização de esquerda . . E esqueceram do Brizola, que batalhou muito pra inviabil\ar o PT. O autor deve ser novo. Estudou, mas não viveu a época, logo as perspectivas são diferentes
JUZÉdarcyfreudmiltonda Silva
3 de agosto de 2026 8:50 amIsto rudo sob a batuta da regente FINANCEIRIZACAO e dos grupos dominantes ultracapitalizados selvagens q arrassam as economias selvagemente submetendo setores e sistemas públicos de governança aff
Pedro Rocha
3 de agosto de 2026 9:10 amSempre impressionante o esforço retórico a fim de desculpar e perdoar o Lula e seu grupo de todo e qualquer erro que cometeu. É verdade que não houve traição porque nunca foi um estadista, alguém imensamente capaz de veicular uma idéia-força estruturante, aprovar leis e regras que reorganizam a dinâmica do jogo. No entanto também é verdade que carregam consigo uma enorme responsabilidade histórica com quem sempre os elegeu, as forças de esquerda. Toda esse imenso apoio popular que herda das forças populares para que mude (AO MENOS UM POUCO!) o sistema termina tão logo o declaram vencedor, é chocante. Aos pobres e miseráveis continuamos na mesma: matamos mais ou menos sua fome, continuamos a submetê-los a péssimas condições de moradia, educação, saúde, transporte, lazer, diversão etc.
Paulo Dantas
3 de agosto de 2026 12:38 pmDesde que Lula surgiu este “dotô” do sudeste , uninumseioque tentam dizer o que ele deve ser.
Bem faz Lula que (@6@ para este povo.
Eduardo Pereira
3 de agosto de 2026 4:51 pmQue confusão; Traduz pro Portugues. Não entendi nada fora o ultimo comentário,
Paulo Motta
4 de agosto de 2026 8:20 amFicou mesmo :
Desde que Lula surgiu estes doutores do sudeste , “universidade de não sei onde” tentam dizer o que ele deve ser ou fazer.
Uma arrogância sem par, sendo que quem ganha as eleições é ele.
Bem faz Lula que os ignora.
Alexandre de melo
3 de agosto de 2026 8:39 pmÉ tão verdade que nas cinco indicações ao BC Lula indicou somente pessoas ligadas aos rentistas. E depois reclama da Selic.
cezarperin
4 de agosto de 2026 8:00 amO PT é fruto de sua época.. Por isso uma certa distância com o Brizolismo
Antonio Uchoa Neto
4 de agosto de 2026 11:01 amA partir do momento em que Lula e o PT não só aceitaram, mas mergulharam de cabeça, na farsa da democracia representativa, encenada em país pobre, deveriam ter consciência de que a única alternativa de ação política seria a política da migalha (Marcos 7:24-30), e, uma vez esgotado mesmo esse caminho, o reformismo liberal, só possível sob cabresto. Agora é tarde.
J. Alberto
4 de agosto de 2026 6:52 pmBom, já que tenho que comprar o livro pra descobrir a justificativa do título do artigo, então dou meu palpite:
No filme do Lula existem duas cenas que passam uma mensagem explícita de que o mesmo não gosta de radicalismos de esquerda nem de direita.
Agora some a isso sua entrada no sindicato. Enquanto o irmão comunista luta por uma guinada na entidade, Lula entra pela porta da frente após conhecer o presidente em exercício.
Parabéns ao autor por seu trabalho, porém se os comentários estão abertos, então não vejo motivo para não abordarmos as justificativas abertamente.
Veritas
5 de agosto de 2026 5:48 pm“substituíram a transformação estrutural pela gestão de vulnerabilidades sociais”. As estruturas sociais são mudadas quando se muda a mentalidade própria, ou seja, cada um buscar eliminar seus vícios, maldades e sabotagens a cada instante, obedecendo o que diz a consciência própria e corrigindo-se. O lema é realizar o bem , o belo e o verdadeiro e não seguir os erros e atitudes demoníacas repetidas cegamente, cotidianamente. Vivemos em um Reinado Divino, só que damos as costas a este Paraíso interno e externo. Viver o Paraíso interior e exterior através de atos puros, sem negá-los, distorcê-los ou pervertê-los, é a grande mudança que precisa ser feita por cada um de nós todos os dias. Não é o capitalismo de estado nem o capitalismo privado , ambos para poucos, que nos levará ao Paraíso que está logo ali e sempre sonhamos e sabemos ser necessário neste mundo sombrio atual, onde os conflitos se multiplicam juntamente com a decadência e o sofrimento de todos.
Bruno
9 de agosto de 2026 9:48 amEnquanto não houver CORAGEM para revogar a “carta aos brasileiros” e desfazer isto abaixo, NADA MUDARÁ:
“O nó da questão é o estoque de uma dívida pública federal que sequer teria existido se os sucessivos governos, a partir de 1.999, quando era presidente Fernando Henrique Cardoso, e tendo Armínio Fraga à frente do Banco Central, tivessem separado as funções clássicas do Bacen das do Tesouro.
O expediente consistiu em trocar a LBC (Letra do Banco Central) pelos títulos federais, LFT e LTN, indexadas pela Selic, e usar estes últimos como base de operações no mercado aberto. O Tesouro acumulou a dívida que está aí. O Bacen se limitou a fazer política de controle de liquidez, comprando ou vendendo títulos.
Fernando Henrique é um sociólogo que não sabe nada de economia, mas Armínio Fraga é um expert em finanças.”
Ricardo Fernandes
9 de agosto de 2026 1:56 pmO Lula e o PT evitaram a ultradireita mas emperraram qualquer veleidade de crescimento com inclusão social, de planejamento do crescimento, de política industrial, de modernização das relações trabalhistas? Não dá pra dizer qual parte está mais errada (começando pelo fato de a ultradireita ter vencido em 2016 e permanecer como ameaça). Mais uma tentativa de “explicar” o Lula pela “academia”, como se o Lula e o PT fossem uma esfinge a ser decifrada por sábios eleitos por outros sábios. Um exercício em irrelevância… no mínimo.