A bala de prata para derrubar o governo é a volatilidade do câmbio. Antecipo a conclusão, antes de expor o problema, para que sirva de alerta especialmente para os que trabalham, nesse momento, para enfraquecer o Ministro Fernando Haddad e flexibilizar a política monetária.
Está havendo uma enorme confusão nessa insistência para o Banco Central utilizar instrumentos macroprudenciais para controlar a inflação. Esses instrumentos são, por exemplo, requisitos de capital adicionais dos bancos, limites de exposição ao crédito, políticas de provisões dinâmicas etc.
Todas essas propostas partem do pressuposto que a inflação se deve ao aquecimento da demanda, o chamado hiato do produto.
Estima-se um PIB potencial – o nível máximo de produção que uma economia pode sustentar ao longo do tempo, utilizando plenamente seus recursos (como mão de obra, capital e tecnologia) sem gerar pressões inflacionárias. Depois, compara-se com o Produto Real. Se o Hiato do Produto (a diferença) é positiva, julga-se que a economia está aquecida e, portanto, tem que ser contida. E o caminho é o aumento da taxa Selic.
Modelo similar é o Hiato do Crédito – uma medida para saber se a expansão do crédito, não só bancário, mas também via mercado de capitais, está desviando do que seria a tendência.
Monta-se uma equação como se a inflação pudesse ter uma calibragem fina: se aumentar a Selic em xis, haverá uma queda de y na atividade, trazendo a inflação de volta aos limites fixados pelas metas inflacionárias.
Menciona-se o Adicional Contracíclico de Capital Principal (ACCP), um instrumento que permite conter o crédito dos bancos em período de expansão e liberar em período de escassez.
É o câmbio, estúpido!
Só há um engano central: o aumento da Selic não tem nada a ver com o nível de atividade, assim como o aumento da inflação. Na verdade, nem arranha.
Vamos a dois exemplos simples. Primeiro, o custo do financiamento para pessoa física.
- A taxa de juros média, nos financiamentos pessoais, está em 150% ao ano, ou 7,93% ao mês.
- Se eu adquirir um eletrodoméstico de R$1 mil, em 12 prestações, cada prestação sairá por R$132,19.
- Suponha que, com as medidas macroprudenciais, consiga o mesmo efeito de uma alta de 2 pontos percentuais da Selic – ao ano. A taxa anual do financiamento saltará para 152%, ou 8,01% ao mês.
- O valor da prestação sairá de R$ 132,19 para R$132,69 – 50 centavos. Alguém vai deixar de comprar?
Agora, o custo do financiamento de capital de giro para uma média empresa.
- A taxa de juros média está em 29%, ou 2,14% ao mês
- Um financiamento de R$ 100 mil, ao final de 6 meses sairá por R$113.578,00.
- Se aumentar em 2 pontos a taxa média, o empresário terá que pagar R$114.255,00, ou 0,77% a mais.
- Supondo que o custo financeiro corresponda a 10% do preço final do produto, haverá um aumento de 0,07% no custo de produção.
Basta um pouco de bom senso. É evidente que uma Selic de 2 dígitos desestimula investimento. Mas um aumento adicional de 50 centavos no valor de uma prestação vai desestimular o consumo? Um aumento adicional de menos de 1% no custo de fabricação de um produto vai desestimular a produção? Os consumidores vão deixar de comer mais alface ou mais feijão.
É evidente que não.
Quando fixa a Selic, o Banco Central mira um único alvo: a taxa de câmbio. A inflação brasileira tem uma causa central, além dos problemas ambientais: a volatilidade do câmbio. Aumentando os juros, entram mais dólares, há uma apreciação do real reduzindo os preços dos produtos comercializáveis – importados ou exportáveis.
O câmbio é essencial para o investimento produtivo externo, para as decisões de produção interna ou substituição por importados. Um câmbio estável é ponto central para qualquer tentativa de crescimento.
Há décadas venho apontando essa loucura de uma política monetária cuja variável de ajuste é o câmbio. Mas não dá para escapar da armadilha com voluntarismo.
Ocorre que o sistema de metas inflacionárias tornou-se dominante nas maiores economias. E todas elas se tornaram alvos dos grandes movimentos especulativos do capital.
Tudo é regido pelo chamado “carry trade” – uma estratégia pela qual o investidor toma emprestado em uma moeda, com uma taxa de juros mais baixa, e investe em outra moeda. Quando o investidor considera que o carry de uma moeda é baixo – isto é, está rendendo pouco -, ele tende a sair do ativo. E aí o câmbio explode.
Na grande corrida de dezembro passado, o carry brasileiro estava abaixo do carry do México e da África do Sul. Montou-se uma operação para trocar moedas, tirando investimentos do real e levando para os demais países. E aí o cartel do câmbio deitou e rolou.
O que esse fato ensina? Não adianta um país tomar uma medida de redução do carry, porque o dinheiro irá para outro país.
A situação brasileira só se acalmou quando a Selic subiu, o carry ultrapassou o do México e África do Sul, e o BC desmontou posições de derivativos com atuações de mercado. Depois, conseguiu gradativamente normalizar o câmbio.
As saídas estruturais
Nenhum país conseguirá sair sozinho dessa armadilha. As reclamações sobre o custo de carregamento do dólar são unânimes, vão do Brasil à África do Sul. Só uma ação articulada das principais economias conseguirá conter o ímpeto do dólar, ainda mais agora, sob a gestão errática de Donald Trump.
É por isso que conversas, com BCs da África do Sul, Índia e outros países, é o primeiro passo para controlar a hidra de Lerna do livre fluxo de capitais.
É importante entender que Fazenda e BC andam em cima de uma corda bamba. As pressões contra Fernando Haddad e Gabriel Galípolo podem ter um custo muito alto.
Se o BC apertar as medidas macroprudenciais, e não cuidar do carry, não segura o câmbio. E se não segurar o câmbio, a inflação vai para o espaço e acabará com qualquer possibilidade eleitoral em 2026.
Além disso, pelas regras do ACCP, a contração de crédito ocorreria só em 12 meses. Ou seja, com a economia sofrendo com a Selic em dois dígitos, viria a trombada do trancamento do crédito. E a inflação continuaria sendo sacudida pelo câmbio.
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fabricio coyote
27 de fevereiro de 2025 8:03 amaí entra uma canção de Raul Seixas; conversa pra boi dormir.
Jotapontomarcelo
27 de fevereiro de 2025 9:09 amPapai Nassif,papai Nassif,papai Nassif(*)mais uma q aprendi com vc,essa palavra macroprudenciais nem sabia q existia é muito BONITA ela,agora é incrível q sempre jogam contra o governo q faz o q pode numa terra arrasada,estão sempre fazendo armadilhas para ele,a moda agora é a queda da popularidade numa pesquisa tendenciosa feita em uma região (sudeste)fortemente antipetista q está sentindo muito a alta dos preços dos ESPECULADORES AGROPECUÁRIOS EXPORTADORES,a IMPRENSA PRECONCEITUOSA e antipovo já estão fazendo um escarcéu,uma novela diária de mil capítulos haaa mas deixa pra lá as outras 50 milhões de coisas boas q faz o governo !!!
(*)termo usado devido as leituras interessantes na infância da coluna Seu Dinheiro do:seu criador Luis Nassif no extinto Jornal da Tarde com consequência de pegar gosto pela leitura !!!!
Fernando de Aquino
27 de fevereiro de 2025 9:47 amOs argumentos são bons, mas não é bem assim. A limitação da alavancagem de crédito das instituições financeiras ajudam a combater a inflação, mesmo a de custos, pois desaquece a demanda e limita o seu repasse. Em todo caso, a inflação de serviços atual mostra que também temos inflação de demanda. Por fim, os efeitos de medidas de restrição ao crédito não afetam apenas seus preços, marginalmente nos exemplos apresentados, mas afetam ainda a quantidade de crédito concedido.
Baco.
27 de fevereiro de 2025 11:20 amCrédito não é renda, e não pode ser confundido com excesso de liquidez, que é controlada na política monetária do CMN via depósitos compulsórios), não é no Copom do BACEN.
Crédito é dívida, e sua expansão ou retração age tanto na inflação quanto uma bomba nuclear.
Ou seja, pode até resolver, embora os dados empíricos recentes neguem a hipótese, veja o fim do ciclo Bolsonaro.
Mas não é uma escolha difícil, se considerarmos que há outros mecanismos, que são interditados por quem lucra com a bomba.
É o câmbio, e antes, é a política!!!!!
Nosso déficit, e nossa dívida pública, e boa parte de nossa inflação, como país periférico do capitalismo são importados do país que se financia e se endivida na moeda que emite e impõe a todos como padrão universal de troca.
É esse o eixo da questão.
Eduardo Pereira
27 de fevereiro de 2025 10:44 amO pior é que o Nassif tá certo. Mas o cerco ao Haddad e ao Galipolo vêm , basicamente, da velharia que ainda esta no PT, atrapalhando diuturnamente o Lula e a galera da Economia.
Muita politica pra pouquissimo resultado.
Li que uma das grandes demandas e por infraestrutura. Sem falar da segurança. Lula disse que vão ser feitos 44 navios pra ressucitar a industria naval, morta pela lava jato, a operação do orgasmo precoce.
Uma ligação do Brasil ao Pacifico, na distancia de 4,400 km custaria 100 bi de doletas em linhas ferreas eresolução de problemas ambientais e de infra estrutura. Pro Brasil do Agro, grandes inimigos do governo, teria o mesmo efeito da transposição do S Francisco. Ia ter muita mão de obra e investimento em produção. è isso que o Brasil anda precisando.
MURILO MOREIRA
27 de fevereiro de 2025 11:21 amEsqueceu de citar algo sobre a SELIC que influência, SIM, e muito a inflação, com ela alta as pessoas preferem renda fixa a gastar ou investir, retira-se muito dinheiro da economia com isso, atrai-se dólares de fora para ganhar comos juros altos e com isso dólar se aprecia, reduzindo a inflação. Nem sou economista, só adoro ler sobre o tema, e fiquei perplexo de não ler nada sobre isso no artigo.
Marcos Lima
27 de fevereiro de 2025 11:39 amA raiz desse problema do câmbio é o déficit do Balanço de Pagamentos que está na faixa de 50 bilhões de dólares por ano. O Brasil tem que ter uma política de substituição de importações, redução de gastos com fretes, com a retomada da construção naval, controle na evasão de divisas, etc.
O artigo deveria ser mais claro de como seria esse controle sobre o carry trade, como seria esse acordo com BCs da África do Sul e outros países citados, como seria o controle sobre o livre fluxo de capitais e finalmente, dar nomes aos bois de quem são esses setores que pressionam contra Haddad e Galípolo.
Acho lamentável que o GGN seja tão temeroso quando o assunto é o mercado financeiro. Mas isso parece que também é regra entre os economistas, quem conhece o mercado financeiro e cambial, não fala, é quem fala, não conhece.
LEONARDO BARBOSA DE REZENDE
27 de fevereiro de 2025 12:08 pmDa dó ver os comentários dos “Pagadores de impostos” iludidos que a “Picanha” seria para eles…
Baco.
28 de fevereiro de 2025 11:07 amDá.
Mas dá mais dó é ver aqueles que se imaginam a salvo porque comem picanha.
Nesse ritmo, serão os que não comem caçando os que nunca mais dormirão.
Baco.
28 de fevereiro de 2025 4:47 pmCorrigindo.
Dá pena não.
Na verdade, eu torço para que sejam devorados logo.
Sem ódio de classes nada se transforma.
Baco.
27 de fevereiro de 2025 12:26 pmToda vez que o debate se aproxima de outras receitas, senão juros para conter “inflação”, ou mesmo sem se afastar, se aproxima se outras hipóteses, vem a sentença:
Os juros são horríveis, mas dão resultado.
Não dão, ou nem sempre, o que sugere duas premissas, uma científica e outra política, que são complementares e caminham bem, se as considerarmos juntas:
Se a alta de juros nem sempre correspondeu a baixa da inflação, caso recente, o ciclo Bolsonaro, teve FHC e outros, e mesmo em Lula, onde a série histórica mostra juros em média muito superior ai resultado de baixa inflacionária esperada, em nome da integridade e legitimidade da ciência econômica, devemos procurar outras formas de ajustar a inflação.
Usar o argumento utilitário dos juros versus inflação é como sustentar todo sucesso de investigação policial na tortura, ou seja, ela funciona, mas nem sempre, mas a questão não é funcionar ou não, é, como na economia, uma escolha política (ética):
Vale tudo para chegar a um suposto resultado, que nem sempre se chega com o método defendido?
Qual o custo?
A não convergência da alta de juros e a contenção inflacionária revela que, talvez, outros indicadores e preços da economia influenciem muito mais, como defendeu (e eu sempre concordei) Nassif, sobre o câmbio.
O que sei, empiricamente, é que não se resolvem problemas complexos com soluções simplórias ou únicas.
Esse parece ser o cerne da questão.
Como jabuti não nasce em árvores, e nenhum fato existe sem causa (e sem efeito) parece certo que a interdição do debate já mostra que interesse motiva a aplicação do mesmo método para tudo, como óleo de rícino.
Flavio
2 de março de 2025 9:38 pmO carry trade é um movimento especulativo faz preço a curto prazo. Se o governo parar de gastar mais que pode, vai gerar confiança e passar segurança para o investidor que trará o dólar pra investir- dinheiro bom- . Se o governo parar de gerar PIB com recurso próprio, vai diminuir a inflação e vai cair o juros, na hora sai o dinheiro ruim e depois voltará o dinheiro bom. Os frutos só são colhidos com tempo. Um movimento econômico dura de 6 meses a um ano pra gerar resultado. O Brasil precisa é de um governo que estimule criação de empresas. Se ficar nessa de imprimir dinheiro pra inflar a economia sem empresas pra suportar o suply de dinheiro imprimido, o Brasil vai ficar nessa merda a vida toda.
Baco.
3 de março de 2025 11:36 amSim, Flávio, e essas empresas funcionarão dentro de um mundo onde empresas estão sumindo, e mesmo que estivessem em expansão, a pergunta é:
Em que posição relativa geopolítica?
Ora, o capitalismo é competidor e concentrador por sua natureza, então, as empresas de EUA, Europa, China e Ásia iriam parar, e dar o mercado para a sua versão de Ducado Empresarial funcionar?
Não adianta usar anglicismos, filho.
O que você sonha deixou de ter chance de existir em 1890, ou 1930.
É a história, estúpido!
É isso que faz a existência de países ricos e indigentes, como o nosso, incapazes de corrigir esse “gap”(olha aí o “ingrês”) de acumulação primária e investimento.
Acorda, Pedro Bó, o capitalismo está acabando.
O PIB industrial empresarial está reduzindo sus participação na renda mundial desde 1970, sem volta.
E nem chegamos a ter indústria de verdade, só substituição de importações.
Eita, esse povo cansa.
Robert Red
28 de fevereiro de 2025 8:29 pmO Haddad não sabe disso tudo ? ? ?
Carioca
1 de março de 2025 9:46 amNão é crível que membros do Congresso não saibam ou tenham conhecimento disso tudo. Para 99% da população economicamente ativa o que interessa é, literalmente, a sobrevivência.
O resto é existência de conluios que atravancam, como sempre, o “pogreço” e assim venderem ad eternum a esperança ….
Baco.
1 de março de 2025 1:30 pmEle não quer saber, essa é a questão.
Emerson Rodrigues de Souza
3 de março de 2025 8:48 pmO Brasil se alimenta de ROLEX.
O povo sabe o que é isso na experiência adquirida nos últimos 525 anos.
A mídia comprada pelos gringos que já não tem como explorar o próprio povo, vem e faz farta distribuição de ROLEX para os amigos dos amigos.
Nessa dançou o Pré Sal, a Petrobrás já era, a telefonia acabou, os “técnicos” não querem a exploração da margem equatorial…(Eles são muito bons em criar nomes e pautas).
Elegeram aqui quem quiseram com a pressão da mídia PIG. Chupetinhas, senhoras com tiaras nazistas, espanholas, filhos de micto, juizes ladrões etc, com um único objetivo: explorar pau brasil sem serem incomodados!
Ambientalistas?
O k 7.
Das floresta derrubadas nobody fala. Nem militares, Justiça, congresso, Janjas, nem nenhuma outra instituição que não seja o MST.
O que faz mais mal para o meio ambiente: retirar de canudinho o que está debaixo do piso do mar ou abater florestas em ritmo industrial?
Rui Ribeiro
5 de março de 2025 9:15 amDólar opera em alta e Ibovespa cai com tarifas de Trump; bolsas pelo mundo vivem dia de queda
Na última sexta-feira, a moeda norte-americana teve queda de 0,25%, cotada a R$ 5,8372. Já o Ibovespa, principal índice acionário da bolsa de valores brasileira, teve um recuo de 0,61%, aos 126.135 pontos.
https://g1.globo.com/economia/noticia/2025/02/03/dolar-ibovespa.ghtml
De acordo com a notícia acima, “se a inflação voltar a subir muito acima da meta do Fed, a instituição pode promover novas altas nos juros do país. Juros maiores tornam a tomada de crédito pela população e empresas mais caro e, por isso, o consumo tende a reduzir, tirando a pressão sobre a inflação”.
Esqueceu de complementar que a redução do consumo arrefece a economia, gerando menos negócios, fechando empresas e causando desemprego.
Os Brasileiros copiam os estadunidenses em muitas coisas… ruins. Mas quando o que vem dos EUA é bom, os brasileiros rejeitam. Como por exemplo:
“Nesta terça-feira (25), o deputado Frank Lucas, chefe de um novo painel do Congresso norte-americano que está se preparando para fortalecer a supervisão do BC dos EUA pelo Capitólio, disse à Reuters que planeja uma ampla revisão de como a instituição toma suas decisões sobre juros, incluindo se o controle da inflação do país deve ser priorizado em relação à proteção do emprego”.
Aqui nestes Tristes Trópicos elevam-se os juros prá estratosfera, arrefecendo a economia e, em consequência do arrefecimento da atividade econômica, dispensam-se trabalhadores, enquanto os especuladores se locupletam (com as absurdas taxas de juro) e a inflação, que segue seu curso independentemente da elevação da taxa de juros, piora o poder de compra dos trabalhadores. Galípolo, quando o Senhor for tomar suas decisões sobre a taxa de juros, pense se o controle da inflação (fake) e o consequente locupletamento dos especuladores devem ser mais importantes do que a proteção do emprego.