4 de junho de 2026

“Esperava que ele fosse um filósofo, não um maluco”, diz conterrâneo de homem bomba

De família financeiramente estruturada e irmãos petistas, Luiz era visto como gente boa; radicalização teve início quando se lançou candidato a vereador pelo PL
Crédito: Reprodução/ Redes Sociais

A cidade de Rio do Sul, em Santa Catarina, ainda não acredita que Francisco Wanderley Luiz, de 59 anos, mais conhecido como Tiu França, foi capaz de atentar contra o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF) e, ao perceber que não conseguiria, tirar a própria vida. 

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“O que eu tenho de lembranças contradiz as notícias que saíram aí e o que eu vejo vendo as fotos dele”, afirma o escritor, tradutor e editor Salvio Kotter, conterrâneo de Luiz. 

O escritor lembra que, quando conheceu Tiu França, ainda na adolescência, ele era um menino quieto e muito compenetrado. “Estudei com a irmã dele tanto na fase do segundo grau quanto na faculdade. A gente fazia trabalhos juntos. Então, eu frequentava a casa dele com uma certa assiduidade durante um período”, lembra o escritor. 

“Não lembra nem de longe essa figura que vi nas fotos agora, com o olhar esbugalhado, uma pessoa aparentemente afetada”, acrescenta.

Segundo Kotter, Francisco nasceu em uma família de classe média um pouco mais alta que a média da cidade. A família tinha uma discoteca no subsolo do prédio onde morava, frequentada pela juventude da cidade.  

Ainda que não fossem próximos, porque Francisco Luiz era uma pessoa “mais na dele”, o escritor jamais relacionaria o rapaz a um atentado antidemocrático. “Esperaria que ele tivesse virado um filósofo, não um maluco.”

Petistas

Kotter relata ainda que a família Luiz era bem situada financeiramente, porém ele nunca conheceu os pais do ex-candidato a vereador que se lançou pelo PL. 

Entre os irmãos de Francisco, aliás, havia petistas roxos, como o irmão mais velho. Já a irmã iniciou a fundação, junto com Kotter, do primeiro diretório municipal do PT em Rio do Sul ainda na década de 1980.

Mudança

Chaveiro, Francisco Luiz ainda tinha um bar, estabelecimento que estava longe de ser um reduto de conspiração bolsonarista. “Se fosse para relacionar qualquer pessoa que eu conheço, jamais iria relacionar a ele um atentado desses”, continua o escritor. 

No entanto, Kotter acredita que o clima da cidade tenha influenciado o chaveiro. Ainda que Rio do Sul tivesse um prefeito petista na década de 1990, a cidade hoje, segundo o escritor, se radicalizou a ponto de 80% do eleitorado apoiar o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). 

No século passado, a cidade catarinense, composta por descendentes de alemães e italianos, também teve o segundo maior partido nazista do país. 

Polarização

Também conterrâneo de Francisco Luiz, Luis Carlos Nienkötter afirma que a cidade de Rio do Sul está chocada com o ato do ex-vereador do PL, primeiro pela coragem de atentar contra o Estado e por fim à própria vida. 

“Sempre foi uma pessoa agradável, solícito, aquele cara gente boa da cidade”, resume Nienkötter. 

O conterrâneo comenta que a mudança de Luiz teve início na eleição de 2020, quando Tiu França disputou uma vaga na Câmara.

“Ele customizou uma bicicleta, customizou um carro. Era fora do padrão de pedir voto, totalmente fora do padrão de pedir voto. Andava a cidade toda de verdade e amarelo, bem desproporcional do contexto de um candidato a vereador”, continua Nienkötter. 

“Dali já se via que ele incorporou esse personagem e descaracterizou o que ele já tinha sido”, emendou.

Apesar de pacata e pequena, em que todos se conhecem, Rio do Sul virou um centro bolsonarista em que muitos munícipes usam tornozeleira eletrônica e são investigados por financiamento e participação nos atentados de 8 de Janeiro. 

“[Francisco] Queria ser um mártir, chamar a atenção para que o Brasil fizesse um movimento contrário [ao governo Lula]. Ele veio de família tradicional, tinha um irmão muito conhecido na cidade, nada a ver com o perfil do que ele se tornou”, finaliza Nienkötter.

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Camila Bezerra

Graduada em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela Universidade. com passagem pelo Jornal da Tarde e veículos regionais. É repórter do GGN desde 2022.

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Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

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4 Comentários
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  1. Fábio de Oliveira Ribeiro

    14 de novembro de 2024 8:47 pm

    O jericobomba agiu sozinho, mas foi convencido de que fazia parte de um imenso movimento. Os parceiros imaginários dele são paradoxalmente reais: mídia, Big Techs, Bolsonaros, militares e PGR omisso.
    O fato da Folha ter dado voz e visibilidade ao capitão inelegível golpista dias antes do atentado certamente fez o jericobomba acreditar que ele estava empoderado. Isso não pode ser esquecido.

    1. GalileoGalilei

      15 de novembro de 2024 5:02 pm

      Bem lembrado o artigo publicado três dias antes, na Folha de S. Paulo, pelo ex-presidente fazendo-se de vítima. Se por algum momento, o Tiü-zão da bomba pudesse ter tido alguma hesitação em seus intentos, a leitura do artigo certamente lhe deu o impulso que lhe faltava. A responsabilidade da Folha precisa ser cobrada e não pode ser minimizada.

  2. Jairinho Junior

    14 de novembro de 2024 9:06 pm

    SIMPLES:
    #elesNÃO

  3. Fábio de Oliveira Ribeiro

    15 de novembro de 2024 6:46 am

    Não é difícil entender a relação de causa e efeito entre o programa político colocado em marcha pelo capitão inelegível golpista e o atentado do jericobomba em Brasília. A questão agora é responsabilizar o mandante do suicídio bombástico que foi cometido.
    https://youtu.be/CoQDRMiV3Hs?si=TYKLt3aWcokYryFL

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