4 de junho de 2026

Gisèle Pelicot – Um caso para não esquecer, por Camila Koenigstein

Exemplos como o de Gisèle Pelicot mostram que o silêncio já não é uma opção. Que a indignação é uma ferramenta potente
Reprodução vídeo

Gisèle Pelicot – Um caso para não esquecer

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por Camila Koenigstein

Há quase cinco anos escrevi meu primeiro artigo para o Jornal GGN, e o tema era: “As mulheres e a pandemia uma reflexão sobre a violência”. Naquele momento, muitas mulheres estavam sofrendo violência doméstica em decorrência do isolamento, o que de certa forma obrigava que políticos de diversos países buscassem medidas que pudessem facilitar as denúncias. Nesse período, na América Latina, as mulheres enfrentavam uma pandemia paralela, pois, além do medo do contágio, vivenciavam o pânico de ficar confinadas em casa e sofrer alguma espécie de abuso.  

“Na América há uma ascensão de mortes alarmantes. Só na Argentina, nos dez primeiros dias de quarentena foram registrados doze feminicídios, e tal número não é um caso isolado dentro do continente.”

A pandemia, de certo modo, revelou o lar como lugar de opressão e mostrou que, independentemente da classe social, a violência faz parte da esfera mais íntima da vida das mulheres. 

Passados quase cinco anos, pouco ou nada mudou em relação aos índices de violência. No entanto, o que notamos foi o número de mulheres que começaram a relatar, principalmente nas redes sociais, os variados tipos de agressão que sofrem diariamente e como de alguma maneira a sociedade ainda trata com naturalidade o problema.

Neste último ano, houve uma enxurrada de denúncias, mas, como de costume, a responsabilidade recaiu sobre os ombros femininos. Na Argentina, o ex-presidente Alberto Fernández foi indiciado em agosto por ameaças e ferimentos graves contra a ex-primeira-dama Fabiola Yáñez. Ela expôs todas as faces ocultas de um homem que no período da pandemia chegou a aparecer publicamente para defender medidas que visavam proteger as mulheres argentinas. Golpes, insultos, ameaças faziam parte da vida diária de Fabíola, porém, na bolha das redes sociais, milhares de pessoas, por razões políticas ou visões distorcidas, duvidavam do que ela relatava, ainda que não faltassem provas. 

Conforme documentos judiciais, os episódios de violência ocorreram entre 2021 e 2022, quando Yáñez teria sido coagida a não denunciar os abusos. Fotos que mostram hematomas e trocas de mensagens entre o casal foram encontradas no celular de María Cantero, ex-secretária de Yáñez, e usadas como provas. “Ele é acusado de agredi-la no braço e no olho direito”, descreve o relatório.

No entanto, desde agosto há cada vez menos divulgações sobre o caso, um silêncio intencional e assustador, principalmente quando se leva em conta que tais atos foram cometidos pelo ex-presidente, tema que deveria estar em pauta constantemente. Na esfera política não são incomuns ocorrências como essa. No Brasil, o ex-ministro dos Direitos Humanos Silvio Almeida está sendo investigado por abusos que supostamente cometeu durante o período em que exerceu o cargo. Embora exista uma quantidade significativa de denúncias, o caso é amplamente questionado, pois há uma espécie de manto construído sobre bases ideológicas que não permitiriam que tudo isso acontecesse, considerando-se especialmente toda a reputação e prestígio que o ex-ministro conquistou nos últimos anos. O caso de Silvio é emblemático, pois evidencia a existência de uma deficiência nas análises sobre o machismo estrutural, o poder e a violência. O que vemos são inúmeras tentativas de fazer com que o tema tenha cunho político, quando o que deveria estar em pauta são as engrenagens que permitem que situações como estas sigam acontecendo.

Há um certo grau de dificuldade em dissociar a orientação política e ideológica de atos de violência. Cabe recordar todas as atrocidades proferidas pelo ex-presidente Jair Bolsonaro, que jamais deixou de lado sua misoginia. Atualmente, na Argentina, o presidente Javier Milei fechou de forma definitiva o Ministério das Mulheres. Segundo o presidente, tal ministério atendia a questões ideológicas e políticas vinculadas à gestão anterior, o que não correspondia à finalidade pela qual a pasta foi criada. De acordo com Bárbara, psicóloga demitida em dezembro de 2023 da função de analisar e encaminhar os diversos casos de violência de gênero do Programa Acompañar no norte do país, nas províncias de Misiones, Chaco e Formosa, “há muitas mulheres que estão passando por momentos difíceis, sem qualquer tipo de ajuda, e muitas não conseguem encontrar coragem para denunciar ou pedir ajuda ao Estado, e essas vítimas têm que voltar para casa, voltar para o seu agressor”.

Tudo isso indica que, independentemente do lado político, a questão da violência contra as mulheres segue como um tema patente e urgente, mas que ainda não encontrou uma forma de ser visibilizada da maneira correta. Apesar de muitos dizerem que o aumento da violência está ligado ao avanço dos movimentos de extrema esquerda, a realidade mostra que isso nao é verdade uma verdade absuluta, já que políticos de esquerda e de direita abusam, violam e silenciam quando lhes convém às denúncias e queixas feitas contra eles. 

Na última semana finalizei a leitura de mais um livro do escritor e sociólogo Edouard Louis. Assim como os demais livros que levaram o autor ao estrelato, este também explora sua vida íntima regada pela violência cometida pelos homens que conheceu. Do pai ao padrasto, o autor relata como poucos o impacto da pobreza na vida das mulheres e alerta sobre medidas que poderiam diminuir o cenário nefasto e abusivo que permeia a vida de mulheres pobres. Louis, no entanto, peca na análise quando entende a pobreza como o fator mais relevante dentre as diversas opressões que sofremos. Em Monique se liberta, Louis trata de demonstrar, assim como Virginia Woolf, como a falta de dinheiro é um fator que impede não só o exercício da escrita, mas também a real emancipação feminina, isto é, a liberdade. Mas pensar em liberdade não é um exercício somente prático, como afirma o autor.  Embora saibamos que a pobreza é um fator que desencadeia muitas vezes episódios de abusos, ela é uma aresta entre tantas outras. O acesso à educação, cultura, alimentação, ou seja, uma vida digna, auxiliaria as mulheres e teoricamente diminuiria a violência contra elas, mas não extirparia o problema. Quando pensamos nas bases do patriarcado, sabemos que não são somente as bases econômicas que determinam as mudanças necessárias para conter os danos gerados pelo patriarcado, mas sim as estruturas mentais que sustentam a sociedade. Nesse sentido, seria necessário repensar a educação de homens e mulheres, redefinir nossa cosmovisão construída e alicerçada sobre valores machistas. Novas pedagogias nas escolas públicas e particulares de todo o mundo, proteção efetiva por parte do Estado, políticas públicas e educacionais, além de penas mais duras, poderiam mudar algo efetivamente, mas, quando nos damos conta de que aqueles que estão nas esferas de poder são os que cometem crimes e seguem ilesos, concluímos que o problema é quase impossível de ser resolvido. Sendo assim, necessitamos como sociedade entender que a luta é mais profunda, com frentes distintas. Como afirma a antropóloga Rita Segato, há uma guerra contra as mulheres da qual talvez ainda não nos inteiramos por completo ou a qual tratamos de negar.

Diante de tantas questões, a pergunta que não sai da minha cabeça é: por que homens pobres cometem violência? Segundo Louis, seria pela falta de dinheiro e acesso a uma vida digna. Então por que homens cultos, com dinheiro e respeitabilidade social, também cometem atos de violência? A resposta é tão enredada quanto a pergunta, mas há indícios de que o fio condutor da violência é o poder. Quando Simone de Beauvoir afirmou que “o machismo faz com que o mais medíocre dos homens se sinta um semideus diante de uma mulher”, ela estava falando do engrandecimento e do poder que o patriarcado gera em homens de maneira indiscriminada. Ricos, pobres, de esquerda ou direita, homens cometem atos de violência, homens ainda são educados de forma equivocada, são criados acreditando que o modus operandi da sociedade é a impunidade, e isso baseia seus atos na certeza de que nada lhes acontecerá.  

No último dia 20 de dezembro, Gisèle Pelicot, 72 anos, conseguiu a condenação de seu ex-marido Dominique Pelicot, após dez anos de abusos. A vida que parecia tranquila foi transformada depois da prisão dele, em 2020, quando Dominique havia assediado sexualmente três mulheres em um supermercado na pequena cidade de Manzan, no sul da França.

As denúncias levaram a polícia a investigar Pelicot e, durante a investigação, foram encontrados vídeos que mostravam Gisele sendo violada diversas vezes – no total, ela sofreu mais de 80 violações, cometidas por homens que viviam na região.

“Não há agrupamento discernível por idade, trabalho ou classe social. As duas características que todos compartilham são o fato de serem homens e terem feito contato em um fórum ilegal de bate-papo online chamado Coco, conhecido por atender swingers e também por atrair pedófilos e traficantes de drogas. Segundo os procuradores franceses, o site, que foi encerrado no início deste ano, foi citado em mais de 23 mil denúncias de atividades criminosas.”

O julgamento, que já ganhou ares históricos, principalmente pela posição adotada pela defesa da vítima, que permitiu que fosse aberto e que todos pudessem acompanhar de maneira efetiva, gerou comoção na sociedade francesa. A luta de Gisele terminou nesta semana com a condenação de Dominique Pelicot a vinte anos de prisão, pena máxima para tal crime no país.

O caso expõe toda a complexidade que envolve o tema, e evidencia que todo ato o  abuso é um ato de soberania, uma forma de exercício de poder que de alguma maneira precisamos erradicar.

No entanto, nos aproximamos do fim do ano e os índices de violência crescem e são alarmantes. Segundo o anuário da Organização das Nações Unidas (ONU) publicado no dia 25 de novembro, mais de 51 mil mulheres foram mortas por seus parceiros ou membros da família em 2023.

Segundo a diretora executiva da ONU Mulheres, Sima Bauhaus:

“A violência contra as mulheres e meninas pode ser evitada. Necessitamos de leis sólidas, maior compilação de dados, maior responsabilidade governamental, uma cultura de tolerância zero e mais financiamento para as organizações pelos direitos das mulheres e dos organismos institucionais.”

Há um longo caminho a percorrer, e todos os caminhos parecem complexos. Ainda assim, exemplos como o de Gisèle Pelicot mostram que o silêncio já não é uma opção. Que a indignação é uma ferramenta potente quando pensamos em transformações efetivas.

Que suas palavras ecoem na mente de homens e mulheres de todo o mundo e que a vergonha realmente passe para o outro lado, assim como a responsabilidade de séculos de violência sistemática.

Fontes:

https://www.ohchr.org/en/women?gad_source=1&gclid=CjwKCAiAjp-7BhBZEiwAmh9rBXW_shzXqW6Fd0cc3Hp4myNJ0aM5ENYdd9ZWmV4DgiXZ0h3vXd6QKBoCGIcQAvD_BwE

https://www.pagina12.com.ar/750322-el-acompanar-me-abrio-la-cabeza

https://www.bbc.com/mundo/articles/czr3ppjxzyko

Camila Koenigstein – Graduada em História pela Pontificia Universidade Catolica- SP, pós – graduada em sociopsicologia pela Fundação de Sociologia e Política -SP. Concluiu o mestrado em Ciências com ênfase em America Latina e Caribe pela Universidade de Buenos Aires (UBA) em 2018. Em 2023 publicou seu primeiro livro de poesia, intitulado Com quantos poemas evitamos a loucura,  pela Editora Patuá.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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