4 de junho de 2026

Crítica à ciência: histórica causa da esquerda, atualmente apropriada pela extrema direita, por Francisco Fernandes Ladeira

Em sociedades capitalistas, conforme já advertiu Althusser, a ciência é um dos mecanismos ideológicos da dominação burguesa.
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Crítica à ciência: histórica causa da esquerda, atualmente apropriada pela extrema direita

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por Francisco Fernandes Ladeira

Não há dúvidas sobre a importância da ciência para a humanidade. Com os avanços científicos, pudemos superar crendices das diferentes religiões e do senso comum, compreendo a natureza a partir de um viés racional, em detrimento de explicações míticas.

Uma chuva, por exemplo, não é ação de intervenções metafísicas, mas consequência do ciclo evaporação/condensação/precipitação. Do mesmo, quando chegamos a um determinado lugar pela primeira vez, e temos a sensação de já ter ido lá (déjà-vu), não se trata de indício de vidas passadas, mas falhas na interpretação da nova experiência em nossos circuitos cerebrais.

No entanto, como todo empreendimento humano (ou, como dizia Nietzsche, demasiadamente humano), a ciência não é infalível. Em sociedades capitalistas, conforme já advertiu Althusser, a ciência é um dos mecanismos ideológicos da dominação burguesa.

Essa associação histórica entre classe dominante e conhecimento científico fez com que a esquerda política se levantasse com uma das principais vozes críticas à ciência. Também na academia há importantes autores que se propuseram a debater a suposta neutralidade científica, como Thomas Kuhn, Paul Feyerabend e Bruno Latour.

Por outro lado, à direita do espectro político, há uma crença histórica nos poderes da ciência, sobretudo na corrente filosófica conhecida como “positivismo”, utilizada para corroborar acriticamente todos os progressos da humanidade (sem levar em consideração seus efeitos colaterais para as populações mais vulneráveis).

Já nos últimos anos, com a esquerda, em sua maioria adaptada ao status quo, mergulhada no identitarismoe sem a capacidade questionadora de outrora, coube à extrema direita preencher a lacuna de principal setor crítico à ciência.

Como sabemos, os adeptos da extrema direita atual – seguidores de Bolsonaro, Trump e Milei – não são conhecidos por suas capacidades cognitivas. Pelo contrário, eles tendem a aceitar explicações simplistas para todo tipo de fenômeno social (evidentemente, desde que vá em encontro a determinado viés ideológico).

Nessa realidade paralela, a ciência não seria parte da dominação burguesa, como denuncia a esquerda, mas está a serviço do “globalismo”; “tese” que sustenta discursos antivax e terraplanistas.

Esse tipo de postura pode ser inofensiva e apenas motivos de chacota –os terraplanitas, por exemplo – ou ter efeitos trágicos na prática, como foi o caso dos negacionistas no contexto da pandemia da Covid-19.

Além disso, no presente debate público, devido a inércia da esquerda anteriormente citada, quem minimante criticar a ciência corre a sério risco de ser rotulado como “extrema direita”. Denunciou as falcatruas da indústria farmacêutica; automaticamente é antivax. Questionou cientistas do IPCC da ONU; logo é negacionista climático. E por aí vai.

Diante desse cenário, ou a esquerda recupera sua antiga postura questionadora e antissistema, ou os setores da ciência que estão unicamente a serviço do grande capital continuarão avançando sem maiores problemas e seus críticos vistos como indivíduos excêntricos, que usam chapéu de alumínio e apresentam posicionamentos exóticos. 

***

Francisco Fernandes Ladeira é professor da Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ)

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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  1. GARRU JOÃO LUIZ GARRUCINO

    1 de janeiro de 2025 11:03 am

    Percebo faz algum tempo que não apenas religioes ou ideologias fundamentalistas todas, religiosas, políticas e econômicas, avessas às ciências, história, filosofia e democracia, são controladas pela estrutura de poder global do capitalismo das classes dominantes de sempre, e vão apenas reciclando-se a cada século ou milênio…

    Mas com as mesmas práticas e ações ou usando a velha educação heterõnoma, com vaticanos e doutores da lei, coronéis ou papas, e até capas pretas, imposta pelas cúpulas de cima para baixo e de fora para dentro, violando livre arbítrio e democracia, ncom castigos e recompensas, e petiscos para depois da morte, ou aqui e agora, condicionando seres humanos como animais…

    Embora os animais, mais espertos que humanos, se não ganharem o petisco aqui e agora reagem de alguma forma e recusam a continuarem realizando os truques pedidos pelos treinador ou tratador…

    Como o elefante no circo que pode sair derrubando tudo, o tratador e a lona do circo, e o cachorro que pode roscar ou morder ou ir deitar num canto sem dar a mínima para tratador ou treinador.

    E ocultam a educação autônoma dos espiritualistas racionais da França até hoje, libertária e revolucionária, de dentro para fora…

    E percebe-se que também áreas acadêmicas em geral são controladas pela mesma estrutura de poder global do capitalismo ou pelas classes dominantes, pelos lucros, negócios, etc. de alguns poucos sem servirem de fato a humanidade…

    No fundo até áreas acadêmicas de certa forma repetem a igreja na idade média sem aceitar que a Terra é redonda e girava em torno do Sol, e a lei da travidade, na medida em que não aceitam ou ocultam também das massas as implicações maiores da mecânica quântica como aborda o Hélio Couto, e da física quântica como aborda Amit Goswani e vários outros…

    Até áreas acadêmicas continuam presas no velho paradigma materialista newtoniano da física clássica tratando tudo ainda como partícula ou matéria e ignorando novo paradigma da física quântica de que sequer existe a suposta matéria, meras crenças humanas, sendo tudo energia condensada em baixa frequência…

    Mas até quando? Toda esta estrutura de poder global tanto do capitalismo, quanto das ideologias, e das áreas acadêmicas presas ainda no velho paradigma e servindo os lucros e negócios das classes dominantes estão com os dias contados e em algum momento serão implodidas em hecatombe global parecida a queda da URSS, do Leste Europeu e do Muro de Berlim, mas agora global…Vamos postar também texto das pesquisas com visão geral a respeito deste cenário global do circo das religiões ou ideologias todas gerando males do mundo ou exploração e selvageria e barbarie…

  2. Douglas da Mata

    1 de janeiro de 2025 12:41 pm

    Interessante.

    Dias atrás, um ótimo texto sobre o “controle” psiquiátrico e psíquico, onde a ciência médica se engajou na tarefa de controlar não a definição de “normalidade”, mas principalmente aquela de dizer o que é “anormal”, trazendo os indivíduos para uma esfera de intervenção permanente, geralmente, farmacológica….

    Foucault e Machado de Assis (O Alienista) já disseram antes o fenômeno.

  3. evandro condé

    1 de janeiro de 2025 2:35 pm

    Só gostaria de lembrar o estrago feito quando a extrema esquerda (Stalin era extrema esqerda? Mao?) resolveu se apropriar da ciência. A fome grassou.

  4. Paulo Dantas

    1 de janeiro de 2025 3:07 pm

    1 isto foi postado na internet deveria ter sido distribuído depois de impresso em mimeográfo… rsrs

    2 a ciência muda pois é ciência, verdade hoje serão revistas amanhã.

    3 quando se coloca ideológia em geral se faz bobagem , a história mostra , quando de diz “POR UMA CIÊNCIA (escreva aqui sua besteira)”.

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