do Blog da Boitempo
por Cauana Mestre*
Adolescência é uma minissérie britânica criada por Jack Thorne e Stephen Graham e dirigida por Philip Barantini. A trama gira em torno de Jamie (Owen Cooper), um garoto de 13 anos acusado de matar uma colega de escola. No início, parece se tratar de um suspense policial, mas, de repente, a série cresce e se torna maior do que ela mesma, e um tratado sobre todos nós.
Se, no suspense convencional, a pergunta que orienta a trama é sobre a identidade do assassino, aqui a gente só tenta desesperadamente entender como pode alguém cometer sozinho um crime tão brutal e não ser o único culpado. A responsabilidade pelas facadas obviamente é de Jamie, mas não acaba nele.
A adolescência é sempre a placa sensível da cultura, que escancara o mal-estar da subjetividade de uma época por instalar-se exatamente na fronteira em que as ambivalências se destacam. A psicanálise me ensinou que o adolescer é uma resposta à puberdade, ao trauma do corpo que se transforma e da identidade que se perde, se atualiza, se reorganiza em torno dos signos que a cultura nos oferece. Imagine, então, habitar um corpo que parece estrangeiro, ser invadido por libidos e agressividades ainda desconhecidas sem ter as palavras exatas para elaborá-las. Essa é a travessia da adolescência em qualquer tempo, mas o que há de novo? Descartar o efeito das especificidades do nosso tempo sobre a subjetividade do adolescente, habitante das trincheiras da cultura, é um erro que não podemos cometer.
Somam-se a uma travessia já bastante difícil os ideais de performance que mudam a cada segundo, as demandas imperativas do capital, as imagens que se multiplicam na palma da mão, minando a possibilidade que o jovem tem de falar em nome próprio. O que significa ser uma menina e ser um menino hoje? Como é possível desejar sem invadir? Como encontrar um lugar no discurso quando não há mais discurso, há apenas a falação? E a pergunta derradeira de Jamie, tão cortante e desesperada: afinal, entre todas essas cartilhas, o que preciso fazer para ser amado?
Jamie denuncia essas questões, e quando digo que a série constrói um tratado sobre todos nós é porque escancara nossa cegueira coletiva. Ainda não aprendemos a ouvir os adolescentes, continuamos caindo no perigoso senso comum da aborrecência. O episódio final toca sobretudo os pais, que se reconhecem naquelas perguntas sufocadas. O que foi que não escutei? Onde estava meu olhar enquanto as portas se mantinham fechadas?
As redes sociais são o palco desse crime que termina no chão de um estacionamento, com uma menina morta e um menino destruído. É preciso uma mão para empunhar uma arma, mas o ódio que finaliza o ato é muito maior do que ato em si. A ascensão da extrema direita, que dá frutos como Red Pills e tantas outras formas de misoginia, destrói qualquer possibilidade que os jovens possam ter de inventar as próprias respostas para perguntas fundamentais. Quantos mundos precisaremos destruir até entendermos que o discurso coletivo funda grande parte do nosso mundo interior e que é o discurso, sim, que fabrica o ato?
Uma obra de ficção baseada em dados da realidade tem quanto de ficção e quanto de realidade? As filmagens em plano-sequência, sem cortes de cena, talvez nos ajudem a responder: é tão parecido com a vida que é a vida em si.
É preciso que nos vejamos nessa série. Nos pais que tentam, sem muitos recursos simbólicos, ultrapassar as gerações anteriores; na psicóloga que precisa ouvir o insuportável; na diretora de escola que não sabe como falar com os adolescentes sem a camada da arrogância adulta; na menina que perdeu sua amiga, a única que “a via como ela era”. Precisamos nos ver em Katie e em Jamie, ambos perdidos em um mundo virtual hostil e um mundo físico impossível. Para esperar um futuro precisamos saber que qualquer violência à infância e à adolescência recai sobre todos nós.
A atuação de Owen Cooper me destruiu completamente e não pude dormir naquela noite. Em minha cabeça apenas ressoava a voz de Sting cantando “how fragile we are… how fragile we are”.
*Cauana Mestre é psicanalista, mestre em Literatura pela UFPR.
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Fábio de Oliveira Ribeiro
29 de março de 2025 7:42 pmNa série ninguém compreende o fenômeno. Os personagens adolescentes são vítimas inconscientes da toxidade algorítmica viciante. Os adultos na escola, em casa e na polícia a ignoram até que uma tragédia aconteça. A psicóloga, coitada, não sabe como lidar com um problema humano de origem tecnológica.
Ver a série e não ver os smartphones e impossível. Ver o que realmente ocorre dentro deles e o que eles virtualmente causaram aos relacionamentos dos personagens (e entre nós também) é a tarefa ardua de quem tenta entender o drama.
Lênin and The Ulianovs
29 de março de 2025 10:21 pm“O único problema filosoficamente sério é o suicídio”, bem disse Camus.
Ao contrário do que se diz, o ato de se matar não é uma desistência da vida, mas uma percepção de que não vale a pena conviver com outros seres humanos.
Isso sempre foi o problema.
A violência é a essência do modo capitalista.
No aspecto físico, e principalmente, no campo simbólico.
Quanto mais suas contradições se tornam mais agudas, mais desacertos e desajustes sociais.
A série constata o óbvio:a humanidade não é viável.
Não é cegueira.
É pior, é distorção de imagem.
Os pais sabem os monstros que criam, e não querem fazer diferente.
Não é, portanto, falta de visão, é uma escolha por uma visão de mundo que acaba nisso.
Rede social não hipnotiza ninguém.
Assim como Hitler também não criou zumbis, com a ajuda de Goebbels.
Nada disso.
A Alemanha queria se vingar de Versailles.
Queria seu “lebesraun”.
Estavam todos bem conscientes.
Essa visão de “pobres seres humanos vítimas das redes sociais” é uma falácia.
O ser humano é mau por natureza, essa maldade é a causa maior da existência do Direito e de toda organização normativa e/ou estatal.
Nosso pensamento abstrato planeja a morte alheia.
É isso.
É esse o pilar da civilização, medo da morte e pulsão pelo assassinato.
As redes só aumentam a escala.