12 de julho de 2026

Reveses, pessimismo e esperança, por Aldo Fornazieri

A semana passada foi marcada por uma série de  reveses para o governo Dilma: rebaixamento da nota de risco do Brasil pela Standard & Poor’s; crescimento das denúncias sobre a má gestão da Petrobras, algo reconhecido até mesmo por petistas; coleta suficiente de assinaturas no Senado para a convocação de uma CPI da Petrobras; sinais continuados de crescimento da inflação; más notícias acerca do setor elétrico por conta da escassez de chuvas no Sudeste por um lado, e pela necessidade de injetar mais recursos do Tesouro para manter as tarifas baixas, por outro; atritos na base governista; e, finalmente, queda de sete pontos na avaliação positiva do governo.

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Nem tudo está perdido, é claro, e mesmo com tudo isto, Dilma deverá iniciar o processo eleitoral como favorita. A troca de Ideli Salvati por Ricardo Berzoini é um sinal de que, depois de três anos e três meses de governo, a presidente percebeu que é preciso melhorar sua coordenação política para evitar desastres maiores. Dilma vem sendo beneficiada pela incompetência da oposição. Mas é preciso estar em alerta: em política, a fortuna (sorte), costuma mudar de lado e abandona, quase sempre, governos negligentes que não se mostram capazes de imprimir direção e sentido ao curso do Estado.

O fato é que existe um pessimismo generalizado na sociedade. Para alguns analistas, ele é exagerado, pois as coisas não estão tão ruins e o Brasil não perdeu o prumo na economia. Para outros, ele se justifica já que o governo teria emitido sinais excessivos de perda de rumo e sinais equivocados em várias áreas da economia, além da apatia na condução política do governo.

Há outra tempestade que se avizinha e que poderá atingir o governo federal, além de governadores e prefeitos: a necessidade de aumentar o preço das passagens do transporte público em várias capitais. Se as passagens aumentarem nos próximos meses poderão gerar um ambiente explosivo: a conjugação dos protestos contra a copa com novos protestos contra o aumento das passagens. O fato é que muitas prefeituras chegaram a um limite de suportabilidade quanto a conceder subsídios para o transporte público. Estão tirando dinheiro das creches, da saúde e da educação para manter baixas tarifas.

A única saída razoável para evitar o agravamento da crise no setor de transporte consistiria em implementar a proposta que o prefeito Fernando Haddad vem defendendo: a municipalização da CIDE (Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico), tributo sobre os combustíveis hoje de competência exclusiva da União. A municipalização da CIDE não só poderia conter o aumento das passagens, mas proporcionaria até mesmo sua redução.

As Razões do Pessimismo

O pessimismo que vem se disseminando pela sociedade tem três razões de ser: baixas perspectivas econômicas; sua fabricação pelo mercado financeiro e egarçamento social. A crise de perspectivas econômicas vem sendo determinada por alguns fatores: baixo crescimento, inflação elevada, sinais errados do governo e necessidade de ajustes duros no futuro próximo. Todos esses elementos estão relacionados. Ao combater a inflação pelo câmbio e pelo controle das tarifas administradas, o governo produziu dois males. Por um lado, o desempenho da indústria sofreu um impacto negativo, que é um dos fatores do baixo crescimento. Por outro, gerou-se uma crise no setor elétrico e na Petrobras pela depressão dos preços da energia e dos combustíveis. Seja quem for o próximo presidente, terá que fazer um ajuste duro nesses dois setores, o que implicará também numa política mais agressiva de combate à inflação.

O mercado financeiro, por sua vez, se aproveita deste ambiente econômico pouco animador, mas não descontrolado, para especular e para derrubar (eleitoralmente) a presidente Dilma. Isto ficou evidente na véspera da divulgação da última pesquisa do Ibope. Disseminou-se a informação de que Dilma cairia nas intenções de voto. A bolsa subiu, o que foi uma especulação, e também aproveitou-se do episódio para gerar um desgaste político-eleitoral contra a presidente com a insinuação de que, sem ela, a economia poderia melhorar. O mercado financeiro quer potencializar o pessimismo ante a possibilidade da continuidade do atual governo.

Em que pese não haver uma crise social em termos de desemprego, carestia e perda significativa do poder de compra, o pessimismo social vem se alastrando. As causas são várias. Vivemos numa sociedade violenta e moralmente degradada. A pesquisa do IPEA, que mostra que 65% dos brasileiros concordam que as mulheres que não se vestem adequadamente merecem ser atacadas, é uma evidência dessa crise moral. Nas relações sociais, no trânsito, na economia se expressam como uma espécie de vale tudo.

A Articulação da Esperança

Determinados grupos se arvoram o direito de fazer justiça pelas próprias mãos. O que se vê são ruas e avenidas bloqueadas diariamente, desocupações violentas, incêndio de ônibus e carros, justiçamentos, depredação do CEAGESP etc. Este clima de descontrole vai empurrando a maioria da sociedade para um posicionamento cada vez mais conservador. Várias pesquisas mostram que em relação a temas morais e de segurança pública, a sociedade se posiciona cada vez mais à direita. Neste momento não há, ainda, um grupo político capaz de capitalizar esse sentimento. Mas a tentativa fracassada de reedição da Marcha com Deus e pela Família é um sintoma de que poderá surgir uma direita autoritária organizada politicamente. O resumo de tudo isso é o fato de que as instituições e os agentes políticos e sociais não conseguem apontar rumos e não conseguem liderar a sociedade, agravando a crise de representação.

Como se sabe, com raras exceções, os políticos brasileiros são antimaquiavelianos, no sentido de que são desprovidos de uma ideologia republicana da virtude e subordinam o bem comum aos interesses pessoais e de grupos particularistas privados. Não usam, porque não querem e porque não sabem, a psicologia da esperança como meio fundamental de liderança política e de estímulo econômico. Na verdade, os governantes que assumem o figurino do gestor tecnocrata não sabem usar esse meio porque nunca lideraram o povo. É precisamente nos momentos de crise que a psicologia da esperança precisa ser mais usada.

Em 2008, no momento de pavor com a crise mundial, Lula simplesmente declarou que ela não atingiria o Brasil e que aqui não passaria de uma “marolinha”. Conclamou os empresários a investirem e a sociedade a consumir. Gerou otimismo num momento de desorientação e crise. Em contrapartida, hoje, o que mais se houve das bocas de Dilma e de Guido Mantega é a lamúria em torno crise européia, apontada como a vilã do baixo crescimento. Fazem uma espécie de exercício da psicologia da depressão. O governo precisa, de fato, de um forte freio de arrumação política para não desandar ainda mais.

Aldo Fornazieri – Cientista Político e Professor da Escola de Sociologia e Política.

 

            

Aldo Fornazieri

Cientista político e professor da Fundação Escola de Sociologia e Política.

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Carla Castanho é repórter no Jornal GGN e produtora no canal TVGGN

8 Comentários
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  1. vera lucia venturini

    1 de abril de 2014 2:30 pm

    Pois é. Só que um conhecido

    Pois é. Só que um conhecido meu que trabalha num grande banco particular (um desses que foi rebaixado pela S&P) participou de uma reunião com a gerencia central e o tema da reunião foi o seguinte. S&P não sabe o que fala, imprensa também não e a perspectiva do Brasil é de desenvolvimento pois  uma parcela da  classe C de hoje será o cliente prime do futuro. Tem muita perspectiva de crescimento futuro no capitalismo brasileiro.

    Se esta é a opinião de um figurão de um  grande banco brasileiro o pessimismo está onde mesmo? Na imprensa. E minha observação é a seguinte: esse excesso de pessimismo da imprensa não a levará a um descolamento até mesmo do mundo das altas finanças do país. Interessa aos bancos que a Globonews e cia todo dia bata no pessimismo?

  2. Calvin

    1 de abril de 2014 3:38 pm

    Eis um artigo de um torcedor

    Eis um artigo de um torcedor (de time de várzea) realista!

  3. Alexandre Tambelli

    1 de abril de 2014 3:54 pm

    Seria mais sensata uma

    Seria mais sensata uma análise que não comportasse a ideia externa e fabricada muitas das vezes, como fulcro do texto.

    Olhar um noticiário e esquecer de um eleitor real e compromissado com sua ascensão social? Não dá.

    Parece que o Professor Aldo joga verde para quem sabe colher maduro, um dia é claro, na base do eu falei eu avisei.

    Em 2012 disse que PT e PSDB fizeram estratégias erradas na eleição para Prefeito de São Paulo. O Haddad venceu!

    Não é todo mundo que vai votar dessa maneira, negativando tudo o que está ai. O tudo que está ai contará e o próximo Presidente(a) não pode acreditar que começaremos do zero.

    Nem em 2002 foi assim. O Plano Real estava ai e não se degringolou a inflação novamente. Nem será em 2014, quando o povão quer seguir no direito de ascender socialmente.

    para analisar a realidade é importante conciliar o mundo real e o mundo fabricado pela mídia, senão a gente fica refém do desequilíbrio entre o eleitor e o desejo de “construir ficcionalmente um Brasil caótico” em benefício particular, que é o que faz a velha mídia diariamente.  

  4. Eurico

    1 de abril de 2014 4:32 pm

    A versão dos fatos

    O autor simplesmente faz uma análise a partir das versões dos fatos vendidas pela Imprensa, oposição e setores financeiros.  Isto mostra como Dilma está perdendo, na medida que não consegue, não quer ou não pode divulgar sua versão à sociedade.  Ela se encontra imobilizada.  Não consegue mexer uma pedra no tabuleiro político que lhe permita sair para a ofensiva. Nem tudo está perdido. Ela precisa sair do rame rame em que virou sua boa administração e fazer política.   Chame o Lula,  crie fatos políticos,  assuma a direção dos fatos.  Imponha a sua versão  na pauta da sociedade.  Se achar que vai atravessar isto tudo ficando quietinha,  estará se arriscando a levar o pior, ela,  o PT e toda a sociedade. 

  5. carlosc

    1 de abril de 2014 4:36 pm

    Considerar

    Considerar revez reduzir custos de energia é um absurdo.

    Considerar que os combustíveis devem subir, por aumentos no exterior e descer com sua redução é outro absurdo.

    A Petrobras tem a obrigação de abastecer o mercado com combustíveis, coisa que nenhuma empresa privada fará. Aqui sim, falha a comunicação do governo com o povo.

     A oposição ser incompetente é outro erro: ela bate várias vezes por dia na Dilma, que é acusada até pela falta de chuvas ou pelo uso das termo-elétricas, construídas exatamente para suprir esses períodos.Tudo dentro de um script: usar a imprensa para trazer um pessimismo permanente a todos. À oposição falta sim, um programa de governo que ela não tem.

     

     

  6. Moraes

    1 de abril de 2014 5:15 pm

    Há uma porçao de coisas

    Há uma porçao de coisas relevantes na análise, sem dúvida. Mas há um suposto (aparentemente decisivo, para o argumento, que é duvidoso. Uma coisa é dizer isto: “O fato é que existe um pessimismo generalizado na sociedade”. De fato, é duvidoso que isto seja um fato. Talvez seja mais um “feito”. Poderia dizer isto: “O fato é que existe um pessimismo que se generaliza na sociedade”. A mudança é pequena, mas diz muito. Feitos (e não fatos) são decisivos em política. Aliás, é precisamente Maquiavel que diz isso. Se tomamos como “fato” esse suposto, o resto do argumetno se sustenta inequivocamente. Mas se dele duvidamos, a argumentação perde muito de seu vigor. E temos razão para duvidar. O analista nao pode transformar em eivdências suas imprssoes, decorrentes, por exemplo, de sua excessiva confiança no que se chama de noticiário”. Recentemente, esse “fato” foi noticiado via pequsia da Bloomberg entre investidores. O tipo do “fato” que era um visivel “feito” para jogar na politica, isto é, para produzir efeitos contra a politica do govenro, para mudar essa política ou mudar o governo. Mais do que uma “evidência”, é parte do jogo. Talvez fosse mais adequado lembrar (acho que o artigo aponta para algo assim) que o governo está perdendo não no terreno dos fatos, propriamente, mas dos ‘feitos’. Isto é, nao está produzindo ‘fatos’ suficientes para contrapor-se aos ‘fatos’ com os quais a midia e a oposicao (hoje indiscerniveis) pretendem acuar o governo. É mais ou menos previsível que um cenário de ‘otimismo generalizado’ favorece a continudiade do governo. A esperança de qualquer oposicao, por outro lado, é que o pessimismo se generalize. Dai, ela tem uma chance.

  7. Rogerio Rais

    1 de abril de 2014 5:24 pm

    A Pauta Reacionária

    .. o artigo do professor reproduz, talvez com um pouco mais de murismo – ato de ficar encima do muro -, uma coluna qualquer da catanhede ou do merval ou do sardemberg, ou um editorial qualquer da fsp ou veja … redundâncias de quando se observa apenas um lado da moeda …

    .. começa pela s&p … será que o prof desconhece a quem essa agência serve ? …

    .. os preços administrados … será que o prof desconhece que a gestão de política econômica do governo baseia-se nos princípios do emprego e da distribuição de renda ? .. da justiça social e de políticas públicas que previlegiam a maioria da população ?

    … má gestão da Petrobrás ? que conversa é essa professor ? a maior empresa do Brasil, lucros astronômicos, reservas espetaculares tanto no pós quanto no pré-sal, investimentos que regam toda a economia do país, desenvolvimento de tecnologias de ponta em todas as áreas de atuação … ou será que o prof está falando de valor de ações na bolsa de valores, ou de valor de mercado da companhia ? que eu saiba, a Petrobrás não está a venda … qualquer imbecil sabe que essa conversa é pura especulação financeira dos agiotas do mercado …

    … crise na área de energia ? onde ? nas folhas da imprensa golpista ? a propósito, tem mesmo o tesouro de injetar recursos no sistema para manter os preços acessíveis à população e ao setor produtivo, em vez de gerar resultados para as carteiras das tesourarias da banca …

    .. queda de sete pontos na avaliação do governo ? ora, prof, sabemos da manipulação desses resultados … é ibope, né … que, nesse caso, teve dois objetivos: manipulação especulativa no mercado de agiotagem, e manipulação política através das mídias golpistas … o prof se esqueceu que uma outro pesquisa, do mesmo instituto, no mesmo período, com a mesma base, indicou um outro cenário que indica a clara manipulação orquestrada pelo instituto junto à mídia e aos grupos que a sustentam .. nem uma palavra sobre isso, não é, prof !!!

    .. não vou mais me estender rebatendo os argumentos do artigo do prof … perda de tempo … poderia arrozoar que o que ele considera “baixo crescimento da economia” , 2,30 em 2013, está de bom tamanho para o país … não vejo como crescer acima disso com as taxas de desemprego tão baixas … não há mão-de-obra para sustentar crescimento maior … todos sabemos que não falta dinheiro para investimento, nem do tesouro nem do setor privado … entendo que o nível atual da Selic é para conter e operar o crescimento possível … o que, a meu ver, é um verdadeiro milagre, um “case” para a ciência da economia …

    … assim, prof, aguardamos um outro artigo em que possa nos brindar com alguma análise sobre o outro lado da moeda …

    Rogerio Rais

     

  8. Branca Teresinha

    1 de abril de 2014 6:54 pm

    Pessimismo repeteco

    O artigo repete, repete o pessimismo que a imprensa a serviço do pior que existe no país vem construindo para dizer ao eleitor que tudo está ruim e que o negócio é votar na oposição, esperança de redenção. Acho que o professor precisa ler mais, buscar fontes de informação fora da tecla sistematicamente acionada pela imprensa golpista. Acho que este artigo cabe na Folha onde tudo vai de mal a pior no Brasil e não num blog que procura discutir seriamente o país. Leia o post da Vera professor. Talvez fique um pouquinho mais otimista. Só uma pitada: a violência generalizada apontada no artigo não é responsabilidade do governo federal que manda dinheiro para os Estados atuarem. Estes é que devem responder por isso, em especial, o  governo de SP com o PSDB há 25 anos no poder. Melhorou em SP?

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